Esse livro é uma delícia. É uma fotobiografia composta por cartas, bilhetes de mário, fotos tirados por ele em suas viagens, fotos suas, de seus amigos. Há também reprodução de quadros de sua autoria, e coisas pessoais, como cardápios de restaurantes, cartões poestais ou sua carteira de identidade. Tudo isso é ilustrado por frgmentos de textos marioandradianos, selecionados por Telê Ancona P. Lopez, grande estudiosa de sua obra. Esses textos também são muito diversos: trechos de cartas aos amigos (como os modernistas Sergio Milliet, Murilo Miranda, Manu bandeira e Carlos Drummond de Andrade), bilhetes, anotações, poemas, excertos de contos, trechos do seu díario de viagens "Turista Aprendiz" ou trechos de crônicas suas. Enfim, é um material riquíssimo e saboroso pra quem é apaixonado ou quer se apaixonar por Mário. Suas confidências, seus gracejos, suas ideias, seus medos e seu desesperado: a imagem-de-mário que este livro apresenta é a de um homem fragmentado. Um homem que vive, inscontante, pois tem consciência de sua humanidade. Mário foi um homem brilhante, amou o Brasil como poucos, e provou isso como poucos também, através de seu trabalho. Mais que um grande escritor, um grande homem brasileiro.
Devo acrescentar que agora estou louco-louco pra ler "O turista aprendiz", os diários de viagens dele. São riquíssimos; vi isso pelos trechos aqui constantes. (tem um causo-piada que me arrancou risada, sobre uma aranha em seu quarto, numa de suas viagens. Tá na página 161 =)
Ah, Mário. Desvairado, uma gota de sangue em cada escrito. Grande homem, eterno aprendiz. Estou (já era, agora mais) fascinado.
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Destaco aqui um trecho que me interessa particularmente (que por sinal, é um belo trecho sobre amor, ódio e amizade), pois trata do rompimento da amizade dele com Oswald, este outro que admiro muito e tenho interesse em estudar sua vida mais à frente.
Ei-lo:
(da pág. 146)
"É curioso como de certas feridas que já passaram a gente tem um certo prazer melancólico de acariciar depois a cicatriz. Em amizade eu sou assim. A cicatriz se torna tão analisável, tão chuvisco miúdo... Falo isto porque outro dia ainda com um casal que eu quero muito bem, o Mário Pedrosa ea Mary Houston, não sei se você conhece, pensei longamente no Oswaldo de Andrade. Está aí um com o qual eu jamais farei as pazes enquanto estiver na posse das minhas forças de homem. Não é possível. Não há razões pra odiar, e talvez eu tenha odiado mesmo no princípio. Mas foi impossível, percebi isso muito cedo, perseverar no ódio. É besteira isso de falar que o ódio é sempre uma espécie de amor, não é não. Como tinha de recontinuar no amor, tive de abandonar o ódio. Como eu dizia pra eles, que nunca palmilharam intimamente o Oswaldo, e o consideram detestável e talvez abjeto, como eu dizia: o que hei de fazer, não faço pazes, não sei se existe, etc., mas a verdade é que eu quero bem ele. É sempre a observação genial da modinha: "gosto de ti porque gosto", e pronto, não se discute. E falei. Falei compridamente sobre o Oswaldo, recordei muito, reconheci tudo o que sofremos e gozamos juntos, e os sacrifícios e dádivas mútuas, acariciando a cicatriz."
-- Carta a Carlos Drummond de Andrade, 1934.
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O que posso dizer?
Ai.