A ideia de maior distinção de Gibson nesse trabalho é a de que a percepção dos seres vivos que se movimentam abrange o olho, o cérebro (todos os órgãos que compõem o sistema visual), mas também o próprio ato de movimentarem-se, assim como a sua locomoção ser permanentemente controlada pela visão, olfato, audição e tato ativados pelas substâncias que compõem determinado ambiente, ou seja, os pontos de possível trajetória são traçados pela referência visual. Tudo isso tornado possível por um corpo em contato constante com uma superfície estável, o chão. A utilidade de um objeto visualizado se concretizaria pelo fato de o animal que possui mobilidade estar apto a alcançá-lo.
Como o afirma o próprio autor, o fato de um ponto de observação em movimento é central para a abordagem ecológica à percepção visual. O ambiente dos animais e dos humanos é o que eles percebem, não sendo necessariamente o mesmo ambiente definido pela física, pois a realidade crua das escalas métrica e temporal, por exemplo, não são - e nem podem ser - percebidas em sua totalidade física, de extremo a extremo - daí o termo "ecológico" definido pelo autor, a percepção desses seres não estando nem na escala colossal do universo, nem na escala das partículas atômicas, estando sim ao nível do ambiente, do meio em que vivem. Na percepção desses animais que se locomovem, o ambiente não é formado por pontos geométricos e linhas, mas sim por pontos de observação e linhas de locomoção. À medida que eles se movimentam,
suas informações perceptivas modificam-se apropriadamente.
Ele também argumenta que o estímulo de informação do ambiente - como conceituado pela "percepção ecológica" - é bem diferente de nossa noção comum de informação, que seria algo a ser comunicado, implicando em um remetente e um receptor. Para ele, a informação para a percepção não é transmitida, não implica em um remetente e um receptor, "o mundo é especificado na estrutura da luz que chega até nós, mas cabe inteiramente a nós percebê-lo.
Os segredos da natureza não são para serem entendidos através de sua decodificação."
Ao diferenciar o arranjo óptico (que "ocorre quando há estruturação da luz ambiente em um ponto de observação") em sua "óptica ecológica" em duas estruturas, uma estrutura invariante e uma estrutura perspectiva, Gibson rejeita - pelo menos em parte - a ideia de um conjunto de pontos de observação estacionários no meio, ou seja, a ideia de que em um objeto retangular, por exemplo, cada projeção trapezoidal das variações de perspectiva sejam uma forma no espaço, uma transformação de uma forma para outra. Para ele, o arranjo óptico "flui no tempo", o movimento do observador modifica a figura superficialmente, mas suas invariantes continuam as mesmas, como as distâncias entre seus vértices.
Diferenciando ainda o nível de percepção ecológico com o da teoria atômica, ele assume que uma substância pode ser tão radicalmente alterada que ela pode ser pensada como sendo destruída do ponto de vista de sua superfície, e é justamente assim que é percebido pelos seres que habitam tal ambiente - de forma nenhuma ele rejeita, do ponto de vista da física atômica, que a substância continua existindo, com seus átomos rearranjados.
Por fim, depois de tudo que foi exposto nesse breve resumo do trabalho de Gibson, alguém poderia interpretá-lo como um tanto hostil à física, por exemplo. Mas esse não parece ser o caso, o que o autor deixa claro em sua abordagem ecológica à percepção visual é sua diferenciação da forma com que pensamos a percepção visual dos seres vivos que se locomovem, que ela só pode ser integralmente compreendida se entendermos que esses seres só podem levá-la a cabo restringida dentro da estrutura ecológica, do meio em que habitam.