Motivada pelo conto "Felicidade Clandestina", da Clarice Lispector, deixei de ler apenas excertos ou adaptações das obras de Monteiro Lobato e li As Reinações de Narizinho. Acho que o autor desperdiçou seu talento em escrever criando histórias inacreditavelmente racistas.
Hoje completa setenta anos que o autor faleceu, por isso me lembrei que sempre quis ler o conto Negrinha. Prefiro não me ater aqui ao enredo, pois é bem curtinho. Sendo assim, a única coisa que posso dizer, por enquanto, é que pude notar a irônica crítica à sociedade racista ao descrever uma personagem:
"Excelente senhora, a patroa. Gorda, rica, dona do mundo, amimada dos padres, com lugar certo na igreja e camarote de luxo reservado no céu. Entaladas as banhas no trono (uma cadeira de balanço na sala de jantar), ali bordava, recebia as amigas e o vigário, dando audiências, discutindo o tempo. Uma virtuosa senhora. Em suma, dama de grandes virtudes apostólicas, esteio da religião e da moral, dizia o reverendo. 'Ótima, a dona Inácia'...".
Embora eu tenha gostado de ler Negrinha, acho que o fato dessa obra ser irônica não reduz o fato de que há diversos indícios de racismo nas obras de Monteiro Lobato. Ele certamente contribuiu bastante com mitos e expressões racistas. Fico imaginando agora como seria se ele não tivesse publicado seus pensamentos, e que, provavelmente, se não fosse ele, seria outro a fazer o mesmo. Infelizmente.