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    Couro de Gato - Uma história do samba

    Carlos Patati

    Veneta
    2017
    144 páginas
    4h 48m
    ISBN-13: 9788563137739
    Português Brasileiro
    3.6
    32 avaliações
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    O Rio de Janeiro negro, mágico e trágico, do final do século XIX e início do século XX é o cenário de Couro de gato – Uma história do samba. A HQ de Carlos Patati e João Sánchez retrata o surgimento do samba na capital fluminense. Figuras-chave desse período, como Noel Rosa, Ismael Silva e Cartola, dividem espaço com personagens fictícios, como o protagonista Camunguelo.

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    Delirium Nerd30/08/2018Resenhou um livro
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    “Couro de gato – uma história do samba” dá visibilidade ao gênero, com breve menção às mulheres que o gestaram

    Romances gráficos estão ganhando cada vez mais espaço no mercado editorial brasileiro, e com razão. A qualidade dos trabalhos de quadrinistas, aqui e lá fora, aliada a um trabalho de pesquisa histórica e sociológica de fôlego, permitem não apenas o prazer de se ler uma boa história, como também conseguem formar e informar sobre temas constantemente ignorados pela mídia tradicional, como a misoginia, o racismo, a concentração de renda, a realidade de quem convive com uma deficiência e a exploração do meio-ambiente. A obra Couro de gato — uma história do samba, do quadrinista Carlos Patati e do gravurista João Sánchez, lançada em 2017 pela Editora Veneta, é um desses trabalhos. A técnica utilizada para criar os quadrinhos é a xilogravura, um tipo de gravura em madeira, e o resultado é belíssimo, com a criação de um cenário expressionista e sombrio que aos poucos se ilumina, conforme o samba ganha espaço e autonomia, um misto de paisagem onírica e realidade cruel, entre o mágico e o trágico. As imagens mais parecem fotografias de um filme noir, com o uso da técnica claro/escuro que permite à leitora mergulhar no suspense do Rio de Janeiro do início do século XX, com suas ruas e vielas misteriosas, com gatos pretos pelo caminho, o cenário urbano retratado tanto como um lugar de animosidade quanto como um espaço de resistência, a oprimir/abrigar sambistas classificados como marginais e perigosos pelo Estado racista. A pesquisa histórica e a linguagem utilizada são igualmente minuciosas. Como o próprio título menciona, esta é uma história do samba, e como não poderia deixar de ser, lá estão documentados o início e os primeiros anos daquele que viria a se tornar um dos mais potentes símbolos da identidade nacional. Da descrição dos cenários a partir do olhar de quem mora no morro e vê a cidade do alto, à reprodução do modo de falar da favela, a impressão é de que se está testemunhando o parto do samba tal qual ele aconteceu, entre os arredores do Morro do Castelo, da Praça Onze, no Centro Velho, e do bairro da Penha. Episódios importantes para a história da cidade e do Brasil são contados num tom de familiaridade e com uma singeleza que não tornam a leitura cansativa, e, em um país que ainda não valoriza e não dá o devido valor ao ensino da cultura e da história afro-brasileira nas escolas (cujo ensino é determinado por uma lei que não é cumprida, apesar da luta e da vigilância do movimento negro), Couro de gato poderia – por que não? – ser adotado como uma obra introdutória ao tema junto a crianças e adolescentes. Estão presentes na narrativa fatos decisivos para se entender a origem do samba e a mentalidade escravocrata que não acabou em 1888 e que buscou, senão pelo meio legal, pelo menos pela via administrativa e policial, marginalizar e acuar a população negra, formada tanto por escravizados que foram libertos quanto por seus descendentes. A promessa nunca cumprida de casa e trabalho para os homens negros que lutaram em diferentes campanhas militares é mencionada logo no início, uma vez que foi um fato importante para transformar a paisagem urbana carioca no início do século XX, assim como o êxodo rural crescente dos libertos que migraram para a então capital da República em busca de trabalho (precário). O sonho eurocêntrico dos administradores municipais de tornar o Rio de Janeira uma “nova Paris” — destruindo as casas da população pobre para abrir espaço para bulevares e largas avenidas, empurrando-os para os espaços mais precários e utilizando a força policial para conter os indesejados — levou os bambas do samba, aqueles e aquelas que deram início ao gênero e eram conhecidos/as por sua genialidade, para uma vida de privação e de nomadismo, e com a perseguição de seus/suas pioneiros/as, o samba também sofreu. Sem academicismos ou simplificações, por meio da fala de Camunguelo, o protagonista de Couro de gato, os autores relacionam a história do samba com a Revolta da Chibata, a Revolta da Vacina, a Guerra de Canudos e a diáspora negra da Bahia para o Rio de Janeiro, entre outros episódios de relevo. Um dos mais bonitos é o que menciona a Revolta da Chibata, ao contar a história do marinheiro negro João Cândido, rebelde que levou os colegas a apontar o canhão para a cidade, mas que recebeu de volta, do povo do morro, comida, apoio e até abrigo para que se escondessem das autoridades. A importância de se recuperar a história do samba é mostrar o longo caminho rumo ao reconhecimento – legal, mas também social – de um modo de viver, criar e pensar que por vezes é invisibilizado, ainda mais quando há um sequestro dessa cultura pela indústria milionária do carnaval e pelos meios de comunicação hegemônicos, ao mesmo tempo em que administrações como a do prefeito evangélico do Rio de Janeiro, Marcelo Crivella (PRB), tentam marginalizar e demonizar o que a ele está associado. Como afirma a pesquisadora do Museu Nacional do Som, Rachel Valença, em entrevista ao Ministério da Cultura, reproduzida pelo Huffpost Brasil: “O samba é o fenômeno mais impressionante do século 20, porque, em 100 anos, ele passou de perseguido a símbolo de uma nação, é uma trajetória muito gloriosa.” Em um momento em que essa perseguição parece ganhar força novamente, apropriar-se do tema é fundamental. Uma história do samba não poderia deixar de lado os nomes mais associados ao gênero: Noel Rosa, Donga, Sinhô, Pixinguinha, que interagem com Camunguelo e outros homens anônimos que simbolizam a identidade fluida dos que se dedicavam ao ofício. Como dizia o ditado em relação à autoria das músicas: “samba é feito passarinho, está no ar, é de quem pegar”. Por conta disso, não raros eram os casos de mágoa, inveja e sentimento de estar sendo traído por parte de quem não era incluído nos créditos das músicas e no pagamento dos direitos autorais. Em um aspecto, no entanto, os autores deixam a desejar, embora pareça haver um pequeno esforço na direção contrária: a forma como as mulheres são retratadas. É importante lembrar que o samba, por ser um gênero intimamente ligado à cultura negra e de origem africana, é um fenômeno que nasce a partir da experiência muito valorizada de comunalidade, de partilhamento de recursos materiais e imateriais, de uma noção de família estendida e de respeito à ancestralidade e aos mais velhos e mais velhas. E, neste cenário, é imensa a importância das mulheres, algo que se perdeu a partir da imposição do sistema escravocrata e colonizador por parte dos homens brancos proprietários ao resto do mundo. A ideia de que um modo de vida e de arte nascido no seio desta comunidade seja fruto exclusiva ou majoritariamente de homens é também se deixar levar por uma mentalidade patriarcal que divide e hierarquiza a sociedade de acordo com o sexo. O fato de que eles sejam visibilizados e celebrados não significa que tenham sido apenas homens os que estavam à frente deste movimento criativo e de resistência. sso diz respeito principalmente ao caso de Hilária Batista de Almeida, mais conhecida como Tia Ciata, uma sambista, quituteira, mãe de santo e ativista nascida na Bahia em 1854 que emigrou para o Rio aos 22 anos. A casa de Tia Ciata era o reduto dos grandes sambistas, onde ela os recebia com festa, apoio e comida, mas não apenas isso. Tia Ciata ela era própria uma sambista, tanto que começam a emergir relatos de que ela também compôs muitas músicas junto aos sambistas que levaram, sozinhos, os créditos, como é o caso de “Pelo telefone”, considerada a primeira gravação de sucesso do samba (embora não a primeira). Embora Tia Ciata e outras “tias” sejam citadas como as donas das casas onde as festas ocorrem, elas estão pouco presentes nas imagens e quase nada se fala sobre quem são individualmente para o processo criativo do samba – uma pequena nota bibliográfica ao final do livro discorre mais sobre Tia Ciata, mas, no entanto, a coloca como “matriarca” (o que é verdade), mas não como sambista. No geral, as mulheres aparecem na obra apenas como conquistas amorosas, aquelas que serão encantadas por meio dos versos e melodias do samba, e não como colaboradoras dos sambistas e guardiãs do conhecimento e artífices da resistência negra frente à criminalização do gênero. Este é o caso da personagem Clarinha, uma moça seduzida por Camunguelo que, inclusive, é muito mais velho do que ela – ela por vezes a chama de “tio” e ele, por sua vez, afirma que, quando ele estava presenciando os acontecimentos históricos da cidade, ela mal havia colocado os pés no mundo. Clarinha é apresentada como curiosa e inteligente, mas desaparece rapidamente de cena após passar a noite com Camunguelo e ser agredida pela tia depois de ser vista com ele por vizinhas, e planejar com o sambista uma fuga de casa. Uma vez que Noel, Pixinguinha e os demais homens são famosos e dispensam apresentação, não seria o caso de pormenorizar ou explicar quem são. Mas, no caso de Tia Ciata, uma mulher negra de imensa importância para a história do samba e também para o movimento negro e de mulheres, ainda invisibilizada pela História, seria de imensa importância explicar a quem lê quem é ela não apenas em uma pequena nota no final da obra, mas dentro da própria história; assim como dar mais expressão ao papel das mulheres na criação e desenvolvimento do samba, não apenas como matriarcas acolhedoras de homens geniais. Como afirma Juliana Gonçalves nesta matéria da Revista Trip sobre o legados das mulheres no samba: “Por muito tempo, as mulheres não tiveram vez no samba. Não que não estivessem lá, mas as rodas de samba, as composições, o palco e o sucesso eram territórios dominados por homens. A importância delas era minimizada. Ainda assim, sambistas mulheres de ontem e hoje deixaram suas marcas na história. Não pediram passagem, mas vieram com suas posturas questionadoras e atemporais nos versos sobre o universo feminino, sobre a vida”. Muitos nomes femininos ainda estão por ser conhecidos, é fato, já que as mulheres, enquanto sambistas, só passaram a ter visibilidade a partir dos anos 60 (com Clementina de Jesus e Dona Ivone Lara), porém, é importante sempre mencionar que as mulheres da grande família estendida que é a família do samba também são protagonistas desta história, enquanto letristas, criadoras de melodias, divulgadoras da cultura e pilares da resistência frente à criminalização e à invisibilidade do gênero. Em suma: as mulheres sambistas também foram (e são) “bambas”.

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    Carlos Patati

    Carlos Eugênio Baptista conhecido como Carlos Patati, foi um quadrinista, roteirista e pesquisador brasileiro. Começou a escrever roteiro de quadrinhos em 1989,publicando uma história ilustrada pelo veterano Júlio Shimamoto na revista Pesadelo da Editora Vecchi, também pela editora, publicou na revista Spektro. Teve trabalhos editados pela Eura Editoriale, da Itália, e pela Editorial Columba, da Argentina. Ao lado do desenhista Allan Alex, criou o taxista Nonô Jacaré publicado nas revistas Porrada, Mil Perigos, "Metal Pesado" e Brasilian Heavy Metal, e cujas primeiras aventuras foram reunidas numa edição especial pela Editora carioca Tipológica. A dupla de criação nessa época também roteirizou diversos quadrinhos de terror sem a presença do taxista. Ainda com Allan Alex, publicou A Guerra dos Dinossauros pela Editora Escala, O Segredo da Jurema, pela Editora Marques Saraiva, Sangue Bom, pela Opera Graphica Mestre em Comunicação Social pela Escola de Comunicação da Universidade Federal do Rio de Janeiro, onde ministrou a cadeira "Introdução às Histórias em Quadrinhos", durante dois anos. Este trabalho deu origem a revista "PHQ", publicado pela EBAL. Foi professor de Filosofia e orientador de fanzine para escolas de segundo grau de 1990 a 1997,] foi professor assistente no curso de Comunicação Social da UESC da Bahia, também foi curador das Bienais de Quadrinhos do Rio de Janeiro e consultor do FIQ (Festival Internacional de Quadrinhos) de Belo Horizontee da Comicon carioca, além de eventos similares menores. Escreveu ao lado de Flávio Braga o livro Almanaque dos quadrinhos - 100 anos de uma mídia popular, publicado pela Ediouro em 2009[9] e ganhador do prêmio de melhor livro de não-ficção para jovens oferecido pela Fundação Nacional do Livro Infantil e Juvenil Em 2017, publicou pela Veneta Couro de Gato, HQ ilustrada por João Sanchez[ sobre história do surgimento do samba, em formato de quadrinhos Carlos Patati morreu em 15 de junho de 2018, vítima de um infarto

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    Rio de Janeiro, Brasil

    Carlos Patati