Há cerca de um ano, pouco mais, pouco menos, escrevi sobre um autor e seus contos em livro de estreia: “Realmente diminutos os textos (somente dois ultrapassam duas páginas), se afiguram como ficções de um realismo sem disfarces, um realismo cegante na glorificação do real em sua maior crueza. À medida que a leitura avança assistimos ao desfile impiedoso e impenitente de personagens premidas por circunstâncias existenciais adversas. Em alguns a emoção é insinuada mediante um curto diálogo ou movimentação das personagens, noutros a fração de uma ideia vem à tona e noutros, ainda, não se descreve a emoção, sequer há a preocupação em sugeri-la. O simples acontecimento é a emoção”. Falava então de Mário Baggio e seu livro “A (extra)ordinária vida real”.
Muito bem, eis que agora deparamo-nos com nova obra desse autor. “A mãe e o filho da mãe – e outros contos”. E encontramos a mesma técnica de ver e fotografar flagrantes íntimos. Entretanto o autor experimenta outros recursos narrativos, envereda pelo fantástico, volta ao realismo, subverte o corriqueiro, tudo dentro de um apurado senso estético. Sem dúvida autor mais amadurecido e mais “antenado” com o mundo em que vive. Explico-me ao tempo em que aprofundo o pensamento: É que as ficções que Mário vem produzindo, servem em boa medida de ampliação dos horizontes de expectativas porque estimulam o senso crítico do leitor e servem como espaço de reflexão por representar os conflitos humanos dentro da perspectiva macro em que a humanidade vai afundando. A literatura de nossa era é marcada pelo esfacelamento, pela fragmentação, pela compressão de culturas, pela velocidade e intensidade. E temos no gênero conto um excelente instrumento por assim dizer, devido a sua ampla capacidade de transformação.
Em “Narrativa contemporânea: Investigações da crise”, texto de Denise Brasil Aguiar encontramos passagem que em linhas gerais, e numa perspectiva macro nos remetem a essa última obra de Mário Baggio que: “sugere de imediato algo da velocidade da existência moderna, como várias outras obras já fizeram, por outro lado, ela compõe, sobretudo, o sentido presente do esgarçamento de um tecido social que, idealizado pelo contrato social iluminista, perde-se nas agruras dessa sociedade em que imperam as muitas formas de exclusão e desencontro. São todos seres humanos comuns, cujos dramas não interessam especialmente a ninguém, mas que, tomados na perspectiva panorâmica e vertiginosa em que se apresentam, dizem algo acerca da precarização de nossa experiência contemporânea”.
E é assim e numa ordem por dizer histórica, lemos o conto: “Bandolo” onde nosso velho racismo é tratado com a mais completa crueza? Trechos: “Era Bandolo, e só isso bastava para apontar o filho de preto e neto de preto, ele próprio um menino preto e, por ser preto, achavam que não poderia ser nada”. >>> “Para Bandolo a cor da pele tinha peso, era uma dificuldade, um muro alto que separava sua vida da vida dos outros” >>> e ele tinha sonhos: >>> “Minha mulher vai ser bonita como fruta madura, uma mulher branca, uma dama” !!! >>>Até que; a triste figura é levada de roldão em uma intensificação do desenraizamento, da destruição de identidade, de pulverização de projetos e busca de uma cidadania plena. Em sua mente se instala a convicção estúpida: “Nada! Não vou ser nada, não vou ter nada, não vou fazer nada na vida”. Quantos Bandolos assim a nossa sociedade não tem produzido e, se não morreram, estão hoje encarcerados?
Lemos também um conto fenomenal sobre a ditadura no Brasil, porque ali está sutilmente exposto como a opressão se instala e massacra pelo puro e simples medo. Começa assim: “Naquele tempo havia o exército nas ruas, para cuidar da ordem”. É o conto “O rosto sob a navalha”. “Numa tarde de chuva” retrata a face cruel da miséria e a pobreza no Brasil quando um mendigo, um pobretão, um homem desses que não valem nada (e todo mundo sabe do que estamos falando), na fila de um mercado tenta contar moedas e notas amassadas para pagar R$ 12,62 o custo de duas laranjas, um filão de pão e três bananas!
Mas não pára aí, tem mais: “Pecados”. É retrato do mais fundo da alma humana no despertar da sexualidade. “Uma prece para Carolina”, o suprassumo da tara humana na abordagem do abuso sexual de uma criança. “De homem para homem” flagra o outro lado do machismo na contrapartida agressiva da homossexualidade reprimida. “No café com uma rosa vermelha” reflete a necessidade desesperada de fazer parte da internet com suas ligações frágeis e transitórias como emoções esparsas e fugidias, saltando erraticamente de um objetivo a outro quando já vamos perdendo também o sentido do que desejamos sexualmente. E na esteira dos desvios de toda sorte, se pode ler um conto como “Amor insuportável” o desespero afetivo levando à canibalização. Aí temos a desorganização, a decadência e a desilusão que marcam as relações amorosas, o devir histórico e o funcionamento do corpo social completamente falido ou por outra, as relações de força e violência destrutiva que organizam o tecido social brasileiro do presente.
À guisa de conclusão, que em literatura, como na vida, nunca virá, ficamos a nos perguntar porque mais acima escrevemos que “a humanidade vai afundando”. Dois contos nos levam a pensar mais profundamente a respeito; “Esta tarde vi chover” e “Ciclo”. E à propósito, a chuva, o frio, a tormenta, o aguaceiro, a sensação de dilúvio está presente em vários contos. A enlaçar a velhice do eu, a inexorabilidade do tempo como força dissipatória e a fragilidade ontológica do mundo vemos -“Esta tarde vi chover”, onde dois amigo Donato e Cirilo conversam num banco de praça e falam dentre outras coisas sobre a crise: “... essa cadela asquerosa que transformou a cara de toda a gente numa carranca horrível, menos a nossa que nós não temos nada a ver com isso”. E “Ciclo” que tem em seu último parágrafo: “Viver é tão breve e efêmero que agora, com a noite preta em todo o seu esplendor, ainda sinto o frio da lâmina da tesoura que cortou o meu cordão umbilical”. Registro irônico, que corrói expondo o cerne da reflexão crítica proposta, pensemos sobre e em frente, porque também não há como retroceder.
Livro: A mãe e o filho da mãe e outros contos, de Mário Baggio. Editora Autografia, Rio de Janeiro, 2017, 170p.
ISBN 978-85-518-0080-5