Chaim Katz aborda a questão da moralidade ao falar sobre culpa e verdade. Defende que o complexo de Édipo possui uma função fundamental, tanto para indivíduos quanto para grupos - evitar que a energia sexual (a libido) circule desgovernadamente, que ela siga em sua busca de prazer a qualquer preço. É sob o complexo que a vida social se torna tolerável. É desse modo que nasce a família e a ordem familiar, bem como a cultura e as relações sociais.
Complexo de Édipo - Freud e a multiplicidade edípica
Chaim Samuel Katz
O mais difícil ao se falar em complexo de Édipo é evitar que se entenda-o como uma simples narrativa de drama familiar. Essa cristalização favorece o uso normativo do complexo como uma série de objetivos subjetivos já estabelecidos previamente para que um sujeito seja considerado sadio psiquicamente. É nessa ideia simplória que florescem distorções para justificar curas gay e ajustes de caráter. Muito mais interessante é abstrair seu conceito para depois retornar ao concreto de forma menos torpe. O complexo de Édipo é uma ferramenta psicanalítica, uma hipótese de trabalho, que possui como função fundamental a organização psíquica da energia sexual (a libido), para que ela não circule desgovernadamente em busca de prazer a todo custo. É sob o complexo que a vida social se torna tolerável. É desse modo que nasce a família e a ordem familiar, bem como a cultura e as relações sociais. Também é sob esse complexo que operam a culpa e a vergonha como sentimentos introjetados para que essas limitações sejam fixadas. Esse mito trazido da Grécia para a narrativa psicanalítica é uma tentativa de explicar questões essenciais da Antropologia e da psicologia social da época, e que continuam com impossíveis respostas até hoje: a passagem de agrupamentos dispersos para um grupo social em que ocorrem inúmeros regimes de trocas e delimitações, a explicitação dos porquês do horror ao incesto, a obrigatoriedade da exogamia, o porquê das relações interditadas no interior da família, o significado da existência do tabu e da ambivalência emocional diante dele, os porquês das relações tidas como tabu organizarem a vida social, a ambivalência por referência aos mortos, amigos e inimigos, a impossibilidade dos contatos diretos com o sagrado, o significado do animismo e a onipotência das ideias, a significação do sistema e do banquete totêmicos, a função do sacrifício e das festas, a emergência especial da autoridade paterna e o lugar do pai, as origens paternas da religião, dos costumes, da arte e da vida social, o significado dos ritos, etc O Édipo está em busca dos modos de subjetivação, não das questões metafísicas do Ser. Uma garota ao fazer sexo pode pensar "o que vão pensar de mim", isso é o Édipo funcionando. Um filho de casal homoafetivo irá sentir ciúmes de um de seus papais ou mamães, isso é o Édipo funcionando. O recalque é parte inescapável da formação subjetiva. Essa delimitação pode ser saudável ao tornar o sujeito "maduro" para suportar os infortúnios da vida, ou pode suprimir desnecessariamente momentos de prazer dessa vida. A psicanálise não busca eliminar o sofrimento psíquico, mas transformá-lo e tornar possível ao sujeito suportá-lo e usá-lo.
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