A origem do amor - Crônicas, contos e relatos poéticos

    Filipe Moreau

    Laranja Original
    2017
    180 páginas
    6h 0m
    ISBN-13: 9788592875169
    Português Brasileiro

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    Krishnamurti Góes dos Anjos21/10/2017Resenhou um livro
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    Memória em evidência - Prefácio ao livro

    A crônica é uma forma textual no estilo de narrativa que tem por base fatos que acontecem ou aconteceram em nosso cotidiano. É gênero que possui relação estreita com o tempo, expressa em sua etimologia, pois a palavra tem origem no termo Cronos, personificação do tempo, de acordo com a mitologia grega. O tempo infalível, inevitável, que independe de qualquer vontade e transcorre e muda sem que deuses ou humanos possam retê-lo. Como afirmou Platão, aquilo que se afigura como a imagem móvel da eternidade. De caráter reflexivo e interpretativo, via de regra, parte de um assunto do cotidiano, um acontecimento qualquer para apresentar a perspectiva do autor, seu olhar particular, suas considerações sobre a narrativa que podem ser filosóficas, políticas, literárias etc. Jorge de Sá chama a atenção justamente para o ponto de partida da crônica no qual o narrador registra os fatos de tal maneira que mesmo os mais efêmeros ganham certa concretude ao possibilitar o estímulo da criação ficcional e poética do discurso. Machado de Assis entretanto já havia aprofundado o conceito do gênero ao escrever: “Há um meio de começar a crônica por sua trivialidade. É dizer. Que calor! Diz-se isto agitando as pontas do lenço, bufando como um touro, ou simplesmente sacudindo a sobrecasaca. Resvala-se do calor aos fenômenos atmosféricos, fazendo-se algumas conjeturas acerca do sol e da lua, outras sobre a febre amarela, manda-se um suspiro a Petrópolis, e La glace est rompue [ o gelo é quebrado], está começada a crônica”. O escritor Filipe Moreau nos apresenta neste seu novo “Livro de crônicas”, textos que ao lado dessas características supracitadas, trazem certo hibridismo que os aproxima da poesia e da ficção de caráter fortemente filosófico com pendores sócio-históricos que estimulam a fruição. Exemplo disso é a crônica “Pensamento político”. Inicia-se com reflexões sobre as reais possibilidades de se levar “uma vida poética num país como o Brasil”, e acaba por resvalar para o nosso sentir amoroso em sua concepção mais profunda: “ Puderam ver o mar, o grande mar que se estende por essa faixa em que outrora habitavam os seres nativos, não tão exclusivamente, posto que o mar em si transporta informações genéticas por todos os cantos. Assim mesmo, um simples banho resgata as peculiaridades transcendentes, purifica a alma, faz ver que o maior dos amores é interior aos seres, e que lá dentro habitam mutuamente ele e ela, dentro dela e dele. Enquanto caminham em seus trabalhos, um sente estar perto do outro”. Referimo-nos a pendores sócio-históricos. Que dizer, que pensar de um trecho como este da crônica “O país dos caranguejos” tão revelador de nós mesmos? “Caranguejos saem das tocas na inversa razão do novo. Só quando não há aparentemente nada que não seja o movimento do vento, das marés e do sol eles saem. E saem para uma continuidade dos que não constroem, apenas perpetuam. Para eles é como se houvesse um rito de primeira criação, que eles imitam. A ordem natural das coisas é cavar túneis, alimentar-se, acasalar-se e crer que as novas gerações farão o mesmo”. Filipe Moreau embora reconhecendo a força da linguagem, como acontece em “Uma janela aberta para ela”, onde escreve: “É muito fácil, através da instrumentalização de alguns, segregar a maioria da população através da língua. E só assim a propaganda existe. Através da linguagem você fala e troca, doutrina, impõe seu jogo”, não se mostra empenhado em trabalhar estilo, importa-lhe mais o pensar, o sentir, e o faz imprimindo em alguns textos um estranhamento desestabilizador. Porque a crônica permite este estar lá e cá, a incerteza, a reflexão, ver o poético em coisas que parecem comuns, mas aos olhos do cronista transformam-se em matéria-prima de novas interpretações. É então que o leitor percebe que a concepção lingüística utilizada para abordar determinado tema, sobretudo os de caráter filosófico, alcançou dimensões mais amplas a elevar a crônica ao patamar do simbólico, o resultado é que a expressão simbólica de sentidos não se comunica de maneira imediata. Exige reflexão. Veja-se “Segunda história – contos da caravela – Fingindo-se de Caramuru (Recuperação da loucura ou – o naufrágio)”, ou ainda “Universo à volta” do qual extraímos o trecho abaixo, e veja-se aí ainda assim, a revisitação da história brasileira: “Vários povos, com seus diferentes comportamentos e concepções filosóficas, resolvem formar uma pátria utópica. Para isso precisam de um território, e então inventam as navegações, escolhem o local e expulsam de lá o que antes havia. Funcionará? Com a sedimentação do código, por acúmulo de redundância, funcionará algum dia, e no momento tratemos de lançar informações novas, para que um dia se conectem, bordando os fios desta colcha, que por natureza apagará seus remendos, como pele”. Mesmo quando aborda tema delicado como o vício das drogas o autor em sua percepção criativa o faz em chave positiva de lúcida superação. Foca em cicatrizes que nos remetem a sentimentos de vitória, de conquista, de crescimento e de amadurecimento. Testemunho de que a jornada não se perdeu. Veja-se a crônica “Volta ao universo e às origens (Épico)”: “Já imaginava que era um penhasco, e que se voltasse estaria esfarrapado, mas não aceitou-se as alegrias propostas em nenhuma religião, nem o nome das “trevas”, apenas o deserto de si mesmo é que podia ser atravessado”. Há crônicas de um lirismo tocante como “A morte da avó”, “Explorando uma mitologia”, “Abelinha”, “Ilha” e “Início de namoro”. Mas é quando lida com a memória criativa como matéria-prima de suas crônicas que o autor obtém os melhores efeitos. Crônica “Terra sem mal”: “Não me lembro de outra jornada. Mas ainda vale, como meio termo entre ser e imaginar, a possível mensagem da memória inconsciente, das andanças da infância que vemos de perto quando lemos experiências alheias, nos lençóis d´água”. Tudo se transforma em passado. É uma das conclusões a que chega o autor. É verdade; mas o que seria da aventura humana neste eterno passado-presente-futuro sem a memória que nos coloca no topo da cadeia evolutiva, e que aqui se revisita atribuindo novos significados através da mudança da visão de mundo? É o maravilhoso poder que temos sobre a “grande dor das coisas que passaram” como escreveu Camões, e que a memória resgata a nos tornar seres únicos. Krishnamurti Góes dos Anjos Escritor e crítico literário

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