O controle social exercido pela ICOMI como estratégia de usos e ação sobre o território no Amapá, de 1960 à 1975 -

    Elke Daniela Rocha Nunes

    UNIFAP
    2014
    172 páginas
    5h 44m
    ISBN-13: 9788562359200
    Português Brasileiro

    A obra aqui apresentada aborda questões sobre o primeiro, maior e mais duradouro empreendimento produtivo da história do Amapá: a mineração de manganês de Serra do Navio, operada pela ICOMI.

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    R .11/11/2017Resenhou um livro
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    As abordagens e conceitos sobre a ICOMI, em um contexto popular, ressaltam sua importância com saudosismo e ênfase ao desenvolvimento promovido, resultantes de experiências vivenciadas nos áureos tempos da Empresa. O direcionamento nesse livro é interessante, valorizando elementos de investigação histórica, com um olhar racional, onde se evidenciam aspectos não tão conhecidos e que, de certa forma, surpreendem e propõem visão reveladora e diferenciada. A autora, professora da UNIFAP, aborda a ICOMI na perspectiva do capitalismo que a movimentou e levou a criação de estratégias para manter o domínio na região. Um governo fechado em paralelo ao governo territorial, que apresentou uma série de influências sobre a história regional em mecanismos de controle para sua ação. O primeiro aspecto abordado foi o resgate da história da região serrana, desvinculando da ideologia de que era um lugar abandonado, citando-se cultura extrativista, de subsistência e garimpagem presentes. Atividades que gradativamente se restabelecem após a saída da ICOMI. A estratégia empresarial foi de construir uma imagem de abandono e necessidade de sua instalação em condições irrestritas para promoção do progresso e benefícios. Nesse ponto, o Amapá é citado como mais benevolente com a Empresa do que o contrário, no ganho que teve. Uma análise que chama a atenção é que o minério explorado, de qualidade excepcional no cenário mundial, deveria ser equiparado em valor semelhante ao do petróleo, em benefícios para a região, mas o valor redundante para o território ficou em torno de 4% do que representava no mercado mundial. A questão da construção das vilas e todo o complexo da ICOMI, na caracterização de sociedades fechadas meticulosamente controladas, é abordada no contexto da ideologia fordista. Uma maneira de potencializar o controle empresarial em prol dos ganhos, com produção em larga escala e controle irrestrito, sem interferências. Interessante que o estudo ressalta esse controle em muitos detalhes, diretamente ligados à forma de vivência no complexo. Funcionários de níveis diferentes em hierarquia eram separados para não afetar o rendimento no trabalho, por isso a separação em contrastes como as casas. Havia rigidez para muitas coisas, até para festas informais, quando a distribuição de bebidas se dava por toneis de chopp, exemplificando outra forma de estabelecer um controle sobre a vida social. Os incentivos para maior eficiência incluíam promoções com premiações de bens materiais e destaque nas antigas revistas ICOMI. O cenário descrito é de controle social, rigidez na rotina e exploração, onde os maiores beneficiados eram funcionários vindos do sul e sudeste. A população local privilegiada era apenas dos trabalhadores, fechando-se essa sociedade para a realidade externa, que na prática vivia à margem do desenvolvimento aclamado. As compras restritas aos funcionários no mercado ilustram isso. Vemos também no livro pequenas estratégias que os funcionários usavam para fugir um pouco do controle rígido, como as compras informais para os colonos. Minha mãe fazia muito isso, como muitos serranos. As estratégias de governo fechado também são apontadas como causa da involução das vilas após a saída da empresa, por conta da dependência gerada e pouca autonomia do governo territorial nessa região. A dependência da ICOMI impossibilitou o fortalecimento da sociedade. Basicamente, subserviente e sem conquistas e construções democráticas. Tudo era gerenciado e dominado pela empresa sem participação popular, fadada à dependência. Há referências também à degradação ambiental promovida pela empresa, onde se destaca o estudo da contaminação no Elesbão em Santana, pelos rejeitos de manganês contaminado, seja por ser estocado em larga escala em uma região habitacional ou pelo repasse como material complementar na pavimentação asfáltica de ruas. O capítulo que mais gostei foi o quarto (último), que apresenta o complexo empresarial em suas construções, história e aspectos que, às vezes, são controversos, mas eficientes no planejamento da empresa. Tem abordagens sobre as vilas de Serra do Navio e Amazonas, o porto de Santana, a ferrovia e circunvizinhança, como a Baixada do Ambrósio, Vila do Cachaço e Elesbão. Enfim, um olhar sobre a ação desenvolvida pela ICOMI, desvinculada da emotividade saudosista de um grupo restrito, pautada em elementos históricos. Não é um estudo de desvalorização e sim de proposta de assimilação de novos fatores na percepção da história da ICOMI no Amapá. A obra foi publicada em 2014 pela editora da UNIFAP, resultante de trabalho acadêmico. Registre-se que essa caracterização costuma ser chata pelo tecnicismo, apesar da importância do estudo. Essa publicação, porém, conquista o leitor em uma leitura de descobertas e aprendizagens de maneira interessantes e prazerosa. Legal! Penso que deveria ter exemplares em todas as bibliotecas de nosso Amapá. Insatisfação, só com a UNIFAP, que faz divulgação e distribuição pouco eficiente desses livros. A gente não encontra em lugar nenhum para adquirir ou conhecer. Li porque me foi presenteado, quando até então nem sabia de sua existência. Falta distribuição em nossas principais bibliotecas de Macapá, para maior acesso e conhecimento da sociedade. Não se resume a isso, mas nessas simples linhas de conotação popular, um pouco do que entendi e compartilho, equivocado ou não, para percepção do livro. Ô UNIFAP! Envie, por gentileza, um exemplar para a Biblioteca Municipal e Ambiental de Serra do Navio, que quase não tem nada sobre a história regional. Essa obra seria uma adição espetacular ao acervo... Desde já, se assim for, nossa gratidão.

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