Alerto que por acaso do destino essa obra (pelo visto pouco conhecida) foi a primeira que peguei de Kierkegaard. Minha leitura pode então não ter sido capaz e captar algo que o autor desejou comunicar. Caso, no futuro, eu mude de opinião com respeito à mesma ao ler mais do autor, volto aqui.
Kirkegaard, em "O matrimônio", não argumenta. Ele cospe frases e palavras afirmando sofismas como se fossem verdades. Ele põe Deus quando lhe é conveniente e o remove antes que este seja responsabilizado por algo. Algumas passagens geraram-me certo asco dada ao grau desnecessário de cristianismo. Evidentemente, escolhi a obra errada de Kierkegaard para ler e ele inclusive me adverte: "Imagino que se um profano lesse estas paginas, muito lhe surpreenderia ver que uma questão tão simples possa custar-me tanto empenho". Esquece porém de advertir que um "profano" veria na sua discussão não somente uma prolixidade como também uma escrita cômica.
Os argumentos que mais me parecem coerentes são, entretanto, aqueles que ele diz "combater". É nesse momento que vejo clareza e objetividade nas suas falas. Introduzo então duas hipóteses sobre o discurso central do Kierkegaard neste livro:
- É um discurso-lixo. Visto que tem argumentos muito mal formulados. O que se complica ainda mais pois o livro é escrito como uma carta que *pretende* convencer alguém de ideias "impuras". Me parece que ele seria capaz de convencer somente àqueles que ao ver menção a "Deus" sentem que o argumento é forte.
- É um discurso irônico. Essa suposição introduzo para dar um pouco de esperança à obra. Aqui suponho que Kierkegaard anseia por nos convencer *exatamente do contrário* do que ele se alonga a falar. Daí as falas que ele "combate" serem bem formuladas e as falas que ele usa para combatê-las serem tão desprovidas de espírito. Ele estaria em uma "escrita por absurdo" mostrando o quão sem sentido são as ideias que ele diz ter.
Essa "psicologia reversa" que imagino dele deve, porém, ser apenas fruto da minha imaginação, visto que ele é reconhecidamente um existencialista cristão. Mas o que dizer? As coisas ficam tão mais belas quando o cristianismo é extraído delas, como quando um enfermo é finalmente liberto de uma doença que o acomete.
Uma citação que achei interessante no sentido "irônico":
"Amor, matrimônio: é a mesma palavra, porém, com um acento ora estético, ora religioso e ético. Não se ama mais que uma vez. Para realizar essa palavra se necessita do matrimônio." [...] "A meu ver, comprovação de extrema importância; porque se fosse certo que amamos várias vezes, a causa do matrimônio estaria perdida"
E minha resposta a isso é: Perfeito Kierk! ESTÁ perdida!.
Como últimos comentários ressalto que existem alguns aspectos interessantes como:
- a defesa de que os filhos devem ser bem cuidados
- a defesa de que a mulher não deve ser rebaixada ou humilhada (o que é algo muito interessante, dada a época)
- o conceito de que devemos sempre conquistar o outro durante um casamento ou união.