“Se a forma dos seus escritos é pictórica, se o conteúdo surge entre o real e o onírico, não é para impor um surrealismo vulgar. A descoberta é a da sombra de um desejo, de uma literatura selvagem que usa o clichê deliciosamente — porque ironicamente: “de que vale vencer, se todos nascemos derrotados. Todos nós morremos, não é?”, é o que nos propõe em A moça do corpo indiferente. Aquela que desistiu de tudo, se apresenta em primeira pessoa com seu niilismo pós-suicida, encontrando um bando de gatos no quintal, comedores da sua própria carne. É verdade que ali, nesse mundo de seres e objetos, há um homem, como em vários contos. Um homem que se torna só uma “imagem vulgar”. As heroínas seguem perdidas, feéricas, desligadas, no meio delas surge André, o homem da Mulher com avestruz (obra-prima) que, perplexo, ajuda-nos a desligar do real. Quem quiser ler sem se desprender do chão, custará a entender que os bichanos, sejam gatos, sejam avestruzes, são fantasmagorias como as pessoas. Que a carne humana que comem, ou as partes do corpo que permutam, são, no entanto, a parte oculta do real para a qual estamos cegos em um mundo plastificado. Sorte a nossa que podemos ler esses escritos tão vivos.” Marcia Tiburi – Revista Cult
A Moça Do Corpo Indiferente -
Regina Benítez
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Ver maisRegina Benitez foi, como consta na apresentação da escritora nessa obra, uma autora de muitos prêmios. Curitibana de nascimento, teve uma profícua produção jornalística e literária, o que lhe rendeu diversas premiações em concursos literários e publicações em antologias literárias. Falecida em 2006, deixou sua marca com suas contribuições para a literatura paranaense, cujo reconhecimento se deu ainda em vida, pelo que seu nome surge quando procuradas autoras mulheres que escreveram no cenário paranaense. "A Moça do Corpo Indiferente" foi o seu primeiro livro solo publicado, o que aconteceu em 1962. A obra é uma reunião de diversos contos. São diversos deles, todos em prosa e bastante curtos - ocupando cada qual algo entre 3 a 5 páginas. São histórias breves que trazem personagens em suas inquietações, em suas reflexões, em suas ações, sempre indo do início ao fim sem que se tenha um objetivo bem definido - exceto por alguns, como é o caso do velho que se joga ao mar em uma busca obstinada pelas sereias mesmo com os alertas de João para que não assim procedesse, ou ainda da menina que fazia bonecos de barro e os espetava com alfinetes, resultando em sustos e mortes de pessoas. É adotando um estilo particular de escrever que a autora dá vida aos seus personagens. Por mais benquista e louvada seja a autora, o livro não agrada muito. Talvez pela forma com a qual as histórias são narradas, de um modo objetivado que não se prende a todos os elementos costumeiramente presentes na narrativa literária, ou ainda pela ausência de algum fator marcante em cada conto, a obra não convence muito, tratando-se de um livro regular, mediano. Nelson de Oliveira, que assina a breve resenha presente na orelha do livro, registra que "os heróis destes contos (mulheres, em geral) são solitários ontológicos. Estão cercados de gente, animais e plantas, mas quase nada consegue atravessar a placenta que os protege do mundo exterior". Para o agrado de alguns, não tão agrado de outros, tem-se aqui a primeira publicação dessa renomada autora, a partir do que se pode conhecer um pouco do seu estilo de escrita.
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