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    O Corpo Impossível -

    Eliane Robert Moraes

    Iluminuras
    2017
    240 páginas
    8h 0m
    ISBN-13: 9788573215717
    Português Brasileiro
    4.6
    18 avaliações
    Leram38Lendo21Querem153Relendo0Abandonos1Resenhas1
    Favoritos2Desejados153Avaliaram18

    A fragmentação da consciência, considerada um dos princípios fundadores do modernismo, desencadeou de forma correlata a ideia de fragmentação do corpo. No período entre o fim do século XIX e a Segunda Grande Guerra, diversos artistas e escritores se voltaram para a criação de imagens do corpo dilacerado, dispostos a subverter a tradição do antropomorfismo para inaugurar uma estética contemporânea aos dilemas de seu tempo. Em O corpo impossível — escrito num estilo de notável clareza —, Eliane Robert Moraes recompõe o itinerário desse imaginário. Para tanto, promove uma análise da vertente do modernismo francês que vai de Lautréamont aos surrealistas, com particular atenção ao pensamento de Georges Bataille. Daí resulta uma fina interpretação do tema, cuja originalidade está justamente em colocar história e estética em diálogo. O homem moderno procura na arte o mesmo que na farmácia, “remédios bem apresentados para doenças confessáveis”, diz Georges Bataille, o estranho anjo inspirador desse livro sobre a figura do homem decapitado na literatura do século XX. Mas essa farmacopeia o leitor não encontrará em O corpo impossível. As doenças aqui tratadas são as piores, indo do fascismo até suas atuais versões mitigadas, isto é, a infelicidade a que nos resignamos numa rotina racionalizada. A doença está, por exemplo, no corpo bem modelado da estética nazista. E os remédios não são bonitinhos: eles exigem lidar com fantasias de terror, com o medo da castração e do despedaçamento, com a vergonha ante esse parente do rosto que é o ânus. Nada é bem o que parece. O que nos tranquiliza são as expressões ponderadas, o equivalente de sabonetes ou escovas de dentes, de uma higiene que nos proteja da escória e da morte. Mas que não protege. Excluindo de nosso olhar o assustador, só conseguimos que ele invada nossas noites. Escondendo pelos cantos as penetrações estranhas, só fazemos que penetrem cada recanto da vida. Daí, uma opção simples, em­bora paradoxal. Ou acolhemos os espectros da castração, e recebemos o melhor do surrealismo e do erotismo, e assim exorcizamos os fantasmas que constituem não só a nossa civilização mas toda a condição humana – ou nos fechamos a eles, cedendo à tentação higienista que, mostrou Freud, oculta uma fixação na fase anal. Nossa vida inteira se subordinará ao horror. Horror explícito, e talvez administrável (adjetivo, aqui, absurdo) ou ao menos vivenciável – ou horror denegado, e por isso hegemônico, predominante. Muito fica em aberto, neste livro de Eliane Robert Moraes, autora de obras importantes sobre Sade e o erotismo. Bataille e os seus nos convidam a uma catarse, mandando viver o pavor para exorcizá-lo? Ou sugerem outra coisa, uma relação mais intensa com o mágico, com os fantasmas? Uma coisa é certa: este livro, que também pode assustar, escancara o imaginário do leitor e, talvez, torne sua vida mais rica. Eis um dos maiores elogios que se pode fazer a um escrito. Renato Janine Ribeiro

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    Antonio Luiz Monteiro Coelho da Costa picture
    Antonio Luiz Monteiro Coelho da Costa18/03/2010Resenhou um livro
    4 (Muito bom)

    A arte da mutilação

    Das antigas deusas da fertilidade às banhistas de Renoir, o corpo humano foi o objeto mais privilegiado da arte. O século XX não contrariou propriamente essa tradição, mas com uma peculiaridade: grandes artistas preteriram o corpo belo, íntegro e idealizado em favor de estranhas deformações, mutilações e aberrações. Os ideais de beleza foram relegados ao kitsch – ou, pior ainda, à arte oficial de regimes totalitários. "O Corpo Impossível", da filósofa e socióloga Eliane Robert Moraes, conta a história dessa metamorfose da imaginação a partir das origens e do desenvolvimento da arte moderna, principalmente do surrealismo. Quanto mais os artistas recusaram a redução do corpo à sua capacidade de produzir ou de fazer a guerra, mais se mostraram fascinados pelas transformações e distorções, reais ou imaginárias, do corpo humano. As partes do corpo tornaram-se livres, separáveis e intercambiáveis – como em "Le Viol", de Magritte – para afirmar tanto a superioridade do prazer e da imaginação sobre a razão instrumental quanto as crescentes dúvidas acerca da identidade do homem numa era em que a espécie caminhava a passos largos para o horror das câmaras de gás e da bomba de Hiroshima. Fez parte da mesma estratégia chamar a atenção para o dedão do pé e outras partes mais baixas menos “nobres” do corpo em oposição à cabeça. Como conseqüência inescapável da verticalidade humana, quanto mais esta se eleva em pureza e na abstração, mais aquelas chafurdam na lama – fórmula que chega ao limite na retidão do militar fardado em posição de sentido, como também no patrocínio dos cânones clássicos da beleza acadêmica pelo nazismo. Os ícones mais representativos dessa recusa da razão instrumental foram o "Minotauro" e o "Acéfalo", que deram nomes a revistas publicadas por Georges Bataille e André Masson, o primeiro representando a libertação do instinto pela substituição da cabeça humana pela de animal, a segunda eliminando-a totalmente em nome do “caráter acéfalo da existência” contra as sociedades monocéfalas representadas pela cabeça imperativa de Deus ou do caudilho. A edição esclarece a exposição da autora com ilustrações numerosas, ainda que pequenas e monocromáticas.

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    Eliane Robert Moraes

    É professora de Literatura Brasileira no Departamento de Letras Clássicas e Vernáculas da FFLCH da Universidade de São Paulo (USP), e pesquisadora do CNPq. É autora de diversos ensaios, dentre os quais estão: O Corpo impossível (Iluminuras/Fapesp, 2002/ 2016), Lições de Sade – Ensaios sobre a imaginação libertina (Iluminuras, 2006/2011) e Perversos, Amantes e Outros Trágicos (Iluminuras, 2013). Traduziu a História do Olho de Georges Bataille (Companhia das Letras, 2018), e organizou a Antologia da poesia erótica brasileira (Ateliê, 2015), também publicada em Portugal (Tinta da China, 2017).

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    6 Seguidores
    São Paulo, Brasil

    Eliane Robert Moraes