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    A Palavra Algo -

    Luci Collin

    Iluminuras
    2016
    109 páginas
    3h 38m
    ISBN-13: 9788573215274
    Português Brasileiro
    3.3
    127 avaliações
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    Favoritos2Desejados424Avaliaram127

    "Algo aqui neste livro se faz, tanto quanto se diz. De que espécie será essa alguma coisa - essa coisa alguma? O que será o mistério 'que reaparece / nesse aqui / sem nem sê-lo'? Como pode haver tais haveres que nem sequer são, como um pássaro que inadvertidamente transita por um 'curso intransitivo'? É uma fascinação, A palavra algo, de Luci Collin. Esses poemas fascinam pelo muito que afirmam justamente a partir de uma tenaz negação. O próprio título, bem lido, exprime a ambivalência de um afirmar negando, que parece orientar - ou pelo menos sugerir - a poesia que o leitor tem nas mãos agora. Trata-se da palavra, não de um suposto ente que se possa avistar através dela, existindo independente da nomeação. Mas o resultado de uma escrita dessa forma obstinada é por fim a mais generosa abertura: todo um mundo que se acrescenta ao mundo que só assim pode ser capturado. Essa palavra que se imprime, 'flama na folha de rosto', impressiona por si mesma. Mais do que a beleza que há, está empenhada em buscar 'algo da beleza que pode ser'. É o instrumento de um Prometeu à parte, que com ela rouba 'algo de fogo' com que chegue a avivar-se. Mas sua condição é negativa, é 'sem': implica certo exílio, certa rareza, 'algo de fenda e de artifício'. Para tamanho afã existe um lugar: aqui. Volta e meia a poeta relembra o leitor de seus algures, de tudo o que desfila na poesia, onde o chão é linguagem, 'os passos da dança são um jorro / as falas são manjar', e onde se reedita 'o script que a vida assina'. O poeta - um editor, ou reeditor, 'galgo acorrentado / algo afônico', uma espécie de alter ego da vida. Não é tão dele a autoria: 'a tinta borra / hesita / ela mesma tem lapsos / e talvez falsifique as cenas'. Esse 'aqui' da poesia de Luci Collin é esse 'talvez' que ela insinua, movediço e plástico, desprotegido e imune, mas sendo 'o que mais / redunda / sobeja / remanesce'. Só assim é possível considerar, ao ver a diva séria, que ela tenha 'talvez um molar doendo', com a surpresa de um humor muito característico, que é uma das marcas mais felizes da autora. A oscilação, seu hesitar entre o veraz e o verossímil, inscreve a poesia na ordem ambígua e às vezes perturbadora do ficcional. O que é 'sem' também se faz 'como se'. Essas 'palavras assustadiças' são flores (outro já disse que seriam fezes) que a poeta veio pronunciar 'como se / um beijo'; são 'flores excêntricas' que ela veio prestar 'como se / um salmo'; são 'certezas indivisas' que ela veio declarar 'como se / um lírio'. Desde o início, se a escrita pode estar falsificando cenas, 'o poeta finge', numa proposição em que o eu afinal não é senão 'resto', um restar, que também significa alguma permanência mais perene nesta vida. Assim emerge no poema 'o âmago desimpedido / de um esplêndido / algo' que talvez não estivesse aqui antes de ela modelar seu 'como se'. Fingidamente é ele que ilumina todas as coisas e todos os bichos que interagem nestas páginas, 'à luz de algo / que se vê / aqui'. Essa iluminação - tão bela, às vezes até euforizante! - vem explicitar uma esperança só da poesia ('que talvez esteja num será'). É a confiança que Luci Collin reativa na convergência entre a vida e a escrita mesmo sem nenhuma imediaticidade que reenvie esse algo daqui a qualquer objeto estável fora da linguagem, que aqui só refere à medida que impõe uma realidade própria, insubordinável à nossa ânsia de controle sobre o mundo e sobre a representação dele que possamos projetar. Por isso o gume afiado da poesia de Luci Collin é bálsamo também, sem deixar de ser cortante." - Sérgio Alcides

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    Ygor  A. R. Gouvêa picture
    Ygor A. R. Gouvêa27/12/2021Resenhou um livro
    5 (Perfeito)

    Ah, a tal da semiótica. Começamos um livro, a ler e inevitavelmente interpretar, algo nos impulsiona, associamos ideias, imagens, inconscientemente fazemos escolhas, somos levados por um turbilhão subjetivo, mesmo quando nos convencemos do contrário, o consciente vem a posteriori. Um ponto, uma passagem nos atrai no emaranhado do texto, a partir daí ou mesmo antes já estamos previamente caminhando sob um fluxo pessoal, que diz muito de nós mesmos, do que buscamos e acreditamos, mas também nos impulsionam a caminhos inesperados, a centelhas instantâneas de contemplação, que nos eleva a um ponto entre nós e o texto, a momentaneamente ter acesso ao infinito, delineando um outro estágio de nossa realidade. Em outros momentos, pontos diversos podem nos atrair, o que naturalmente nos leva a outras experiências e visões sobre uma obra, daí a importância não só de ler mas reler, de saber se afastar da leitura pra voltar a ela com novos olhos, aberto a novas possibilidades. É sempre importante se permitir, não se engessar, não buscar o mesmo, não se impor barreiras, limites, sempre começamos pela metade, nunca estamos realmente preparados, mas aí está a beleza da aventura. Creio que na leitura de poemas podemos mais facilmente enxergar isso. Poesia geralmente não possui interlocutores, é muito pessoal, o autor expõe dúvidas e angústias, estabelece imagens, símbolos que melhor representam pra si suas visões, seus momentos de efervescência criativa. Mas se engana quem busca uma cartilha, quem pensa que existem valores, significados predeterminados, cada autor tem um léxico particular, mas mais do que isso, mesmo que o autor possa ter uma ideia predefinida pra si mesmo, a obra deixa de pertence-lo quando publicada, claro que podemos estuda-lo, buscar estabelecer associações especificas pra suas imagens, engessa-lo, na verdade mesmo sem o fazer, sem de fato o estudar, é o que instintivamente fazemos a cada leitura, de alguma forma estabelecemos para nós mesmo o que a obra representa, o que certas palavras e expressões recorrentes podem representar. Poema é muito mais fácil reler, pela sua extensão, e não sei vocês, mas muitas vezes, mesmo quando o releio assim que acabei de ler, tenho a impressão de ter lido outro, novas associações, novas ideias me surgem. É claro que aos poucos também, à medida que lemos um livro de um autor específico, vamos uniformizando os possíveis símbolos de sua obra, buscamos afirmar para nós mesmos nossas suspeitas, nos colocamos a espreita de sempre encontrar no texto o que intuímos, sempre sim correndo o risco de limita-lo, mas também e principalmente de nos frustrar e estar sujeito a delícia de reinterpreta-lo, de mais uma vez nos afirmarmos que uma obra tem muitas saídas, que sua efemeridade e possíveis contradições fazem parte do gozo do texto. A movediça poesia de Luci Collin nos fornece este espaço, em toda sua diversidade, tende ao caos, ao desassossego numa busca constante de acessar o insubmisso, poesia que não só se faz, irrompe, e que também busca refletir sobre os instantes de ímpeto criativo, sobre esse limbo entre o consciente e o inconsciente, sempre buscando "flagrar a graça do visto", o que está implícito. Me abstenho aqui de interpretá-la, deixo este prazer pra vocês, a suas subjetividades. Luci é uma grande autora, merece ser lida e reconhecida. Texto escrito em novembro de 2020.

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    Luci Maria Dias Collin profile picture

    Luci Maria Dias Collin

    Luci Collin é uma ficcionista, poeta e tradutora brasileira. Graduou-se no Curso Superior de Piano/Performance (Escola de Música e Belas Artes do Paraná, 1985), no Curso de Letras português/inglês (Universidade Federal do Paraná, 1989), e no Bacharelado em Percussão clássica (Escola de Música e Belas Artes do Paraná, 1990). Concluiu o Mestrado em Letras/Literaturas de Língua Inglesa na UFPR (1993) com a dissertação "The quest motif in Snyder's The Back Country", o Doutorado em Estudos Linguísticos e Literários em Inglês na Universidade de São Paulo (2003) com a tese "A composição em movimento: a dinâmica temporal e visual nos retratos literários de Gertrude Stein" e dois estágios de Pós-doutoramento em Literatura Irlandesa na USP (2010 e 2017). É Professora Associada no Departamento de Letras Estrangeiras Modernas da UFPR, onde trabalha desde 1999. É Membro da Academia Paranaense de Letras ocupando a Cadeira n. 32. Em 1984 lançou seu primeiro livro, Estarrecer (poesia), recebido com críticas muitos positivas. Ao longo de mais de 30 anos de carreira, Luci Collin escreveu artigos e ensaios para diversos jornais e revistas literárias, participou de antologias nacionais e internacionais (EUA, França, Alemanha, México, Argentina, Peru, Uruguai), e recebeu prêmios de concursos de literatura no Brasil e nos EUA. Representou o Brasil no Projeto Literário no EXPO 2000 em Hannover, Alemanha. Também traduziu autores como Gary Snyder, Gertrude Stein, E. E. Cummings, Eiléan Ní Chuilleanáin, Vachel Lindsay, Jerome Rothenberg e Moya Cannon, entre outros.

    16 Livros
    11 Seguidores
    Paraná, Brasil

    Luci Maria Dias Collin