Criado por Davi Augusto, o projeto RGB-deadpixel nasceu de um financiamento coletivo e contou com o apoio da editora Draconian Comics, sendo lançado na CCXP 2017. Davi é um apaixonado por ficção científica, tendo como grande influência mangás e animes, como Akira e Ghost In The Shell. Como artista, entretanto, ele ainda não havia publicado uma narrativa autoral, fazendo de RGB-deadpixel a sua estreia.
A obra conta o prefácio de Lídia Zuin e isso trouxe uma ótima abertura para a HQ, pois Lídia consegue usar de seu conhecimento do subgênero cyberpunk e linkar isso com a intertextualidade da narrativa em nossa época, explorando os caminhos da ficção humana e os relacionando com nossa percepção de cores primárias. Então, com um tom de resenha, ela fecha o prefácio numa interessante proposta de conhecer a revista.
O enredo apresenta entidades que, ao se materializarem em nosso mundo, entram em conflito e revelam-se como forças que equilibram nossa realidade. Porém, é notável que não se trata apenas de uma narrativa comum, mas sim de um projeto gráfico elaborado a partir de vários conceitos que se unem para contar uma história.
O uso da tinta negra, ou (para quem preferir) a ausência de cor apresenta um grande domínio sobre a revista. Essa falta de “luz” propiciou uma forte atmosfera e um belíssimo contraste com o branco, deixando surgir detalhes na escala de cinza usada para os contornos, além de reforçar o uso das cores primárias utilizadas para compor os três personagens da trama. É bacana observar como essa ideia das cores primárias se misturam a trindade de forças da natureza e também é transformada em pixels dentro de nossas tecnologias de interface visual. Há muita subjetividade para se sentir nas entrelinhas da arte e da narrativa em RGB-deadpixel!
A influência oriental, algo comum principalmente no início do cyberpunk, permeia toda a obra. Há muitos kanjis e os samurais recebem nomes japoneses (além de códigos hexadecimais para representação de suas cores e seu comprimento de onda). Mas essa influência não é apenas visivelmente estética, pois se você já assistiu a alguns filmes, animes ou leu mangás, sabe que parte da produção oriental de cyberpunk tem uma abordagem guiada pela sua cultura, que difere na forma de explorar a narrativa como estamos acostumados nas maiorias das obras ocidentais. Davi parece ter sido guiado por esse lado oriental em sua criação. Mas para quem gosta de procurar elementos e categorizar tudo, vai encontrar nessa HQ o cenário urbano de uma metrópole e símbolos de nossa tecnologia digital.
A HQ pode parecer curta (apenas 52 páginas), mas está perfeitamente adaptada a esse formato (one-shot). Há poucos diálogos e os que aparecem são curtos, mas conseguem ser precisos ao criarem uma mensagem nas entrelinhas. Ainda sobre eles, por mais que que sejam poucos, são eficazes em retratar as diferenças das personalidades entre as três divindades. Davi Augusto colocou a conta gota esse elemento para que deixasse o resto com a nossa interpretação.
O papel usado tanto na capa quanto no miolo é o couché, diferindo apenas em sua gramatura. Esse material conferiu um ar sintético de nossa época e casa perfeitamente com o conceito do projeto. As páginas não são numeradas. Minha edição conta ainda com um sketch, um poster, e um postal, além de também ter recebido um link para uma versão digital.
Como disse, é um one-shot, portanto o conteúdo tem um fim definido, mas pela beleza do projeto, é natural querer mais. Esse desejo acaba sendo atendido com as ilustrações dos artistas convidados, Sapo Lendário e Magenta King.
Encerrando a revista, há uma pequena biografia dos envolvidos no projeto e uma última ilustração, que também é usada no postal do kit que adquiri. Meu exemplar chegou num dia de chuva, a embalagem estava molhada em alguns cantos, mas isso não chegou a danificar minha revista. Acredito que o material em couché me salvou!