Uma comunidade sem comunidade, ou ao menos sem uma ideia bem definida sobre comunidade, é o tema sobre o qual o filósofo Jean-Luc Nancy se debruça em seu "A Comunidade Inoperada", lançando diversos questionamentos e reflexões sobre questões que dizem respeito ao ser social - a sociedade e o papel desempenhado pelo indivíduo em seu meio. Escrita em 1986, a leitura filosófica-social constante na obra permanece atual independentemente do contexto em que seja lida, podendo se dizer que é ainda mais precisa ao considerar a dinâmica da sociedade cada vez mais esparsa e menos identificável enquanto conjunto na medida em que o tempo avança. Dividido em cinco partes, o livro busca "indicar que é necessário pensar e agir com novos ares" - conforme consta na contracapa. "A comunidade inoperada", "O mito interrompido", "O comunismo literário", "Do ser-em-comum" e "A história finita" são os tópicos trabalhados pelo autor em cada um dos capítulos, os quais, mesmo possam ser lidos isoladamente, comunicam-se no sentido de estabelecer uma visão geral a crítica sobre o que se perdeu na comunidade que faz com que não se consiga mais identificá-la enquanto tal. "A inscrição do pensamento de Jean-Luc Nancy na filosofia contemporânea está ligada principalmente à questão da comunidade, do ser-em-comum e do ser singular plural" - aduz Márcia Sá Cavalcante Schuback no prefácio. Isso é perceptível logo nas primeiras linhas de cada parte da obra em que o autor registra suas preocupações com essas temáticas. Na "Nota à edição brasileira", escrita trinta anos após a publicação original da obra e que abre essa edição do livro, o filósofo pontua que "a política perdeu praticamente todas as suas características de identidade, de fundamento ou de modelo", o que evidencia, enquanto um dos fatores que permite constatar o acerto na leitura de mundo feita pelo autor, que a obra é precisa e permanece atual.

