Marina Porteclis é brasiliense, nascida em agosto de 1978. Formou-se em Direito e, após ser aprovada em concurso público, assumiu o cargo em Recife (PE). Desde então, construiu sua vida no Nordeste, onde vive com sua esposa e seus dois filhos.
Na adolescência, ao se descobrir lésbica, Marina fez dos livros seu refúgio e guia, como tantas pessoas da comunidade LGBTQIA+ que buscam - nas entrelinhas da ficção - um espelho para se reconhecer. No entanto, o que encontrou foi uma literatura carente de representatividade e de histórias como a sua. Felizmente, esse cenário vem se transformando e Marina é uma das autoras que transfiguram esse novo caminho.
Autora de contos e romances, Porteclis soma 13 obras sáficas publicadas, sendo uma voz consolidada na literatura nacional contemporânea. Entre seus maiores sucessos estão Shangrilá, O Jardim Secreto, Androginia, Cidade dos Corações Partidos, Sob a Sombra da Figueira, dentre outros. A autora costuma dizer que escreve por destino e intuição. Essa afirmação pode ser confirmada a cada página: suas histórias são guiadas pelo coração e com a força de quem foi chamada a contar o que o mundo ainda tenta silenciar.
Em Sob a Sombra da Figueira, Marina nos apresenta Idelina Maria Fröhlich, uma jovem curiosa, idealista e apaixonada por literatura. Sua história se desenrola em uma das épocas mais repressivas do Brasil: a ditadura militar. Naquela época, o amor entre pessoas do mesmo gênero era visto como doença e punido com prisão ou tratamentos psiquiátricos violentos. Idelina, filha de um general do Exército, é levada a Recife para acompanhar o pai, que acaba de assumir um alto posto. Dentro e fora de casa, ela convive com o autoritarismo sufocante. Pode-se dizer que é um solo árido onde qualquer semente de liberdade parecia condenada a não germinar.
A nova moradia da protagonista reserva segredos. Lá, entre paredes carregadas de silêncio e memórias, Idelina encontra mais do que ecos do passado: descobre um cômodo esquecido, um espaço que se abre como um portal para algo maior. Nesse lugar, onde o tempo parece flutuar, ela reencontra a si mesma. Além disso, surpreendentemente Idelina se apaixona pela figura mais improvável: sua jovem madrasta. Esse sentimento, que floresce no terreno da impossibilidade, é a sua chave para libertação.
A figueira do título não é apenas uma árvore: é metáfora viva. Suas sombras representam o preconceito, a opressão, a mentira, o medo. Também, porém, são abrigo temporário, um espaço onde a alma pode descansar antes de voltar a crescer. Nem a luz nem a sombra são eternas, logo os sentimentos quando verdadeiros fincam raízes eternas. A figueira, símbolo ancestral de renascimento, torna-se imagem do amor que resiste, mesmo quando tudo conspira contra.
A escrita de Marina é madura, envolvente e repleta de simbolismos. Com capítulos curtos e prosa poética, ela constrói um romance que não só narra, mas toca. Um romance que não apenas denuncia, mas acolhe. Um romance que não finge respostas, mas convida à reflexão.
Se você busca uma leitura com representatividade sáfica, ambientação histórica, personagens complexas e uma escrita que pulsa emoção e lirismo, Sob a Sombra da Figueira é um convite para se perder e se encontrar entre palavras. Todes devem encontrar as suas figueiras ao longo da vida.
"[...] todas as mentiras que são enterradas, mais cedo ou mais tarde ressurgem como verdades reveladas" (Porteclis, 2010, p. 18)