A Tenda Vermelha é uma releitura da história do Gêneses da tribo de Jacó recontada pela perspectiva de sua única filha: Dina.
Fui ler sem grandes expectativa e no fim foi uma surpresa agradável, bem como, um livro marcante. Na bíblia, Dina é citada bem brevemente em um único cap como uma mulher violentada por um príncipe e por isso seus irmãos a vingaram fazendo assim Jacó e sua tribo se mudarem da região e este adotar o nome de Israel. Justamente por Dina não ter tido uma única fala, Anita Diamant decide dar voz para essa personagem e as mulheres de sua vida para contarem elas suas histórias. Nas notas finais a autora cita ter pensando primeiramente em escrever sobre a relação das irmãs Lea e Raquel, pois, Jacó tomou ambas como esposas e logo em seguida suas meias-irmãs Zilpah e Bilhah. Todas lhe gerarem filhos homens que fizeram sua tribo prosperar e as quatro, mesmo com suas diferenças, viviam em unidade por aquela tribo. Dina é a filha mais nova de Jacó e Lea (sua primeira esposa), mas tem todas as tias como mães. Por isso é importante destacar que esse livro deve ser lido como FICÇÃO, mesmo que eu particularmente prefira essa releitura a historia original contata tantas vezes pela perspectiva patriarcal.
Sinto um carinho especial pela mensagem do prólogo (me emocionei), em que Anita frisa o fato de que tantas mulheres fortes nas sagradas escrituras terem sido reduzidas a notas de rodapé. Do papel das mulheres na antiguidade e o quanto Lea e suas irmãs se orgulhavam dos filhos varões, mas sempre ansiavam por filhas - não só para dividir o trabalho - mas também para levarem adiante suas memórias, seus costumes e seus ensinamentos, pois, os homens nunca se interessavam pelo oq acontecia na tenda das mulheres.
"Quem quiser compreender qualquer mulher terá primeiro de perguntar como era a mãe e ouvir com atenção [...] Quanto mais uma filha sabe acerca da vida da mãe (sem vacilações nem recriminações), mais forte se torna."
Como plano de fundo para Dina ouvir os conhecimentos de suas mães temos a tenta vermelha: um lugar em que as mulheres se reuniam toda lua minguante durante o período menstrual (não visto com conotação negativa e sim como uma renovação). Um momento de repouso, cumplicidade, de se falar sobre a sexualidade, canto e dança. Um dos desejos de Anita Diamant era abordar o sagrado feminino, o amor, a amizade e cuidado entre as mulheres da antiguidade em momentos tão marcantes como a menarca, o parto, o nascimento e as perdas, todas apoiando umas as outras a mais pura sororidade.
"Na tenda vermelha, as mulheres dão graças; pelo repouso e pela recuperação, por saber que a vida vem de dentro de nós, surge entre nossas pernas, e que a vida custa sangue."
Lea, Raquel suas irmãs e Dina cultuavam outros deuses, eram naturais da mesopotamia. Não conheciam o Deus / El de Abraão, de Issac e de Jacó. Por isso li muitas críticas a respeito do livro e a abordagem mais mística, mas, me fez refletir sobre como e por que tradições femininas tão bonitas tomaram uma conotação negativa ao longo dos séculos.
Tente resumir o máximo que consegui tantas emoções que me passaram nessa leitura. O livro tem uma uma narrativa fluida, mas bem detalhista. Sem tantas transgressões formais, porém, não concordo com o subtítulo de que "assim seria se a bíblia fosse escrita por mulheres" Dina tem uma incrível história de superação assim como suas mães, mas, não busca ser um guia para o desenvolvimento da espiritualidade e a Deus como são as Sagradas Escrituras.
A Tenda Vermelha é um livro interessante para quem quer saber mais sobre figuras femininas esquecidas pelo passado - como a História tanto gosta de fazer com nossas mulheres.