O grafo do desejo -

    Alfredo Eidelsztein

    Toro Editora
    2017
    247 páginas
    8h 14m
    ISBN-13: 9788592779016
    Português Brasileiro

    Este livro reúne as aulas proferidas no curso de pós-graduação “O grafo do desejo e a clínica psicanalítica”, realizado no ano de 1993 na Faculdade de Psicologia da Universidade de Buenos Aires (UBA), no “Programa de atualização em psicanálise lacaniana”, sob direção da Dra. Diana Silvia Rabinovich. O livro foi publicado originalmente em 1995 pela Manantial (em 2005 pela Letra Viva) e já conta com traduções em inglês (Karnac, 2009) e italiano (Mimesis, 2015). Trata-se da transcrição das aulas do curso, nas quais o autor se dedica a um minucioso trabalho com o grafo, apresentando de forma clara e didática não apenas o passo a passo de sua construção por Lacan no texto “Subversão do sujeito e dialética do desejo no inconsciente freudiano” (publicado nos Escritos), mas propondo algumas interessantes articulações – por exemplo, entre a estrutura do grafo e a do oito interior. Para o leitor interessado no grafo do desejo, este livro é um guia de estudo, uma excelente oportunidade de entrar em contato com uma teoria que pode ser considerada a primeira entrada sistemática da topologia no ensino de Lacan. Mas é também a grata oportunidade de conhecer o estilo de transmissão de Alfredo Eidesztein, ao mesmo tempo rigoroso na leitura do texto de Lacan e generoso na oferta das bases necessárias para desvendá-lo.

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    César de Oliveira05/06/2022Resenhou um livro
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    O percurso da psicanálise é do fantasma ao desejo

    Alfredo justifica o uso da topologia considerando que a estrutura teórica/formal da psicanálise deve coincidir com a estrutura téorico/formal do sujeito. Ele apresenta cinco dimensões desta justificativa, no caso, que a topologia: i) ignora a forma, ii) não considera nenhuma função de tamanho ou distância mensurável, iii) permite uma relação entre o dentro e o fora, iv) subverte uma certa concepção da relação sujeito/objeto, v) opera com invariantes (propriedades estruturais) O desejo implica o resíduo que sobra da diferença estrutural entre necessidade e demanda. O grafo do desejo é fundado na oposição necessidade - demanda - desejo. NECESSIDADE (objeto particular) aquém da DEMANDA (do Outro, prova de amor, incondicionalidade) além do DESEJO (objeto a, condição absoluta, inconsciente, diferente das vontades) O sujeito, na direção da cura, se articula parcialmente na via do desejo por uma via elíptica. "A" é um lugar estritamente simbólico, portanto, um lugar significante, um lugar no sentido topológico. Quando se produz a mensagem que vem do Outro, se produz pela pontuação (função do Outro com a qual o analista opera). A pontuação tem estrutura simbólica, um tempo de corte e escansão, e não de duração. O sujeito da linguagem está em função da demanda, ou seja, com o Outro (A) e ao menos dois significantes articulados. A diferença entre o neurotico e o psicótico é se opera ou não com a função "além da demanda". O problema no campo das psicoses é que o psicótico fica preso no circuito da demanda e não há para ele um além da demanda, ou seja, não há desejo para ele. O desejo é a interdição do gozo "entre linhas" (entre os patamares do grafo), e é a Lei que funda o "entre linhas". Na psicose, a foraclusão cai sobre o significante do Nome do Pai, que é o significante da lei no Outro. Já na neurose a foraclusão cai sobre o significante do sujeito. O Nome do Pai é o ponto de basta, que abotoa de forma estável a topologia quaternária dos quatro pontos de cruzamento do grafo do desejo. Há mais sujeito na psicose do que na neurose. A estruturação do sujeito (barrado pela castração na neurose, ou não na psicose) é a obtenção de algum estatuto simbólico, alguma satisfação, para que o sujeito seja algo distinto do Real, do gozo. É uma defesa contra ser objeto de uma demanda imaginária do Outro, se perder como objeto do gozo do Outro. Quando a significação prevalece sobre a demanda imaginária, há sujeito. A aposta neurotica é que haja "ao menos um" que saiba lidar com a Demanda do Outro. Então o saber vai ter um sujeito suposto, e a problemática de defesa vai se jogar na relação de dívida do sujeito com o "ao menos um" que sabe. Já no psicótico não tem essa barreira, e se enreda no círculo infernal da demanda do Outro. É uma errância. Não haveria sujeito suposto saber no psicótico. No grafo do desejo, I(A) implica tomar como significante do Outro que, ao isolá-lo e fazê-lo representar o Um (I), fornece ao Outro (A) a onipotência, com a qual acreditamos que está investido quem encarna o lugar do Outro. Se I(A) é um significante do Outro, o ideal simbólico seria lido como "Um de (A)". O Outro encarna o lugar da Fala e desse lugar recebe seu poder, e há um deslocamento que é, precisamente, uma transferência do poder da Fala para quem ocupa esse lugar, mediante o isolamento de um significante que o transforma no Um do significante. Esta função do Um em relação com o poder será elaborado em torno do "significante mestre". No grafo do desejo, o um do Outro, I(A), funciona como inscrição da onipotência, em relação com o significante da falta do Outro, S(A barrado). A onipotência é do Outro, não do eu. A direção da cura implica dizer não à via da identificação; A sublimação é a modalidade de encontrar o outro, a nova via, enquanto a idealização é a força recalcadora da neurose. Para Freud, a análise termina no limite da angústia de castração para o homem e da inveja do pênis para mulher. Para Lacan, existe a possibilidade do analisando fazer algo absolutamente novo, no além da demanda do Outro. O falo é o significante privilegiado da marca. É privilegiado pois designa a rede dos termos literais significantes, dando lastro na neurose, sendo marca do significado não-unívoco que se impõe quando torna-se o falo como referente. O significante fálico não varia com a história cronológica do sujeito, já o ideal muda. O falo como marca literal equivale à cópula lógica. - phi é o falo imaginário (negativado) tal como opera a castração. Phi é o falo simbólico (como significante) e não opera como falta. O inconsciente é um falar a respeito do Outro. É como Outro que o sujeito deseja, é no lugar do Outro que se deseja. O problema do nosso desejo é que nunca é nosso. A estrutura não é de um "eu desejo", mas sim de um "se deseja". Daí se nasce a ficção do "eu desejo", quando o objeto vira emblema do desprendimento da demanda do Outro no "eu o desejo". Não há desejo independente da Demanda do Outro. Qual a ficção do desejo do analista? O analista terá que suportar que o sujeito o coloque como desejante a respeito dele como objeto, daí Lacan introduz o fantasma como suporte do desejo, que será a forma de elaborar desta obscuridade que é a demanda do Outro. Função do fantasma: sustentar que a clínica da pergunta é a prática analítica da neurose, a clínica do desejo. Clínica suportada pela pergunta, pergunta estruturada pelo fantasma. É justamente onde se manifesta a falta da existência ao sujeito que o sujeito se sustenta. A pergunta: sou aí onde me pergunto quem sou. Mas onde se constitui o fantasma que sustenta o sujeito? Do lado do sujeito ou do lado do Outro? A pergunta se formula no Outro, ninguém sabe da índole de seu fantasma se não o faz com o Outro. Se cada vez que enunciamos uma demanda se produz o além da demanda, o sujeito requer uma palavra que o tire dessa dialética, mas o desejo não é senão a impossibilidade dessa fala. Ao tentar fazer S2 resgatar o efeito de S1, irá apenas cavar o abismo entre ambos. S barrado é a indicação da inexistência de uma palavra que apague o efeito da palavra no sujeito falante. Quando se estabelece a função do Outro (A) não estamos diante da transferência, mas da sugestão. Transferência (sem. 11) significa a manobra que do lugar do Outro (A) é feita para produzir a atualização em ato da realidade do inconsciente enquanto sexual. A frustração prevalece sobre a gratificação porquê abre o caminho de saída possível da captura no campo do Outro. Trata-se de fazer com que o objeto se veja determinado pelo desejo (lembrar que a demanda anula o objeto particular da necessidade, produzindo assim o objeto causa do desejo). O sujeito não pode ver, por ser estruturalmente velada, que o eu não é o eu, que o desejo não é "eu desejo x" do fantasma e também não vê que a dialética do desejo e do fantasma determina a do eu e a imagem do outro. Outro existe como inconsciência e concerne ao desejo na medida do que lhe falta e do que não sabe, mas isso é o que mais instiga meu desejo, por isso meu desejo não é pura referência a um objeto. A barrado, o Outro, como aquilo que não atinjo. O fantasma é a estrutura que dá suporte ao desejo. A fantasia é a montagem do simbólico e do imaginário que contorna o fantasma. A pulsão é o mais consciente do fantasma. O que sustenta o desejo é o fantasma, não o objeto. O sujeito se sustenta como desejante em relação a um conjunto significante cada vez mais complexo, como o falo sendo o indexador da diferença ao longo desta cadeia. O vínculo humano se dá por sugestão (imaginária) ou transferência (simbólico). Sugestão será o efeito da palavra que recebe o sujeito de qualquer semelhança (pequeno outro) elevado à função de Outro (A), isso também é reconhecimento, e é condição evidente para entrada em análise. Transferência será a colocação em ato da realidade do inconsciente sendo esta real. Para haver transferência, o analista precisa localizar-se "entre as duas cadeias" do grafo, não satisfazendo a demanda. A pulsão é para o instinto como o aparelho é para o corpo biológico. O Outro não entra na pura pulsão, mas sim no enodamento da pulsão com o desejo e o amor. No grafo, saímos do Outro (A) e fechamos o circuito em S(A barrado) só pela via da pulsão S losango D. A cada vez que uma certa satisfação pulsional seja proibido ao sujeito S barrado pelo Outro (A), será inevitável que a proibição se localize no sujeito como gozo. Não há sujeito sem Outro. Não há Outro do Outro, mas sim o Outro do sujeito. A identidade A = A é interditada no simbólico. O complexo de castração é a marca da interdição sobre o gozo infinito. Sempre que o gozo se articula ao desejo, o falo lhe dará corpo mediante a parte "sacrificada" na castração, se o gozo não se articula ao desejo, o que lhe dará corpo será a zona erógena.

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