Ensaio sobre a lucidez -

    José Saramago

    Companhia das Letras
    2017
    328 páginas
    10h 56m
    ISBN-13: 9788535930351
    Português

    Num país imaginário, um fenômeno eleitoral inusitado detona uma séria crise política: ao término das apurações, descobre-se um espantoso número de votos em branco - uma "epidemia branca" que remete ao Ensaio sobre a cegueira (1995), do mesmo autor. Neste romance, José Saramago faz uma alegoria sobre a fragilidade do sistema político e das instituições que nos governam. Numa manhã de votação que parecia como todas as outras, na capital de um país imaginário, os funcionários de uma das seções eleitorais se deparam com uma situação insólita, que mais tarde, durante as apurações, se confirmaria de maneira espantosa. Aquele não seria um pleito como tantos outros, com a tradicional divisão dos votos entre os partidos "da direita", "do centro" e "da esquerda"; o que se verifica é uma opção radical pelo voto em branco. Usando o símbolo máximo da democracia - o voto -, os eleitores parecem questionar profundamente o sistema de sucessão governamental em seu país. É desse "corte de energia cívica" que fala Ensaio sobre a lucidez (2004). Não apenas no título José Saramago remete ao seu Ensaio sobre a cegueira (1995): também na trama ele retoma personagens e situações, revisitando algumas das questões éticas e políticas abordadas naquele romance. Ao narrar as providências de governo, polícia e imprensa para entender as razões da "epidemia branca" - ações estas que levam rapidamente a um devaneio autoritário -, o autor faz uma alegoria da fragilidade dos rituais democráticos, do sistema político e das instituições que nos governam. O que se propõe não é a substituição da democracia por um sistema alternativo, mas o seu permanente questionamento. É pela via da ficção que José Saramago entrevê uma saída para esse impasse - pois é a potência simbólica da literatura (território em que reflexão, humor, arte e política se entrosam) que se revela capaz de vencer a mediocridade, a ignorância e o medo. A caligrafia da capa é de autoria do escritor Julián Fuks.

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    Clio02/07/2023Resenhou um livro
    4 (Muito bom)

    Ensaio sobre a Lúcidez é um tratado de conscientização política. Todo governo tem apenas o poder que o povo lhe dá. Assim, logo no prólogo, a população de um certo país vota em branco... em massa. Saramago descreve a confusão dos políticos, a repressão do que alguns considerariam como um ato terrorista contra a democracia e a possibilidade de uma influência internacional (um vago aceno a Revolução Francesa e outros levantes que ainda assombram a Europa). O que mais chama a atenção no texto são os atos da população que, obviamente, não reage como o proletariado em vias de revolução, mas apenas como um grupo que finalmente entendeu que a inutilização de orgãos públicos é algo possível e passível. É a anarquia de Trotski. É uma leitura dinâmica, recheada de diálogos paradoxais numa tentativa de imitar o linguajar político. Pode ser difícil acompanhar para quem não estão acostumado com o estilo do autor que quase não utiliza parágrafos e pontuação. Recomendo.

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