- Capa: Lampião (o bandido mais amado do Brasil) - Geologia: O tesouro da serra de Carajás (como se formou a maior riqueza da Vale) - Medicina: Eles voltaram (micróbios reemergentes matam 50000 por dia) - Cosmologia: Você só enxerga 1% do universo (os outros 99 % são matéria escura) - Inteligência Artificial: Gênio cibernético (a caminho de construir Einsteins de chips) E muito mais!
Superinteressante Nº 117 (Junho de 1997) - Lampião, o bandido mais amado do Brasil
não informado
Edição de junho de 1997 (lá se foram vinte e tantos anos), mas tem ainda reportagens superinteressantes. "Lampião, o bandido idolatrado", obviamente, faz uma anamnese na vida do cangaceiro e gostei do texto porque não é de exaltação do mito. Interessante de referenciar porque o contexto de lançamento da revista foi no centenário de seu nascimento e pipocaram naquele ano produções sobre o cangaço (os filmes "O Baile Perfumado", "Corisco e Dadá", "O cangaceiro" e a novela "Mandacaru"). A reportagem foi mais uma das manifestações e procurou entendê-lo em seu contexto, em suas peculiaridades, não se deixando levar pelo lado folclórico e, diante dos fatos, com conclusão (óbvia também) de que foi bandido, movido só por interesses pessoais, sem esse lance de romantismo, nada a ver com Robin Hood, facínora que estuprou, matou, torturou, sequestrou, chacinou, tacou fogo, interferiu na construção de estradas, danificou linhas telegráfica e também capou. E muitas vezes com requintes cruéis (como a morte com os famigerados punhais especializados para encaixar na "saboneteira" do lado do coração). Mito existe, mas a verdade não pode ser extinta ou deixada de ser dita. A questão folclórica é associada ao contexto de sua vivência, que tinha muita injustiça social, violência e abandono do poder público. O cangaço foi então opção de vida para muitos, ou busca de refúgio e vingança. Havia também pressão para escolha entre o cangaço e polícia (que também tinha banditismo). Lampião idealizava algo que consideravam bem sucedido no contexto que pressionava as pessoas. Algumas coisas também despertavam curiosidade, como bailes que faziam, usufruto de dinheiro alheio em luxo ostensivo (naquele meio que tinha muita miséria e agressão ao homem de diferentes maneiras). O ideal de independência, insurgência e valentia é inspirador dos mitos atuais. A reportagem tem outras coisas interessantes, como a coisa bestial do governo fornecer armas para o bando combater a Coluna Prestes em 1926. Registrou também a origem do termo cangaço. Vem da canga dos bois (aquele troço de madeira no pescoço) pois os cangaceiros costumavam andar com as armas deitadas sobre os ombros. Nas táticas de ação, podiam andar em fila indiana, pisando nas pegadas dos primeiros e o último ia apagando. Também confeccionam calçados com sola parecendo ao contrário (certamente uma tática curupira) e quando perseguidos pelas volantes simulavam fuga, empolgando os macacos na perseguição para em seguida descobrirem que os cangaceiros estavam esperando numa tocaia. O fator mais importante tem relação com o isolamento do interior nordestino, por isso Lampião atacou trabalhadores da abertura de estradas e de construções de linhas de telégrafo. As andanças ocorreram em sete estado do Nordeste (só não no Piauí e Maranhão). Existe teoria conspiratória de que não não foi morto em Angicos, abandonou o cangaço e viveu por mais algumas décadas (não acredito nessa). A transformação de bandidos em heróis em certas visões é algo que se perpetua mundo afora. Busquei a reportagem do Lampião, mas a revista também teve outras coisas para boa leitura. "O tesouro da Serra de Carajás" conta um pouco da história da região, em nível geológico e representativo. "Micróbios: eles voltaram" revelou-se extremamente oportuna. Naquele ano havia o alerta epidemiológico para determinados surtos, chamados de ressurgimentos de doenças erradicadas. Interessante que o direcionamento foi a questão do processo de fortalecimento que esses agentes infecciosos estariam sofrendo em fase inativa. Falou-se em resistência por alterarem a estrutura molecular à ação medicamentosa e que estabeleceriam mecanismo de despistamento para as drogas, que atacariam os alvos falsos. Achei curioso que o fator humano não foi citado com maior ênfase na vacinação, assim como cuidados mais rigorosos na vigilância epidemiológica, foco das reportagens atuais. A febre amarela, por exemplo, foi citada em um contexto de desaparecimento há 56 anos e alguém disse que poderia ressurgir da seguinte maneira: "Basta alguém se contaminar na região amazônica, vir se tratar na cidade e pronto". Af! Houve uma arrogância nesse contexto e isso foi predisponente aos casos (mais de vinte) no Sudeste, quando o povo falsamente se sente seguro e acaba relaxando nas defesas, como a questão da vacinação e cuidados epidemiológicos no meio. Vou registrar também uma informação citada atualmente que achei curiosa. O sujeito da reportagem de 1997 citou um perigo potencial na Amazônia, né! Pois bem, esqueceu de cuidar da casa e olhar para seus atos, pois as constantes agressões ao meio ambiente causaram desequilíbrio e isso foi potencializado, em um gatilho final, pelo rompimento da barragem em Mariana (2015), que perturbou de vez o ecossistema deixando a fauna estressada, imunossuprimida e assim mais suscetível a ação de agentes infecciosos que estavam inativos, causadores de doenças consideradas erradicadas, que estavam em processo de fortalecimento, e assim ressurgiram em ocasião propícia.
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