O mundo foi feito pra gente andar, anuncia a Voz abrindo o livro. Mas que andar é esse, e por onde, e até onde é consentido ir? O título já nos disse: Entre a estrada e a Estrela. Somando, o todo se revela: - O mundo foi feito pra gente andar entre a estrada e a estrela. Sua obra se dizendo toda nesta frase, que durante a leitura outras irão ampliar, José Inácio Vieira de Melo nos convida a uma dupla viagem. À viagem de apenas se deixar ficar em Si, nesse ir sem ir que já nos bastaria. O ser por dentro, existir.
Entre a estrada e a estrela -
José Inácio Vieira de Melo
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O poeta José Inácio Vieira de Melo é autor que chega aos vinte anos de produção literária brindando o público com “Entre a estrada e a estrela”. Um volume de poemas no qual, a partir de dois blocos temáticos, exibe uma maturidade que ganha outros horizontes e outras exigências de mais amplas dimensões. Em verdade, o livro acaba por se constituir num longo poema épico no sentido de que dilata o “eu” ao infinito de suas possibilidades, a ponto de romper suas próprias barreiras e invadir o “não-eu”. O escritor Aleilton Fonseca em texto de resenha sobre a obra, publicado na Revista do Fórum de Literatura Brasileira Contemporânea (nº20 – Dez/2018 - publicação do Programa de Pós-Graduação em Letras Vernáculas da UFRJ), fez uma síntese desse projeto poético de Vieira de Melo afirmando muito acertadamente que o autor “empreende em seu novo livro uma viagem lírica, conforme explicita o título, “Entre a estrada e a estrela”. A obra fixa dois pontos de referência: um de partida/perspectiva, outro de chegada/êxtase, ambos dialeticamente reversíveis, como limites simbólicos de um itinerário cósmico.” Interessante notar, e no dizer do resenhista, que o autor na primeira parte da obra “O mundo foi feito pra gente andar”, “cumpre um exercício de busca e projeção do eu sobre a solidão e as pulsões pessoais, tendo como moldura a paisagem do mundo.” A segunda parte (sob o título de Na esteira do infinito), “instaura-se sob o signo da noite, com suas luzes reveladoras de sentidos ocultos, mas que se tornam acessíveis à sensibilidade e à língua do poeta.” E, em assim sendo, percebe-se nos poemas a necessidade visceral de uma busca: “Trata-se de uma elevação ao infinito, por mediação da poesia. Aqui a viagem se atualiza pelo olhar e pela alma; e o poeta passeia nas distâncias incomensuráveis, tocando-as com o pensamento e as palavras. Tudo é projeção do ser no tempo contínuo e no espaço infinito. Sua posição é a de quem ergue as mãos e os olhos para o alto, buscando compreender, para sentir-se inserido como partícula de uma totalidade cósmica.” Conclui Aleilton Fonseca. Muito bem; acrescentamos que o autor alcança o raro feito de aliar inteligência e sensibilidade em grau superlativo fazendo com que seu mundo se amplie do microcosmo ao macrocosmo em um esforço por visualizar a realidade sob o ponto de vista cósmico, totalizante. Uma poesia universalista surge daí, porque há o profundo intuito de sondar tanto o sentimento quanto a conhecimento simultâneo da perfeição e harmonia do cosmos. Com isto não queremos afirmar que se exclua a marca indelével de uma personalidade, mas sim que sua poética não exprime exclusivamente o “eu” do poeta. Ocorre uma transfiguração e um transbordamento num grande painel onde se projetam os “eus” da humanidade. Vêm à tona as universais inquietudes humanas: ser ou não-ser, a dúvida, a velhice, a morte, os últimos fins do homem etc., ou, se quiserem, o mundo visto em sua essencialidade. Mas afirmar tudo isto e não mostrar seus resultados práticos seria toldar a visão do leitor de apreciar a habilidade com que Vieira de Melo atinge seu propósito. Deixemos a palavra com o autor, não sem antes ponderar que, embora hajam poemas independentes em si com concatenamento próprio, seguem a ordenação de uma ideia maior ainda que se apresentem como partes mais ou menos independentes. De modo que os versos isolados podem ser considerados como frações autônomas (daí possamos tentar uma pequena amostra panorâmica da obra), porque ostentam valor em si, independente da estrofe em que se encontram. O poeta inaugura seu longo poema épico com: “Estou no mundo e o vento entra nas minhas narinas. / O mesmo vento que farfalha as folhas dos eucaliptos / e que traz os aromas de algumas décadas vividas: / vívidas lembranças dentro de um redemoinho.” (p.19). Na mesma página, embora não saiba ‘ainda’ o que significa estar no mundo, sente intuitivamente (e como isto lhe é importante!), que: “Meu espírito está com as folhas dos eucaliptos, / dançando lírico a valsa íntima do absurdo abismo de / [estar vivo.” (p.19). Surgem lembranças recuadas no tempo. “Havia muita solidão, mas eu era um menino feliz. / Podia correr nu e de olhos fechados / durante toda a eternidade, balizado pela areia e batizado pela água.” (p.22). Porque em seu íntimo: “E o vento me dizia que eu tinha uma alma / e que podia ficar ali, daquele jeito, / correndo, correndo, correndo, sem fim / rumo a mim, porque era só o que queria: / ser um poltro solto que corria na vastidão do mar”. (p.22). Veja-se a sondagem de questões permanentes do homem. Questões que participam de uma esfera acima da relatividade de cada indivíduo. Como é afinal que a memória nos faz lembrar do passado com tanta nitidez? Ele afinal, já na casa dos cinquenta, lembra do que foi aos quinze: “Ainda estou na beira da praia, / correndo para sentir a poesia / da calçada dos meus quinze anos / e esse canto chega até aqui, / bem na porta da casa dos cinquenta, / dando fôlego a este andarilho de joelhos gastos / que ainda transborda frenesi na agulha dos peitos.” (p.23). Chegamos à página 30, toda ela reflexo de certas experiências que vão aos poucos forjando o ser. Nas escolhas que fazemos e, sobretudo, no anseio que jamais deixa de nos acompanhar. O de superar os limites da condição humana, participar da natureza, imortalizar-se. Perceba-se por um lado, a ânsia de empatia com que lhe é externo e por outro, o assombro que o intui. E o leitor começa a visualizar que a aflição de conhecer as magnas questões que povoam o universo e circundam o homem o conduzem a plasmar nos poemas de fundo metafísico, um sistema de apreensão, uma mundividência peculiar. Vale a pena a transcrição de toda a página. “E a gente se assusta com a vida, / com essa busca que não cessa. // Para não se desesperar / no meio da travessia / é preciso poesia. // Muitas vezes / o que mais conforta / é a escuridão, / onde só se distingue / uma brisa a acariciar / o pasmo da existência. // Não entendo nada plenamente / mas meu instinto de preservação / grita mais alto que todas as dúvidas. // E mesmo sem compreender / o que é tudo isso / nem para que tudo isso, / algo em mim insiste e persiste / em sobreviver e ser feliz.” Entretanto, na vida nem tudo é escuridão. Eis que no meio do caminho acontece a profundíssima questão do amor: “Embora o verso seja solidão / o que importa é a vida, / é buscar os brinquedos / e a festa dos caramujos, / cujos marulhos confidenciam / segredos do mar. // E na praia vibra o Amor. / Teus olhos enxergam em minha direção. / Trago um voo virgem e um sorriso de viagem. // Preciso dos teus olhos para sentir essa bondade. / Ambos queremos os raros jambos deste pomar.” (p.33). O poeta segue sua caminhada com a consciência muito cristalina do poder da imaginação: “E andar, andar / porque o pensamento é um gás / que se espalha rápido e vai longe / e nos espraia em direções / que só o sonho alcança / e avança como uma lança que corta o espaço, / que desliza no espaço até nunca mais, / até alcançar o olho da fresta / que é a festa dos sentidos.” (p.34). Sentimos o perpassar do tempo e o que ele fez com o menino que corria nu em uma praia: “Ao longe ficou a primeira fome, / paixão que invadiu meus sonhos, / no penhasco da madrugada / e me fez sentir o balanço das ondas, / como quem se balança / na árvore da infância / sendo a infância de uma árvore.” Afinal o poeta chega em uma última estrofe em que a maturidade lhe diz: “Há um sonho perpassando o silêncio. / Há mil caminhos abertos. / Sou senhor do próximo passo.” E os próximos passos serão dados na segunda parte da obra onde o autor seguirá perquirindo os mistérios da harmonia universal, através de um jogo contínuo de contrastes: o claro e o escuro, o dia e a noite a estrada e a estrela enquanto caminho/destino humano. Dissemos que há um sentido universalista no cerne da poesia desse livro, uma dimensão estética que busca vencer e/ou explicar a angustiante fugacidade do homem e das coisas. Ocorre afinal que esse universalismo que inicialmente decorria da sondagem das profundezas abissais do ‘eu” do poeta, volta-se em direção ao ritmo da gigantesca e incessante mobilidade cósmica na qual estamos inseridos. Transcrevemos apenas a página 49 da segunda parte da obra: “Na esteira do infinito”. Observe-se a que alturas chega a visão do poeta: “Agora, vou escrever a partir do primeiro átomo / até o sem fim dos átomos de que se compõe o Universo. // Chega a noite com suas ninhadas de estrelas. / Há tantos cosmos ocultos diante dos meus olhos. / Eu apenas os presumo, / sinto seu sumo em minhas células. // Estou respirando, / quanta vida vem alimentar a minha vida! / A vida que oferece aos meus sentidos / arranjos e mais arranjos de beleza. // Um buquê de flores, uma taça de vinho, / átomos, átomos e mais átomos. / Quando bebo esse vinho, / sinto as uvas que se desmancharam / em um mar de mistérios. // Mistério de sentir o vazio de tudo, / onde nada se toca e tudo se protege / e, paradoxalmente, tudo é atração. // Estou conectado com o sol, / um dia meu núcleo resplandecerá sua luz.” Há no livro de José Inácio a título de epígrafe, versos de um poema do poeta espanhol Antonio Machado (1875-1939): “Caminante, no hay camino, se hace camino al andar.” E não há como deixar de lembrar o pensamento de Eduardo Galeano (1940-2015) que escreveu: “La utopía está en el horizonte. Camino dos pasos, ella se aleja dos pasos y el horizonte se corre diez pasos más allá. ¿Entonces para que sirve la utopía? Para eso, sirve para avanzar.”José Inácio Vieira de Melo dividiu sua obra em dois grandes blocos: “O mundo foi feito pra gente andar” e “Na esteira do infinito”. Não é fortuita tal divisão. Causaria o mesmo efeito, se tivesse acrescentado apenas um sub-título: “O mundo foi feito pra gente andar numa esteira rumo ao infinito”. Esta nos parece ser a grande proposta que o autor nos faz, em “Entre a estrada e a estrela”. A de refletirmos e positivamente atuarmos para que se concretize o grande destino que nos está reservado. Livro: “Entre a estrada e a estrela”, poesias de José Inácio Vieira de Melo, - Mórula Editorial, Rio de Janeiro – RJ, 2017, 84 p. ISBN 978-85-65679-71-8 Link para compra e pronto envio: https://morula.com.br/authors/jose-inacio-vieira-de-melo/#
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