O fio das missangas - [eBook]

    Mia Couto

    Companhia das Letras
    2012
    107 páginas
    3h 34m
    ISBN-10: B009WW84YQ
    Português

    Em histórias de desencontros, de incompreensões, de vidas incompletas e de sonhos não realizados, Mia Couto condensa as infinitas vidas que podem se abrigar em cada ser humano. São 29 contos unidos como missangas em redor de um fio, tecido pelo talento de um grande fabricador de ilusões. "A missanga, todos a veem. Ninguém nota o fio que, em colar vistoso, vai compondo as missangas. Também assim é a voz do poeta: um fio de silêncio costurando o tempo. A vida é um colar. Eu dou o fio, as mulheres dão as missangas. São sempre tantas as missangas." É assim que o donjuanesco personagem do conto O fio e as missangas define a sua existência. Fazendo jus a essa delicada metáfora, cada uma das 29 histórias aqui agrupadas alia sua carga poética singular à forma abrangente do livro como um todo - vale dizer, ao colar em questão. Com um texto de intensidade ficcional e condensação formal raras na literatura contemporânea, Mia Couto demora-se em lirismos que a sua maestria de ourives da língua consegue extrair de uma escrita simples, calcada em grande parte na fala do homem da sua terra, Moçambique, um pouco à maneira de Guimarães Rosa, ídolo confesso do autor. A brevidade das pequenas tramas e sua aparente desimportância épica estão focadas na contemplação de situações, de personagens, ou simples estados de espírito plenos de significados implícitos, procedimento típico da poesia. Os neologismos do autor, a que os leitores já se habituaram, para além de mera experimentação formalista revelam-se chaves fundamentais de interpretação da leitura. Não por acaso, a maioria dos contos de O fio das missangas adentram com fina sensibilidade o universo feminino, dando voz e tessitura a almas condenadas à não-existência, ao esquecimento. Como objetos descartados, uma vez esgotado seu valor de uso, as mulheres são aqui equiparadas ora a uma saia velha, ora a um cesto de comida, ora, justamente, a um fio de missangas. "Agora, estou sentada olhando a saia rodada, a saia amarfanhosa, almarrotada. E parece que me sento sobre a minha própria vida", diz a narradora de uma dessas belíssimas missangas literárias.

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    Anica Bitten07/02/2011Resenhou um livro
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    O fio das missangas (Mia Couto)

    O lado negativo de gostar muito de uma forma de narrativa é que o leitor faz dela sempre sua primeira opção de leitura. E aí, anos e anos depois, começa a encontrar dificuldade em se surpreender. O prazer da boa leitura ainda está lá, alguns textos são de fato excelentes. Mas falta aquele “algo a mais” que te faz pensar “Como é que não conheci esse escritor antes?”. Foi justamente o que aconteceu comigo ao ler O fio das missangas, de Mia Couto. Gosto muito de contos, mas a verdade é que há tempos não sentia essa sensação de descoberta, da inclusão de mais um nome da lista de favoritos de todos os tempos. A prosa de Couto é quase poesia. Nem tanto pelo ritmo, mais pelas imagens que evoca – o fantástico no cotidiano apresentado de maneira leve, suave. Muito cabe à interpretação do leitor, somada a verdadeiros quadros-ideias. Trata-se de algo que normalmente escritores só conseguem em um poema, como dá para ver na abertura do conto Inundação: "Há um rio que atravessa a casa. Esse rio, dizem, é o tempo. E as lembranças são peixes nadando ao invés da corrente. Acredito, sim, por educação. Mas não creio. Minhas lembranças são aves. A haver inundação é de céu, repleção de nuvem. Vos guio por essa nuvem, minha lembrança." O estilo de escrita de Couto flui e é belo. Essa beleza ao ser lida equivale a contemplar um amanhecer ou um pôr-do-sol: é o cotidiano, mas cheio de mistérios. É simples mas lidando com sentimentos complexos. Cheio de silêncios que dizem muito. Há um equilíbrio entre o preso e a leveza, conduzido por personagens que poderiam ser qualquer um. A viúva de O cesto, Filipão Timóteo em A carta de Ronaldinho1, ou a matriarca de Enterro televisivo. Interessante também é que Mia Couto consiga ir além de uma representação de sua terra natal (Moçambique), fazendo histórias sem lugar, universais. Embora ele situe o espaço em um conto e outro, como em O novo padre, a verdade é que poderiam ocorrer em qualquer país, qualquer cidade. Mais do que isso, há uma certa familiaridade, como se algumas personagens já tivessem povoado histórias da nossa cultura, como acontece com o mulherengo do conto que dá nome ao livro, O fio das missangas. É esse conto que apresenta uma das passagens mais bonitas escritas por Couto: A vida é um colar. Eu dou o fio, as mulheres dão as missangas. São sempre tantas, as missangas… A frase poderia também se encaixar ao ofício do escritor, sendo suas histórias as missangas. No caso de Couto e sua coletânea, são tantas, e tão lindas as missangas. Realmente apaixonante e imperdível. É sempre um prazer descobrir escritores que conseguem ir além da contação de histórias, mas usar as palavras como um pintor usaria sua tinta, fazendo do texto arte, pura e simplesmente.

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