Outra (indispensável) obra do mestre romeno
Mircea Eliade dispensa apresentações; vamos à obra: trata-se de mais um livro bastante didático do professor romeno. Aqui, lemos diversos relatos sobre iniciações nos mais variados povos do globo terrestre. O autor chama a atenção para o fato de haver semelhanças em diversos aspectos dessas iniciações, mesmo entre povos tão afastados geograficamente - o que o leva, em alguns momentos, a afirmar que há intrínseco no homem como que uma dimensão religiosa, uma abertura para essas experiências. Mircea Eliade distingue basicamente dois tipos de iniciação: a primeira, relacionada à puberdade (e pela qual todos os indivíduos passariam [homens e mulheres; os primeiros, em boa parte, de modo grupal; as segundas individualmente]); a segunda espécie de iniciação se refere a indivíduos que teriam algum pendor para um aprofundamento nesse campo - como no caso dos xamãs. Para ambas as iniciações, numerosos exemplos são fornecidos, com descrições minuciosas e comentários bastante interessantes sobre as sociedades em que elas ocorrem (agrárias ou caçadoras), com as particularidades de cada uma. É possível vislumbrar que a iniciação, segundo o autor, envolve uma "morte" e como que um renascimento para uma nova vida - o homem deixa seu caráter puramente natural e se vê inserido, doravante, num mundo mais rico e dotado de sentido, permeado pelo sagrado. Para essa "morte" é que são estipuladas diversas etapas a serem cumpridas pelo neófito, que é experimentado de diversas formas. A depender da sociedade, isso pode se dar de modo mais ou menos violento (podendo chegar até a morte do neófito). O autor ainda tece comentários extremamente pertinentes entre o cristianismo e as iniciações, os mistérios e as sociedades secretas, ressaltando a oposição entre eles (quando ressalta o universalismo da mensagem cristã e o segredo cultivado por alguns grupos), mas também ressalta que há, ainda que de forma bastante enfraquecida (ou domesticada), uma persistência de rituais no seio do próprio cristianismo - que, apesar disso, continua a ter a sua mensagem divulgada às claras. Esses rituais, segundo Eliade, remeteriam aos essênios (e não, como gostariam alguns, a outros povos que nada teriam a ver com o cristianismo). Finalmente, o autor traz alguns comentários acerca da persistência de, ao menos, a ideia de iniciação e ritos na nossa dessacralizada sociedade contemporânea. Ao que parece, mesmo num ambiente em que o caráter sagrado foi desalojado e não mais molda o próprio comportamento do homem, persiste um anseio por algo que remeta a um "segredo", a "ritos", a uma linguagem "iniciática" (compreendida por uns poucos) em diversos aspectos - sobretudo na literatura. É mais uma obra que merece figurar na biblioteca de um pesquisador de Humanidades - e não apenas do campo religioso. Ao tratar desses temas, Mircea Eliade descortina um maravilhoso quadro a respeito de características e comportamentos que, por fim, fazem de nós aquilo que somos (e que, por vezes, até esquecemos).


