Jerusalém -

    Gonçalo M. Tavares

    Caminhos
    2005
    256 páginas
    8h 32m
    ISBN-13: 9789722126922
    Português

    Um dia a mãe de Mylia, de 18 anos, leva-a ao médico, Theodor Busbeck, alegando que a filha vê almas. O médico apaixona-se por Mylia, talvez como objecto de estudo, contudo, passado algum tempo, e dada a impossibilidade de vida em comum, Mylia é internada no hospício Georg Rosenberg. Busbeck dedica-se a estudar o sofrimento, convencido de que se chegar a descobrir o padrão do horror através dos tempos resolverá os problemas da sociedade global. Mylia , no Hospício, apaixona-se por Ernst, esquizofrénico, de quem tem um filho. "Uma mulher, um assassino, um médico, um menino, uma prostituta e um louco. E uma noite." Jerusalém foi o romance mais escolhido pelos críticos do jornal Público como “livro da década.”

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    Carina Siqueira Baptista12/07/2010Resenhou um livro
    5 (Perfeito)

    A novidade da vida

    "Com os hábitos certos e monótonos Hinnerk procurara diminuir as possibilidades daquilo a que se poderá chamar de "o novo"." Hinnerk pode até temer o novo. Todas as personagens de "Jerusalém" parecem temê-lo em medidas diferentes. A nossa sorte é que seu autor não apenas não o teme como parece buscá-lo. Sua escrita e sua história não se parecem em nada com coisa nenhuma, e é aí que reside meu maior ponto de encantamento com Gonçalo. "Jerusalém" me deixou constrangida ao ler em suas páginas nossas incansáveis tentativas de transformarmo-nos em marionetes de nós mesmos. Gonçalo mostra de forma muito sensível, inteligente e sutil como passamos nossos dias tentando a todo custo evitar o novo, a surpresa, o imprevisto. Ou seja, passamos nossas vidas tentando evitar a própria vida. As personagens são "claramente" loucas, mas basta um olhar um pouco menos superficial para perceber que não são mais perturbadas que qualquer um de nós. Ao terminar o livro passei muito tempo pensando em como livrar-me dessa maldita tentação de encaixar-me na personagem que criei para mim mesma, como permitir que a vida e seus acontecimentos caiam sobre mim, como abrir espaço para o frescor que Gonçalo tanto me fez desejar. E quando estava lá, pensando, maquinando, organizando idéias, lembrei-me novamente de Gonçalo, que em outro livro diz: "É impossível viver e pensar ao mesmo tempo." e fui então atingida pela certeza de que é só assim, sem pensar, que os acontecimentos realmente novos, aqueles que mudam nossas vidas, podem acontecer. E, apesar de ter iniciado a leitura compartilhando do medo de Hinnerk, ao terminá-la (e esse fim só chega agora, ao escrever essas palavras) fico com a feliz certeza de que a vida acontece, apesar de mim.

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