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    Enterre seus mortos -

    Ana Paula Maia

    Companhia das Letras
    2018
    136 páginas
    4h 32m
    ISBN-13: 9788535930672
    Português Brasileiro
    3.7
    2529 avaliações
    Leram3228Lendo86Querem2129Relendo2Abandonos38Resenhas542
    Favoritos94Desejados2129Avaliaram2529

    Uma habilidosa mescla de novela policial, faroeste de horror e romance filosófico, escrito por uma das vozes mais originais da literatura brasileira contemporânea. Edgar Wilson é “um homem simples que executa tarefas”. Trabalha no órgão responsável por recolher animais mortos em estradas e levá-los para um depósito onde são triturados num grande moedor. Seu colega de profissão, Tomás, é um ex-padre excomungado pela Igreja Católica que distribui extrema unção aos moribundos vítimas de acidentes fatais que cruzam seu caminho. A rotina de Edgar Wilson, absurda em sua pacatez, é alterada quando ele se depara com o corpo de uma mulher enforcada dentro da mata. Quando descobre que a polícia não possui recursos para recolhê-lo — o rabecão está quebrado —, o funcionário é incapaz de deixá-lo à mercê dos abutres e decide rebocar o cadáver clandestinamente até o depósito, onde o guarda num velho freezer, à espera de um policial que, quando chega, não pode resolver a situação. Nos próximos dias, o improvisado esquife receberá ainda outro achado de Wilson, o lacônico herói deste desolador romance kafkiano: desta vez o corpo de um homem. Habituados a conviver com a brutalidade, Edgar e Tomás não se abalam diante da morte, mas conhecem a fronteira, pela qual transitam diariamente, entre o bem e o mal, o homem e o animal. Enquanto Tomás se empenha em salvar a alma, Edgar se preocupa com a carcaça daqueles que cruzam seu caminho. Por isso, os dois decidem dar um fim digno àqueles infelizes cadáveres. Em sua tentativa de devolvê-los ao curso da normalidade, palavra fugidia no universo que Ana Paula Maia constrói magistralmente, os dois removedores de animais mortos conhecerão o insalubre destino de seus semelhantes. Com uma linguagem seca, que mimetiza as estradas pelas quais o romance se desenrola, a autora faz brotar questões existenciais de difícil resolução. O resultado é uma inusitada mescla de romance filosófico e faroeste que revela o poderoso projeto literário de Maia. Nem da alma nem do coração. Os personagens de Ana Paula Maia sofrem do fígado. — O Estado de S. Paulo É preciso entender muito de ficção, de realidade e de representação da realidade para poder escrever assim. — O Globo Ana Paula encontra, em meio às manobras mais repulsivas, o tom mítico de uma maldição bíblica, disfarçada nos popismos de superfície. — Rolling Stone Brasil

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    Alexandre Figueiredo picture
    Alexandre Figueiredo19/11/2021Resenhou um livro
    3 (Bom)

    Post mortem de uma leitura

    Alto lá! Não vou mais usar latim e muito menos juridiquês neste texto além do título, até porque desconheço tal vocabulário. Só me soou sonora e explicativa a junção de tais palavras para tentar expor os argumentos que pretendo abordar nos singelos parágrafos a seguir. Eu sempre tive curiosidade de ler a Ana Paula Maia. Antes de me tornar leitor dela, sou um fã desconhecido e fiel. Acompanho, com alguma regularidade, entrevistas da autora no YouTube e gosto da maneira como ela pensa a literatura. Agora, teria eu escolhido o livro certo para entrar no mundo dos invisíveis sociais marcados pela brutalidade da violência que tanto fascina a escritora? Tenho sérias dúvidas. Percebam o seguinte: “Enterre seus mortos” não é um mau livro. É bem escrito, possui uma voz narrativa característica e personagens razoavelmente cativantes. Aliás, é um excelente exemplar de transição entre uma literatura escapista, mais descompromissada, com uma literatura mais séria, de certo rigor técnico na forma e algum grau de reflexão. O que não me agradou então? Muitas coisas. A primeira delas é o conceito de narrativa episódica. Acompanhar Edgar Wilson - personagem recorrente dentro da ficção da escritora, presente nos livros “Carvão animal” e “De gados e homens” - ao lado do padre excomungado Tomás em suas atividades morbidamente cotidianas de recolhedores de animais mortos não é das experiências mais empolgantes. Além disso, a ideia de extrapolação da realidade, um direito básico e inegociável de qualquer ficcionista, não ganhou minha simpatia aqui. Gente, qual estrada no mundo tem tanto animal morto assim, em que o recolhedor recebe duas, três chamadas por dia? Se esse trabalho existe no Brasil - e deve existir, claro -, ele não deve possuir essa demanda toda. O segundo ponto é a forte influência estadunidense no estilo da autora. Pode ter pesado o fato da Ana Paula Maia também ser roteirista? Pode, claro. Mas percebam durante a leitura que “Enterre seus mortos” nem parece, às vezes, se passar no Brasil. Poderia ser facilmente uma história que se passa no Texas, por exemplo. E não, isso não dá caráter universal ao texto porque você não imagina os episódios do livro acontecendo, digamos, na Islândia ou no Japão. Só nos lembramos que estamos na terra do samba graças à falta de funcionamento de serviços essenciais e básicos como o do Instituto Médico Legal, o IML, algo que está totalmente dentro da nossa insossa realidade brasileira. Outra: por que raios o Tomás fuma charuto? Qual a justificativa para isso? Convenhamos: um recolhedor de animais mortos fuma um belo dum cigarro paraguaio, certo? Charuto é coisa de empresário, mafioso, político, enfim, gente do dinheiro, não de um trabalhador que luta pelo mínimo para viver o dia de amanhã. Mas tudo bem, aceito que este detalhe é um ranço pessoal, apenas. Precisamos falar da violência, claro. Além das descrições dos animais e pessoas mortas, temos pessoas enforcadas, urubus que bicam olhos e, acredite, um depósito abarrotado de corpos em putrefação, numa das cenas mais anticlímax do livro (apesar de conter uma boa dose de humor negro). E tudo isso para… nada. Por que tantos mortos na história? O que a comparação entre a sorte de ser recolhido e sepultado por ser um animal morto e o azar de ser um humano morto, sem um fim digno, quer dizer além disso mesmo? Parece que todas as possíveis discussões morrem no primeiro estágio de reflexão. A sensação, no fim, é de oportunidade perdida para poder adentrar com mais profundidade em algum tema ético pertinente a todos nós. Então, minha gente, o que fica depois da morte de uma leitura? Isso aí. O fim, o breu. Ana Paula Maia ainda tem prestígio comigo e pretendo ler seus outros livros, que continuam oferecendo, pelo menos pelas sinopses, possibilidades interessantes. Mas eu não indico “Enterre seus mortos”.

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    • 5 estrelas15%
    • 4 estrelas38%
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    • 2 estrelas10%
    • 1 estrelas2%
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    Ana Paula Maia

    Escritora e roteirista, Ana Paula Maia é autora de romances de tom naturalista. Venceu duas vezes o Prêmio São Paulo de Literatura, com os livros "Assim na terra como embaixo da terra" (2018) e "Enterre seus mortos" (2019). Suas obras tematizam a relação do homem com o trabalho, a moldagem do caráter pelas atividades diárias e a inferiorização do homem pelo trabalho que exerce. Seus personagens são, em suas palavras, "homens-bestas" - trabalham duro, sobrevivem com muito pouco, esperam o mínimo da vida e, em silêncio, carregam seus fardos e o dos outros. Destaca-se a trilogia "A Saga dos Brutos", composta pelas novelas "Entre rinhas de cachorros e porcos abatidos" (2009), "O trabalho sujo dos outros" (2009) e "Carvão animal" (2011). No audiovisual, escreveu o roteiro do filme "Deserto" (2017), dirigido por Guilherme Weber, e da série "Desalma" (2020), exclusiva no serviço Globoplay. Seus livros foram traduzidos na Sérvia, Alemanha, Argentina, França, Itália, Estados Unidos e Espanha e seus contos publicados em antologias no Brasil e no exterior.

    10 Livros
    251 Seguidores
    Rio de Janeiro, Brasil

    Ana Paula Maia