Vivemos numa sociedade patriarcal, disso não há dúvidas. Se atualmente nós, mulheres, sofremos diariamente com problemas sociais, imagine a dificuldade de se viver no século passado. Agora, imagine como era a vida das mulheres há dois séculos. Fácil de imaginar, difícil de descrever, pois cada pessoa tem a sua história. Cada família tem suas intrigas, cada indivíduo possui em si complexidades que o outro pode não compreender, mesmo que tenha experiências parecidas.
O Palacete conta a história de quatro gerações de uma família marcada por abusos de poder e força física. Na narração em terceira pessoa, somos inseridos em épocas e locais distintos; acompanhamos tanto a ascensão como também a decadência dos personagens envolvidos. São personagens complexos que seguem uma tradição: a submissão das mulheres.
Conforme eu prosseguia, mais informações eu tinha para tentar desvendar os mistérios dramáticos do enredo. No fim do primeiro capítulo, inicia-se a narração em primeira pessoa: uma carta. Em apenas duas linhas, suas palavras me impactaram tanto que precisei parar a leitura e tomar um copo d'água. Voltei a ler e percebi que essa carta está intercalada com a narrativa em terceira pessoa, o que significa que tive emoções diversas, como se estivesse numa montanha-russa.
Como eu tenho memória fraca para nomes, comecei a anotar num rascunho as características de cada personagem (são mais de trinta). De repente me aparece no livro uma árvore genealógica. Que maravilha! Aos poucos fui conhecendo novos personagens, e cada vez que minha mente tentava esquematizar, havia uma nova árvore genealógica para me ajudar. Além disso, os capítulos possuem datas e descrições suficientes para reconhecer cada pessoa. Mesmo assim, quando terminei a leitura, eu já tinha três páginas de rascunho com direito a setas, asteriscos e meus comentários ligando os principais acontecimentos. Fico até agora imaginando os locais descritos (que pesquisei no Google), com vontade de sair viajando pela América Latina (ou ao menos vou aproveitar que moro em SC para ir ali na esquina comprar um delicioso tereré rsrs).
Talvez sirva como argumento da minha nota de avaliação: há uma personagem chamada Marisol que eu fiquei inspirada a conhecê-la melhor, mas a narrativa não me permitiu. Acho que sua personalidade mereceria um maior desenvolvimento. E a linguagem nos diálogos poderia ter sido um pouco mais contextualizada à época (século IXX). Fora isso, com certeza é um excelente livro, e desde a imagem da capa dessa primeira edição é possível notar a dedicação que a autora teve, principalmente com os detalhes históricos e regionais.
Acho que esse livro pode ser lido a partir dos 16 anos, pois a escrita é bem acessível. Cuidado: contém palavras de baixo-calão, cenas e diálogos de abusos psicológicos e sexuais. Não senti tanto impacto no restante da história (provavelmente porque nunca conheci pessoalmente ninguém que sofreu tanto), mas me sensibilizei sabendo que na vida real ainda há mulheres que passam por situações parecidas e que há vilões disfarçados de "cidadãos de bem".
Esse livro me fez lembrar de um vídeo sobre violência doméstica que viralizou no facebook em 2017. Deixarei o link nos comentários.