Ambientado no contexto do tropeirismo no interior do Rio de Janeiro e de Minas Gerais no século XIX, o enredo passa essa noção de epopeia mesclada a um "romance de formação" da protagonista Maria Olegária. A estrutura do livro é, de certa forma, comparável com "Viva o Povo Brasileiro" (1984), de João Ubaldo, pois também constrói a formação da personagem/exemplifica a História do Brasil, assim como as visões que se tinha sobre ela em diferentes tempos (e diferentes pessoas e situações). Nesse sentido, o livro é mais sobre uma construção de diálogos e ambientes do que uma história retilínea (início-meio-fim) e pode parecer arrastado, repetitivo. No entanto, encaro como o ponto positivo da escrita da Maria Alice Barroso. Ela foi paciente e deu lugar e tempo aos personagens. Para entendermos a relação de Maria com seu pai (Chico das Lavras), a autora (re)construiu a história dele, colocando personalidade e peso ao tempo (o livro ganha no aspecto psicológico, como em "Carta ao Pai", de Kafka). Assim também com suas irmãs, com seus amores, com os animais. E é bonito ver como a autora deixou evidente que uma história fica condensada, muitas vezes perdida, quando seus personagens já não a dominam. Como uma história real pode virar mito e como isso pode servir de respaldo para narrativas.
É um bom livro, muito bem escrito, a ser lido com calma.