Sabe aquele livro que você termina e pensa: caramba, eu tomaria uma cerveja com esse cara? Foi exatamente assim que me senti lendo Bruce Dickinson: Uma autobiografia (no original, What Does This Button Do?). Como fã de longa data do Iron Maiden, confesso que já fui para a leitura meio tendencioso afinal, a voz que embalou tantas horas de air-guitar merece toda minha simpatia , mas o que encontrei ali superou expectativas.
Primeiro, o formato: Bruce vai contando passagens da vida quase como se estivesse batendo papo no backstage, com aquela mistura irresistível de humor britânico, autocrítica e zero glamour artificial. Ele corre de um assunto a outro da infância e do internato (onde descobriu o rock nos intervalos clandestinos) até as maratonas de shows do Maiden, as competições de esgrima, as aventuras na cabine de pilotagem e, claro, a batalha contra o câncer. Tudo costurado por um tom de gente como a gente. Nada de pose de rockstar inalcançável: é o relato de um cara curioso que te puxa pelo braço e diz vem cá, olha o que aconteceu.
Gostei especialmente de ter um resumão bem organizado da trajetória dele. Mesmo acompanhando a banda há anos, ver a linha do tempo juntinha discos, turnês, tretas, hiatos, projetos solo, aviões ajudou a clarear como cada peça se encaixa. É daqueles livros que fazem você fechar a página e correr para pôr um álbum pra tocar (Flight of Icarus ganhou replay imediato).
E o que mais me marcou foi justamente o contraste entre a figura pública aquele frontman cheio de pulmão, correndo pra lá e pra cá no palco e o Bruce narrador do livro, que faz chacota de si mesmo, admite inseguranças, conta quantas vezes quebrou a cara e, principalmente, não veste a capa de super-herói nem por um segundo. Ele não minimiza os feitos (pilotou avião lotado de equipamento do Maiden pelo mundo, afinal!), mas tampouco se vende como escolhido dos deuses do metal. A vibe é: olha, deu certo pra mim porque eu me joguei, errei, aprendi e segui em frente.
Se você é fã da banda, a leitura é praticamente obrigatória um tour guiado pelos bastidores com direito a piadas internas. Se ainda não conhece tanto, é uma porta de entrada divertida para entender como alguém pode ser, ao mesmo tempo, vocalista de uma das maiores bandas de heavy metal, piloto de Boeing, locutor de rádio, esgrimista e escritor sem nunca perder o senso de humor.
Resumindo: vale demais a viagem. Você vai rir, vai se surpreender e, no fim, vai sentir que Bruce Dickinson é aquele amigo excêntrico que tem sempre uma boa história na manga, mas continua absolutamente pé-no-chão. E isso, meu amigo, é um baita refresco no universo das autobiografias de estrelas. Up the Irons! ð¤