"Coral e outros poemas" (2018) é uma antologia que reúne poemas da escritora portuguesa Sophia de Mello Breyner Andresen (1919-2004), abrangendo textos que vão desde 1940 até anos 2000. Ao todo, reúnem-se catorze obras poéticas integrais ou parciais, alguns poemas dispersos e outros inéditos, além de breves textos nos quais Sophia reflete sobre o fazer poético. Para mim, foi uma leitura-releitura, pois eu já conhecia parte de sua obra, e ao que me parece temos aqui uma excelente porta de entrada pro universo de sua escrita em verso.
O mar. a casa. o jardim. o partir. o voltar. a política. o político. mitologias gregas. mitologias cristãs. a cidade. o Brasil. o mar. o mar. o mar.
Os mares de Sophia são, certamente, a grande marca de seus poemas, mas neste livro somos convidados a uma viagem para lá do oceano. Há poesia sobre espaços íntimos, sobre mitologias, sobre o Brasil! Inclusive, me impressiona (positivamente) a facilidade com que encontramos nas literaturas de Língua Portuguesa (não apenas de Portugal, mas também dos países africanos) homenagens a poetas brasileiros, em especial a Manuel Bandeira. E embora este seja, de fato, um dos brasileiros recordados pelos versos de Sophia, acho que merece destaque a presença integral de "O Cristo cigano" (1961) e, parcial de "Geografia" (1967), recentemente incluídos na lista de leituras obrigatórias do vestibular da USP, já que o primeiro (apesar de não ter me prendido muito) inspira-se numa lenda sevilhana contada a Sophia por João Cabral de Melo Neto, e o segundo é constituído por uma parte intitulada "Brasil ou do outro lado do mar", na qual até Brasília é transformada em versos (coloco apenas "Descobrimento" como o ponto fraco desta parte).
Eu sou mais prosa que poesia e tenho certeza que muito deste livro me escorreu pelas mãos. Mas dessa sensação de uma leve umidade do mar que ficou nos meus dedos guardo memórias muito intensas. Acho que todo mundo deveria ter a oportunidade de ler Sophia com o som das ondas ao fundo... Correndo o risco de ser injusta, vou listar possíveis poemas favoritos nos comentários da resenha (alguns deles disponíveis na internet), mas, aviso, não obtive sucesso na escolha do preferido com temática marítima!
Por fim, não resisto a uma dica de turismo literário: na cidade do Porto, em Portugal, o (lindo!) Jardim Botânico costuma ser esquecido pelos turistas por ficar distante do centro histórico. Mas é justamente lá que encontramos a ?Casa Andresen?, onde a escritora passou sua infância e juventude. Parte de sua obra em prosa faz referência a este espaço e é quase inevitável associar algumas imagens de seus poemas aos encantos do casarão e seus jardins. Aliás, uma curiosidade: o casarão abriga hoje uma Galeria de Biodiversidade/Museu de História Natural, mantido pela Universidade do Porto, e o esqueleto de baleia que preenche o seu átrio há alguns anos está ali para dar vida à ficção de Sophia: no conto ?Saga?, sua personagem descrevia o casarão como um ambiente tão grande a ponto de nele caber tal esqueleto que há tempos se mantinha guardado pela/na Universidade. Achei de uma graciosidade a ideia de dar forma a essa fantasia? A quem tiver a oportunidade, recomendo muito esse passeio!