A experiência da diafonia
1. Em meu pouco tempo livre, tenho lido Uma visão cética do mundo, obra de Plinio Smith a respeito de seu mestre, o filósofo paulista Osvaldo Porchat. Tanto um pensador quanto o outro têm produções autorais notáveis e trajetórias prestigiadas dentro do meio acadêmico: Porchat é o criador do neopirronismo e Plinio é o maior estudioso brasileiro no que tange ao tema do ceticismo na Filosofia Moderna. Em função disso, não é estranho que Uma visão cética do mundo seja um baita livro. Para começar, o autor se esforça para anular as ambiguidades de seu discurso, escrever períodos precisos e organizar bem os capítulos, o que resulta num texto muito agradável. Obviamente, a obra se beneficia também do fato de que os textos que ela investiga foram muitíssimo bem escritos (Porchat foi professor de latim), mas o mérito de Plinio como um pensador cuidadoso é evidente. Além disso, as questões que interessam Porchat tocam um problema familiar a qualquer estudante de Filosofia: o do conflito das filosofias. Trata-se de algo simples de formular: se as teses de uma filosofia qualquer são verdadeiras, segue-se daí que as teses que a contrariam são falsas; porém, como as diferentes filosofias contrariam umas às outras em inúmeros aspectos, então somente uma (ou algumas) delas serão verdadeiras. De que forma, contudo, podemos determinar qual seria a filosofia verdadeira? Bem, há múltiplas respostas para essa questão: podemos adotar uma filosofia qualquer e entender que somente ela seria verdadeira, podemos criar uma nova filosofia, podemos nos abster de filosofar etc. Qualquer que seja a nossa escolha, todavia, ela será polêmica e contrária a uma multidão de pensadores muito melhores do que nós. 2. Ao longo da vida, Porchat apresentou diferentes respostas para o conflito. A última (e mais famosa) delas consiste em suspender o juízo diante dele. A suspensão do juízo consiste em recusar-se a assentir a quaisquer teses que pretendam estabelecer uma verdade. Em outras palavras, o filósofo não nega a verdade de nenhuma tese em particular, tampouco nega a verdade das teses que a contrariem; apenas considera que ambas soam persuasivas e decide continuar a investigar. O cético eis o sentido do termo é um investigador. Obviamente, estou simplificando bastante a questão para os fins deste texto, porém, a princípio, é esse o quadro: o de um filósofo que, diante de diferentes filosofias que pretendem expressar verdades, declara que prefere continuar suas investigações em vez de adotar qualquer uma delas. 3. Tendo elaborado esse quadro, posso abordar enfim ao que motiva este texto: fiquei particularmente interessado no conceito de experiência do conflito (ou experiência da diafonia). Trata-se de uma reflexão a propósito daquilo que leva o neopirrônico derradeiramente à suspensão do juízo. E digo derradeiramente porque não há volta para o neopirrônico, quer dizer, a suspensão do juízo não incide sobre uma ou outra filosofia que queira expressar uma verdade, mas sobre todas, inclusive aquelas que o filósofo desconhece ou que ainda nem existem. Na prática, nenhuma filosofia o fará deixar de suspender o juízo, embora isso não seja, na teoria, impossível. Entretanto, como o neopirrônico pode se comprometer com a suspensão do juízo? Quer dizer, qual seria o argumento que o faria concluir que nunca encontrará uma filosofia verdadeira? Essa questão é crucial para esse compromisso, pois se um tal argumento existe, podemos perguntar se ele é ou não verdadeiro. Se for verdadeiro, então o neopirrônico estará dando assentimento a uma pretensa verdade; se não for, ele não tem motivos para dar assentimento a esse argumento. Em ambos os casos, não pode ocorrer suspensão do juízo. A resposta de Porchat a esse respeito é sofisticada e interessante, bem mais do que seria possível expor aqui ou do que eu mesmo sou capaz entender atualmente. Em sua filosofia, não há propriamente um argumento que o leve à suspensão do juízo, mas um conjunto de fatores que podemos chamar de experiência da diafonia. Pelo que entendo, tal experiência consiste numa espécie de repetição que ocorre ao longo da vida daquele que se dedica honestamente à filosofia. Ao filosofar, o estudante encontra teses sedutoras e elegantes que, a princípio, colocam-se como verdadeiras. Contudo, à medida que se aprofunda, ele perceberá a existência de outras teses igualmente sedutoras e elegantes que são completamente contrárias àquelas que anteriormente o cativaram. Dessa forma, o estudante recorrentemente vivenciará a crença e a descrença em diferentes teses, o que fará com que, cedo ou tarde, o próprio filosofar lhe pareça suspeito. É como se as teses filosóficas novas ou velhas, conhecidas ou desconhecidas sempre estivessem sujeitas a fraquezas que, a princípio, não são evidentes. Basta algum tempo e estudo, no entanto, para que nós as reconheçamos. Como consequência disso, o que resta ao fim de cada nova desilusão filosófica não é uma certeza ou uma verdade que foi refinada pelo contato com outras filosofias, mas certa experiência com a falibilidade do filosofar. Já que se trata de uma experiência, de um percurso filosófico e de vida, não há um argumento que force o filósofo à suspensão do juízo. A bem dizer, a suspensão é um ato voluntário de alguém que percebeu certa recorrência, certa circularidade, no jogo da filosofia. Por sinal, mesmo que vivenciemos uma experiência semelhante à de Porchat, nenhum de nós será obrigado a imitar seu gesto, afinal, ele próprio poderia ter seguido outro caminho. Contudo, não suspender o juízo implica em adotar o conflito e ter que resolvê-lo. A filosofia de Porchat, por sua vez, faz um desvio que torna esse conflito milenar apenas uma forma de filosofar; não a única. 4. A suspensão do juízo produz várias implicações acerca das quais poderíamos discutir, no entanto, como disse, aquilo que me interessou em especial foi a noção da experiência da diafonia. Diaphonia é um termo grego para vozes sobrepostas ou algo assim, consistindo na ideia de que o estudante encontra múltiplas filosofias (vozes) que se colocam como verdadeiras ao mesmo tempo. Infelizmente, Plinio dedica uma pequena sessão para abordar esse tema, pois o próprio Porchat não lhe dedicou muitas páginas também. Uma pena. Particularmente, acho muito interessante pensar acerca desse limiar entre o estudo de diferentes filosofias e o ato de tomar uma decisão a respeito do conflito entre elas. Refletir a respeito dessa experiência é, afinal, diferente de refletir sobre o conflito em si e as teses envolvidas nele. Nesse caso, o que está em questão não são as razões de cada filosofia, mas o ato de entrar em contato com elas e não conseguir resolver aquilo que as separa. A experiência da diafonia é a experiência de ter incerteza, de estudar, ser seduzido por certas teses, crescer intelectualmente ao estudá-las e, mesmo assim, não conseguir estabelecer a verdade das mesmas. Como estudantes, herdamos uma tradição milenar que nos tenta, que nos promete verdades e, ao mesmo tempo, soterra-nos com inúmeras teses inconciliáveis. A meu ver, essa é uma ambiguidade tanto instigante quanto angustiante porque, ainda que nos tornemos mais complexos ao fim desse estudo, continua pertinente perguntar o que realmente sabemos agora que não sabíamos antes. Como consequência disso, creio que a suspensão neopirrônica do juízo não é um gesto de renúncia ao filosofar, mas de fidelidade à complexidade da investigação. O neopirrônico não está fugindo do conflito das filosofias, mas apontando o quão viciado e falho ele é. A crítica que Porchat lhe dirige não envolve resolver o conflito, porém rejeitar aquilo que o produz e, então, filosofar de outra forma. Inclusive, não é estranho que a filosofia cética se apresente como uma espécie de terapia, um gesto de libertação do dogmatismo filosófico. Ainda assim, devo confessar que me sinto tão atraído por essa liberdade quanto pela angústia de quem vivencia a diafonia. Entre os meus filósofos favoritos estão tanto aqueles que buscaram apontar os limites do conhecimento humano, como Hume e o próprio Porchat, quanto aqueles que falaram com convicção sobre a estrutura da realidade, elaborando provas metafísicas que estes rejeitariam. Filosoficamente, não sei resolver-me e, à altura da minha vida hoje, talvez nunca saiba. Por ora, basta-me habitar as questões intelectuais com honestidade e aproveitar o percurso

