As lutas da luta
Geralmente, quando nós vemos o evento histórico redondinho no livro didático, a gente não imagina que certas figuras hoje aclamadas não eram unanimidades em seus tempos, ou pior, sem saber o tortuoso bastidor de certas pautas. Quem sofre disso especialmente é a luta antirracista dos EUA, a qual acaba tendo a nossa atenção porque pauta muitas ideias das lutas antirracistas ao redor do mundo, e a gente nem imagina o contexto estadunidense e muito menos as brigas e lutas de linhas que ocorriam (e ainda ocorrem) no movimento. Foi o que eu pensei ao ler esse livro de Ahmed Shawki, escritor trotskista norte-americano que escreveu esta obra em 2005, logo após o debate provocado pelas perdas do furacão Katrina, no que hoje seria chamado de racismo ambiental. Apesar de não ter idealizado esse livro como uma obra histórica, Shawki faz uma retrospectiva da formação da população negra nos EUA e as lutas antirracistas a partir dos movimentos emancipatório e anti-escravagistas, passando pela segregação racial dos séculos XIX e XX até chegar nos atuais marcos neoliberais. Sem querer esgotar o conteúdo da obra, é possível resumir que Shawki nota o quanto a formação de um ideário antirracista dentro da própria população negra foi difícil até, dentre outros motivos, pela ausência de experiências alternativas no território estadunidense - o autor até cita como contraponto os quilombos brasileiros! Por esse motivo (e também pelo fato dos EUA ser um centro do capitalismo), os negros americanos que eram politizados acabaram divididos em duas linhas, as quais mudaram de aparência ao longo dos anos, mas que podia ser separadas por duas grandes diferenças: de um lado, havia quem intencionasse a superação do capitalismo (W.E.B Du Bois e os socialistas) e quem fizesse apologia do assimilacionismo à sociedade norte-americana (exs: Booker T. Washington e atuais defensores da representatividade liberal); e por outro lado, quem defendia uma cooperação crítica com a população branca (como os Panteras Negras e seu grupo afiliado, os Jovens Senhores em tradução livre) e quem defendia uma rejeição total aos brancos, por vezes caindo numa visão que desconsidera as classes e até defende um "capitalismo negro" (ex: Marcus Garvey e sucessores). Se mesclando entre si, essas duas linhas lutam até hoje pela hegemonia do movimento negro, e sendo o autor um trotskista, ele se põe claramente como identificado pelos movimentos que se aliaram à classe trabalhadora como um todo (não só aos negros) e que tinham o fim do capitalismo como meta política. Em termos de escrita, não há com o que se preocupar. Apesar de não ver seu livro como de história, o autor faz um bom trabalho em contextualizar a formação histórica dos EUA, e até quem entende pouco do país (como eu) não terá dificuldades em se localizar rapidamente. A teoria marxista também é exposta de maneira bem orgânica, apenas quando o ponto do autor precisa se fazer necessário (seja contra ou a favor do retratado), sem grandes exposições teóricas, vide que o livro não é uma obra de filosofia ou puramente teórica. No geral, é uma leitura que não pesa em sua escrita e nem tenta ser a palavra final do assunto, e isso é muito bom. Em uma época em que os historiadores se tornam cada vez mais específicos e (ainda) menos práticos, é preciso saudar os livros que se propõem a serem obras de referência, e principalmente, quem sabe que já teorizamos demais sobre o mundo - sem mudá-lo. *Edição brasileira, da Sundermann, contém prefácio que contextualiza a obra ao contexto brasileiro. Achei acertado
