“– Você mudou, D’Chimbo?”
“– Minhas roupas mudaram bastante”.
Esta reposta, dada pelo protagonista à sua antiga amante - ele agora um soldado fardado e orgulhoso - já diz muito sobre as reflexões propostas por Serge Patient.
É um livro curto, rápido de ler – outro que li “de uma sentada” – e, ainda assim, é uma preciosidade. O escravo do governador conta uma versão diferente da história de um homem real que virou lenda, ou mesmo um mito, na Guiana Francesa.
Essa é uma versão romanceada da história de D’Chimbo – ninguém sabe seu sobrenome –, um nativo de uma tribo do Gabão, que chega na Guiana em setembro de 1858 (no livro essa data está alterada para 1804), e mesmo a Guiana já tendo abolido a escravidão, ele é vendido na praça depois de ter sido sequestrado no seu país. D’Chimbo teria tido sua história distorcida pelas narrativas brancas, que o colocaram como um grande bandido, ladrão e estuprador. Ainda o acusam de ser responsável indiretamente pela violência que existe na Guiana até os dias atuais. Percebe-se que talvez tais narrativas tenham tido a intenção perversa de macular a história do que teria sido, provavelmente, um verdadeiro herói para seus irmãos negros, por não se submeter ao que era esperado dele.
Na versão romanceada de Serge Patient, D’Chimbo é um negro que almeja ser aceito pelo mundo dos brancos. Seu sonho é o da assimilação e ascensão ao poder no mundo branco, e para conseguir tal feito, percebe cedo que precisa dominar a língua de seus senhores, pois a língua é essencial para se ter um mínimo de informação e dignidade.
Belo e forte, primeiro torna-se objeto de fetiche das europeias brancas e ricas, ele, alento para suas vidas insossas de mulheres ignoradas pelos seus homens – marido ou amante. Depois, torna-se militar de farda e é quando ele almeja a ascensão no mundo dos brancos, a partir do cumprimento do papel que se espera dele: traidor de seu povo, caçador de outros negros.
Contudo, a narrativa de Patient deixa a desejar, pois coloca D’Chimbo como esse homem tornado dócil, esquecido das suas raízes, ansioso pela assimilação e aceitação branca. E mesmo o ritmo é prejudicado quando D’Chimbo se apaixona perdidamente, à primeira vista, pela branca loira, filha do seu “não-proprietário” – um homem branco abolicionista. Aparentemente, ela também se apaixonará por ele, mas, é imatura e o desencontro dos orgulhos impede que o romance de fato floresça e se consume.
D’Chimbo é colocado como um homem ingênuo, porém, tendo que lidar com seus rancores, frustrações e ódios ao constatar o quanto traíra a si mesmo e ao seu povo no afã da assimilação. No fim, é pragueado pelo conflito entre seu desejo de poder e ascensão e a lealdade aos seus.
O livro tem um ritmo bom até, mais ou menos uns 70%. Depois, parece se perder um pouco, e mesmo o fim parece ser um tanto improvisado. Deixa muitas pontas soltas, questões em aberto, interrogações – inclusive o possível romance com a mocinha loira filha do abolicionista. De qualquer forma, vale muito a pena, por homenagear essa figura destratada, injustiçada e vilipendiada da história da negritude na América do Sul. Com certeza, recomendo!
3,5/5