Este é um daqueles livros que redefine o que é uma obra-prima. Não há muito o que florear com relação a isto, Os Portais da Casa dos Mortos é um livro marcante, inesquecível! Completamente complexo e denso, suas vísceras são expostas a cada momento, uma leitura para ser feita com calma, apreciando todos os detalhes criados pelo autor. Sua composição é danosa aos mais fracos de espírito, chegando ao ponto da crueldade. Toda esta deturpação está voando pelo mundo de Malazan, como areia nos desertos de Raraku. O clima é árido, pesado e por vezes angustiante, seu final não acalenta, mas violenta ainda mais. Se esta não for sua próxima leitura, você certamente irá se arrepender no futuro.
“— Eu me lembro de um homem desarmado a falta de armadura em suas mãos virou minha lança no último momento. lembro-me da espada de Dujek, que roubou minha beleza enquanto meu cavalo mordia seu braço, estraçalhando lhe o osso. Lembro que Dujek perdeu aquele braço para os cirurgiões, corrompido como estava pelo hálito do meu cavalo. Cá entre nós, sai perdendo naquela interação, pois um braço a menos não acabou com a carreira gloriosa de Dujek, enquanto a perda da minha beleza me deixou apenas com a esposa que eu já tinha.
— E ela não era sua irmã, Bult?
— Era, Coltaine. E cega.”
A história se passa em outros locais, com novos e alguns poucos personagens do primeiro livro. O Apocalipse está chegando, as Sete Cidades estão em ebulição, o Império de Laseen está sofrendo como nunca antes, e todos, absolutamente todos sofrerão com os efeitos colaterais deste embate. Mortais ou Imortais, não importa, a lâmina corta e faz sangrar. Steven Erikson é como um maestro de um soneto sombrio numa noite de Inverno. Seus personagens têm alma, não é preciso muito para nos afeiçoarmos a eles, e lamentar suas perdas. Os Portais da Casa dos Mortos faz jus ao seu título, e realmente traz a morte, não importando sexo, idade ou credo. E elas não são “limpas” ou “honradas”, elas podem e farão parte de seus pesadelos.
“Na trilha, a não mais de cinquenta passos do ponto em que Duiker se encontrava, um deplorável pelotão de soldados malazanos se contorcia no que eram localmente chamadas de “camas deslizantes”: quatro lanças altas postas na vertical, com a vítima presa sobre as pontas dentadas, nos ombros e nas coxas. Dependendo do peso e da força de vontade para ficar imóvel, o processo de trespassar e deslizar devagar na direção do chão poderia levar horas. Com a benção do Encapuzado, o sol do dia seguinte aceleraria a morte agonizante. O historiador sentiu seu coração congelar de fúria.”
O livro possui uma gama de novos personagens, mas que vão se diluindo com a leitura, não sentimos em nenhum momento que o autor apenas colocou àquele ou este para “ocupar espaço”, cada elemento deste mosaico é parte integrante de um todo formidável. Os temores de Mappo, a coragem e determinação de Duiker, a vigilância sempre constante de Violinista e as motivações de todos os demais personagens são críveis e elementares. Em suma, todos buscam pela sobrevivência em um mundo completamente corrompido.
“— O voto de limpar as sete cidades dos mezlas é mais importante — grunhiu o sargento. — Dryjnha exige sua alma, dosino. O Apocalipse chegou. Os exércitos se unem em toda a terra e todos devem escutar o chamado.”
SENTENÇA
Se em Jardins da Lua somos jogados em uma batalha campal, com inúmeros personagens de motivações desconhecidas, e aos poucos vamos nos esgueirando e aprendendo sobre a genialidade da obra, neste livro tudo é muito mais linear, mas sem perder a complexidade. O próprio autor admitiu isto no inicio do primeiro livro. Persistam e deleitem-se. Jardins da Lua, foi sem dúvidas minha melhor leitura do ano e Os Portais da Casa dos Mortos é sem dúvidas uma das minhas melhores leituras da vida. O Livro Malazano dos Caídos é talvez o ápice da Literatura Fantástica, e depende de nosso empenho de comprar e divulgar (ao lado da editora) para que ele não tenha um futuro tão sórdido quanto seus personagens.