A menor Importância -

    Cássio Zanatta

    Realejo
    2016
    148 páginas
    4h 56m
    ISBN-13: 9788599905890
    Português Brasileiro

    Este livro está de cheio de minúsculos momentos insuperáveis, que fazem o dia e o coração mudarem de ritmo. Aqui banalidades são salvas de sua transparente mudez, e cantam. Aqui o sabiá, a formiga, um nome de mulher que não saiu no jornal, o sereno, um assobio. Por detrás deles Cássio Zanatta constrói o seu mundo. É este mundo gigante, feito de sílabas, que o leitor tem agora nas mãos. Não é um livro de poemas, mas é sim, de poesia. Ela é feita de “pequeninos nadas” e se esconde “tanto no amor quanto nos chinelos”, como disse Manuel Bandeira. Depois de ler o que Zanatta tem para mostrar, é inevitável o leitor olhar ao redor e perguntar: onde eu estava que não vi a vida acenando nos momentos dos quais ninguém tira foto? André Laurentino

    Edições (1)

    Ver mais
    • book cover
    Resenhas (1)Ver mais
    Henrique Luiz Fendrich picture
    Henrique Luiz Fendrich23/12/2022Resenhou um livro
    4 (Muito bom)

    A importância de Cássio Zanatta

    Muito daquilo que fez da crônica um gênero tão popular e simpático se deve à produção supostamente mais “descompromissada” de seus escritores. Isto é, em vez de se ater às “hard news”, às notícias importantes que já ocupam o restante das páginas do jornal, o cronista, idealmente, iria se ocupar dos “fait divers”, acontecimentos desimportantes e sem apelo jornalístico, muitas vezes dizendo respeito unicamente ao próprio cronista. A crônica funcionaria então como uma espécie de “respiro” no ambiente pesado do jornal, ao mesmo tempo em que subverteria os valores-notícia, na medida em que se ocuparia de fatos corriqueiros e banais que não teriam como ser objeto de nenhuma reportagem. Eventualmente, é claro, o cronista não tinha como escapar dos grandes assuntos (uma análise atenta da produção de Rubem Braga mostra o quanto ele também foi combativo politicamente em suas crônicas). Tais textos, contudo, tendem a ser preteridos quando se faz a seleção para uma antologia, ou seja, quando se migra do jornal para o suporte do livro, pois, alegadamente, eles teriam conteúdo “datado” e menos afeito à literatura. São escolhidos então os textos mais “descompromissados” e cotidianos, justamente os que garantem a especificidade da crônica e que ajudam a explicar o sucesso do gênero. A característica da leveza da crônica continuou uma constante mesmo depois que ela não dependeu mais do jornal para ser publicada. A crônica de internet é, ainda, muito influenciada pelo espaço do jornal que originalmente a abrigava. Entretanto, nos tempos em que vivemos, excessivamente politizados (e polarizados), aparenta ter havido uma mudança nas expectativas em relação à crônica. De repente, falar sobre pássaros e sobre árvores, por exemplo, enquanto o mundo desaba sob os efeitos de uma pandemia ou de uma guerra mundial passou a não ser visto como outra coisa senão lastimável alienação. Então a crônica de nossos tempos, com frequência, não difere muito do artigo de jornal, talvez apenas com um pouco mais de liberdade de estilo, mas ainda marcada por todos os temas relevantes da sociedade, dos quais o cronista sente que não pode abrir mão. O tipo de crônica que Rubem Braga apresenta em seus livros, em tom lírico, melancólico, existencial, de comunhão com a natureza e de afetos fraternais, praticamente não se vê mais, ao menos nos grandes veículos e portais. E, no entanto, talvez mais do que nunca esse tipo de crônica seja necessário, pois estamos claramente saturados de realidade. Felizmente, há por aí espécimes raros, como Cássio Zanatta. Trata-se de um cronista à moda antiga, que, com notável habilidade, concentra-se nas miudezas do cotidiano. Zanatta mistura o espírito das crônicas de Rubem Braga com as construções poéticas de Paulo Mendes Campos. Ou seja, une uma visão de mundo voltada às simplicidades da vida, e em frequente contato com a natureza, com certas experiências formais que são empregadas de maneira a reforçar o próprio lirismo e a beleza das suas observações. É daqueles cronistas que não têm sossego, que dormem de olho aberto na expectativa de flagrar desacontecimentos, minúsculos sustos e grandes pequeninices. Zanatta repara e, quando acha que vale a pena, conta em sua crônica o que viu, para que quem passou sem ver, por pressa ou pela cabeça ocupada em assuntos mais urgentes, possa perceber também. Seu foco são as coisas que não tem a menor importância e que, sem a sua ação e o seu registro, passariam despercebidas, sem dar susto ou desesperança em ninguém. E, no entanto, quem dirá que essas coisas desimportantes não têm lá o seu papel, ainda mais em tempos como os nossos? Mais do que servir de respiro para uma realidade que continuamente nos oprime e nos esgota, o olhar atento às coisas pequenas do cotidiano é uma forma de orientar uma nova percepção de realidade e mesmo de se estar no mundo. Não se nega a importância dos assuntos ditos sérios, mas crônicas como as que Zanatta escreve mostram que outra vida é possível e, talvez mais do que isso, que é necessária. Muito se fala sobre como o mundo é ruim e as pessoas são terríveis, mas muito disso decorre do fato de não percebemos a vida à nossa volta. Zanatta, porém, está lá para mostrar à gente como as coisas são realmente bacanas ao nosso redor. Seus personagens podem ser bichos, estrelas, ventos, sorvetes, carrapatos – eventualmente, até gente. As crônicas de Zanatta mexem em pequenos afetos, em acontecimentos que só encontram lugar nos interiores da gente, e quando isso acontece, de súbito, o mundo já é outro. A missão que Zanatta encampa é fazer com que a sua crônica melhore de algum modo o dia do cidadão, em geral já tão sofrido por causa das notícias ruins. Ele sente que não tem muito a acrescentar sobre escândalos políticos. Em vez de falar da falta de água, do insuportável trânsito, da violência sem controle, prefere falar da chegada da primavera. E o que ele faz tem mais importância do que parece, porque ele redireciona o olhar do leitor, e quem sabe se, assim, não se encontra até mesmo algum sentido para a vida? “Talvez a graça esteja apenas em comer um pastel, ir ao cinema, beijar a menina, olhar a estrela, procurar vagalumes, ir a Olinda ou Barcelona”. Ao fazer esse tipo de sugestão, o cronista não apenas nega a retórica e os valores-notícia que norteiam os jornais (e mesmo as redes sociais), mas propõe uma nova maneira de se lidar com a realidade, certamente mais saudável do que aquela com a qual nos acostumamos. Na desimportância alardeada da crônica, bem pode se esconder uma poderosa filosofia. Por vezes, Zanatta trata da infância, faz evocações do passado, canta a sua São José do Rio Pardo. Frequentemente, seus textos refletem a passagem do tempo ou tratam de certos ritos de passagem (destaque para “Lá vai Maria”). Sua esposa, seus filhos, seus pais, todos comparecem porque também integram o cotidiano do cronista. A cidade de Tiradentes. As derrotas do Santos. Os sonhos. As palavras, seus usos e significados. São esses temas, muito mais do que as notícias, que interessam às crônicas de Zanatta. Impressiona-lhe o sumiço do sereno, das bolinhas de chuvas, de alguns sabores, das moitas das sensitivas... Seus textos defendem passarinhos, nuvens, muriçocas “e outros troços que não são mais assunto”. Seu olhar é de quem acha graça em coisas “bocós” como uma mudança de estação, o caminhar das ondas, cachorros de rua, maritacas, que existem para contar piadas. Tom, Baden, Vinicius, Bandeira, Drummond: você pode topar com algum deles, enquanto lê, sossegado e feliz, uma crônica de Cássio Zanatta. São crônicas escritas também com excelente bom-humor, com frequência usado contra si mesmo, porque o cronista tem muito isso de se desqualificar diante dos outros, o que deve até contribuir também para nos simpatizarmos com ele – ninguém aguentaria um cronista sisudo a impor normas e morais, e nada mais distante disso do que Zanatta. A única moral que emana das duas crônicas não é imposta, mas acompanha o leitor, até o ponto de ele se convencer por si só que, apesar de tudo, há muita coisa bonita por aí. Por vezes, suas crônicas partem de frases-motes e são desenvolvidas a partir de um refrão de fala cotidiana – os próprios títulos de seus livros parecem retirados de certas locuções que costumamos usar no meio de frases rotineiras: A menor importância, O espantoso nisso tudo, O máximo que eu consegui. Também por meio desses títulos, aliás, reforça-se um humor autodepreciativo, mas é bom não nos deixarmos enganar: Cássio Zanatta é uma figura das mais relevantes na crônica contemporânea brasileira. Além das marcas da oralidade, ele faz também certas experiências formais em sua crônica, que muitas vezes é uma prosa poética imbuída de natureza. Mesmo nas mais belas crônicas, porém, não deixa de haver certa nota melancólica, que é a constatação dos nossos descaminhos, de um Brasil que ele não mais reconhece, de gentilezas escassas, quase miseráveis, “o jardim desandou, murchou, virou uma pancadaria sem fim, um esterco só, sem jardineiro, sem rosa, sem ris, sem viço, sem música, sem nada”. Se Rubem Braga escreveu, ainda na década de 1950, que havia “um Brasil bom que a gente desperdiça de bobagem, um Brasil que a gente deixa para depois e, entretanto, parece que vai acabando”, Cássio Zanatta já pegou um Brasil em que tudo isso, se não acabou de vez, ao menos sucumbiu à voracidade das paixões políticas, às estratégias extremas e violentas que são a exata oposição da crônica. Mas nem tudo está perdido, se gente como ele ainda tenta resgatar esse Brasil leve e bom que anda sumido. Ao tratar de temas duros, como a agonia da mãe em “O baque da porteira”, é com uma simplicidade que o cronista quase chega a esconder os grandes sofrimentos. Há ainda o inusitado da pandemia, que deixou o cronista fora de hábitat, mas bem mais comum é ver o cronista imaginando pensamentos de um relógio, uma nuvem, uma pedra, uma trena, um sinal de trânsito. Objetos cotidianos são alçados ao protagonismo, porque o mundo é um mistério muito grande e tudo é motivo de um encanto puramente infantil. Pode-se encontrar uma ou outra pequena diferença entre seus livros. Por exemplo, em “O espantoso nisso tudo”, há construções ainda mais poéticas do que as de “A menor importância”. E “O máximo que eu consegui” oferece mais “contos” que as antologias anteriores, inclusive um escrito à Verissimo (“Duas pessoas civilizadas”) e outro em que a primeira voz é uma mulher (“Você me traiu”). Mas em todos eles é o bom e velho Zanatta do começo do fim, dando o seu máximo para ver se reeduca nosso olhar. Entre as crônicas se sobressaíram na leitura, também estão “Aconteceu que” (de A menor importância), “O cara que toca tímpanos na orquestra”, “O filme da vida” e “O homem arruma as gavetas” (de O espantoso nisso tudo), “A mulher que ri”, “O vizinho”, “Zarolho” e “Madrugada” (de O máximo que eu consegui). Tudo escrito sob uma aparência despretensiosa, mas obedecendo à necessária exortação de nossos tempos: “Carregue menos peso. Valorize os desperdícios. Atenção às desimportâncias. E não se esqueça de ir estocando sonhos”. Quem tiver ouvidos para ouvir, ouça.

    4 curtidas

    Estatísticas

    Avaliações

    4 / 1
    • 5 estrelas0%
    • 4 estrelas100%
    • 3 estrelas0%
    • 2 estrelas0%
    • 1 estrelas0%