O visgo das coisas -

    Expedito Ferraz Jr.

    Editora Penalux
    2017
    92 páginas
    3h 4m
    ISBN-13: 9788558332880
    Português Brasileiro

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    Krishnamurti Góes dos Anjos12/04/2018Resenhou um livro
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    O VISGO DE UMA DENSA FLORESTA DE SIGNOS

    Manhã cedo. Vou trabalhar e vejo na rua um cão bege fuçando curioso sacos de lixo, pequenas moitas, postes e portões pelos quais se esgueira por debaixo, e encontra dificuldade de voltar. Percebe minha presença no ponto de ônibus. Torna-se mais curioso ainda e vem até onde estou. Fareja-me os sapatos. E é então que um grande assobio, mais além na rua, o desperta da curiosidade. Parte de um velho catador de latinhas de alumínio que vive a fuçar o lixo dos prédios do entorno. O cão atende o chamado, esquece-me completamente e vai correndo, abanando o rabinho em direção ao velho. Aquela cena do velho catador e seu cão lembrou-me duas ou três coisas. A primeira é o capítulo 141-Os cães, de Memórias Póstumas de Brás Cubas de Machado de Assis, em que há a passagem: “as criaturas humanas é que disputam aos cães os ossos e outros manjares menos apetecíveis; luta que se complica muito, porque entra em ação a inteligência do homem, com todo o acúmulo de sagacidade que lhe deram os séculos, etc”. Outra coisa que me veio à mente, de embrulhada na mesma hora, foi um poema de Expedito Ferraz Jr. que lera no dia anterior, e consta do livro “O visgo das coisas”. Chama-se “A cantiga do velho do saco”: “Uns lhe tem medo. Outros asco. / A mim, me rói o segredo / do velho (viejo?) que vejo / desde eu menino, ele velho, / e ainda agora, em andrajos, / num desenredo estrangeiro / ao meu próprio desenredo, / carregando algum mistério / nas costas, dentro de um saco. Se anda e anda, de onde veio? / Se carrega, aonde leva? / Se nunca chega, onde mora? E a mim se mostram segredos: / que é onde andar o velho, / seu destino, sua origem, / seu nunca, feito de agoras. Que o velho leva o que vejo: / céu, sarjeta, medo e asco. / Leva o braseiro do ocaso. De sombras, leva um cortejo. / Leva o menino que eu era / e o velho que não demora. / E também leva o que perco, / que o saco é pelo avesso / e o conteúdo é o de fora.” Muito bem; os versos “Leva o menino que eu era / e o velho que não demora” ficam a ressoar-me na mente mais pungentemente quando o “velho” que vou me transformando, recorda os olhinhos do cão que há pouco me farejara. E o tal cão não me saí da memória porque estou a recordar-me também de outro texto que li recentemente.... ∞ Mas isto não importa agora, não nos desviemos. Falemos do livro do Expedito Ferraz Jr. Trata-se de projeto editorial singular, original, ou em bom latim: sui generis. Divide-se em duas partes, a primeira reunindo 18 poemas que compõem propriamente o título de capa: “O visgo das coisas”, e a segunda reproduzindo 19 poemas do primeiro livro publicado pelo autor “Poheresia” escritos/revisados entre os anos de 1990-2014, a revelar acentuada exigência estética e refinamento poético. Como se não bastasse, há a enriquecer a obra nada menos que seis pequenos textos sobre a poética do autor. Amador Ribeiro Neto na orelha do volume, afirma que Ferraz “imbrica o lirismo mais sublime a um lirismo social que denuncia as fragilidades e fragmentações da vida”, e que nos faz adentrar “na densa floresta de signos que a vida, a linguagem e a poesia nos oferecem”. Com efeito a leitura dos 37 poemas de flagrante caráter icônico em sua maioria, nos revelam numa multiplicidade de temas, alguém que sabe muito bem o que faz, e porque faz. Entretanto, é Genilda Azerêdo que assina um dos textos, e chama-nos a atenção para um fato essencial: “... parece que o Expedito-professor de teoria da literatura, especialista em Semiótica peirceana, soprou no ouvido do Expedito-poeta. E o o fato é que não há como separar nossos aprendizados, nossas vivências. E neste caso, nem desejamos que isso se faça, para o próprio bem da poesia. Quem se der ao trabalho e à satisfação de procurar, encontrará diversos textos de Expedito na Internet, um dos quais chamo a atenção pelo embricamento da poesia desse autor com a dita Semiótica. Vale a pena recordar que: A semiótica peirceana (Charles S. Peirce 1839-1914), ou a ciência dos signos, ao mesmo tempo que nos fornece um complexo dispositivo de indagação das possibilidades de realização e classificação dos signos num corpo teórico sistematizado, também exige de nós uma atividade de descoberta, quando pretendemos aplicar esse corpo teórico a sistemas concretos de signos, como é justamente o caso da literatura, que tem como símbolo (a palavra). O escritor a emprega de um modo especial, visando a projeção do icônico sobre o verbal. Nesse contexto, o signo lingüístico tem sua arbitrariedade relativizada e tende a transformar-se em signo icônico, isto é, tende a imitar as características do seu objeto. A principal contribuição da Semiótica para a literatura é a compreensão de como se constrói essa iconicidade da linguagem literária, ler o mundo verbal em ligação com o mundo icônico ou não verbal ou, por outras palavras: considerar o texto como um signo complexo, em que diferentes níveis de construção (a organização sintática e discursiva, as escolhas lexicais, o ritmo, a segmentação espacial), concorrem para um efeito de coerência estrutural, isto é, para uma impressão de unidade. Ver mais e melhor em [Expedito Ferraz Júnior. Semiótica e análise literária: uma introdução. In: Revista do Gelne Vol. 6 - No. 1 – 2004, UNIR – Rondônia]. E também nessa visada acima, que lemos a obra, onde aparecem ao lado de poemas minimalistas, outros mais discursivos, trocadilhos, poemas e versos com letras garrafais, poemas como unidades rítmico-formais, diálogos criados com outras expressões artísticas e com a própria literatura (referências às artes plásticas, à fotografia, ao cinema) enfim, a poesia do verso intratexto, intertexto e extratexto numa versatilidade digna de nota. Mas e o que dizem tais poemas? Qual o conteúdo que nos fica como resíduo de leitura? Houve quem escrevesse que as palavras de Expedito carregam um certo pessimismo. Mas como é, e em que medida isso acontece? Poema “O labirinto”. O poema tem uma epígrafe de J.L. Borges: “No habrá nunca una puerta...” “Vencido, / descrido de céu / ou saída, / paro entre paredes, / convencido / de que o labirinto / é que se move; / de que o labirinto / me percorre (e nunca, / dentro dele / eu me movera). Recolho o fio / já vertido. / Refaço o novelo. / E um novo labirinto / cresce em minhas mãos, / na brenha tosca / da pequena esfera. Há que fiar, / na eternidade veloz, / a antiespera. Há que aceitar / que o fio / que eu semeava / e colheria; / que o fio / em que me enredo / e era meu guia / agora guia o meu algoz / e me oferece à fera”. “...Agora guia o meu algoz / e me oferece à fera” Versos fortes que voltam a lembrar do cão visto pela manhã a me olhar, e me faz refletir sobre o texto que mencionei e que se interliga em muito com o sentir/pensar de Expedito Ferraz Jr. Tratasse de um texto de Jonatas Ferreira - “Heidegger, Agamben e o animal”. Dentre outras questões, Jonatas levanta percuciente reflexão filosófica heideggeriana acerca da relação entre o ser humano e o animal. Com base no pensamento dos filósofos, evidencia-se a desconexão que o sociologismo e a filosofia da cultura promovem entre o ser do ser humano e seu mundo, sobre essa distância que nos arrasta para um “tédio profundo”, sob cuja influência o mundo e a tarefa intelectual parecem submergir em niilismo. Segundo o pensamento de Agamben existiria a suposição de uma força niilista nas sociedades modernas, de amesquinhamento das possibilidades do ser, que centra-se na aproximação entre o humano e o animal, e deste em relação ao autômato. Esse processo de reduções sucessivas marca a tecnociência. A automatização seria algo como a consumação do esquecimento do ser que é mais íntimo ao humano, a redução das relações entre este e o mundo às questões do labor, da busca de certeza, de segurança etc. E em assim sendo , todo o pensamento ocidental deixa de colocar a possibilidade de entender os traços distintivos do animal, do mecanismo e do ser humano em terreno fundamental. O de promover na zoologia e na biologia o reconhecimento de que os órgãos não são meros instrumentos, de que o organismo não é uma mera máquina. Isto significa, portanto, que o organismo ainda é algo mais, algo por detrás e para além. [...] Porque através deste reconhecimento do que está para além do maquinal damo-nos aparentemente conta da essência própria do vivente, sobretudo da espécie humana. E de tudo, ainda resta-nos dizer: como não se admirar e não referir poemas como “Vista aérea”, “Chiste”, “Os óculos”, “Litoral”, “Lírica de passarinho” e “Metafísica” que temos ímpetos de transcrever? Como não sentir aquela “pulga atrás da orelha” ao fechar o livro e num átimo reabri-lo para reler o poema “O visgo das coisas? “Tempo em que para ter ensejo, / o ser das coisas carecia / de se valer da alma dos bichos / ou da pessoa humana / (modo de sedizer). Maquina-de-escrever, por exemplo: / pra quê? pra quem? / Mas, quando deu fé, / ela sorrindo tanto dente, / muito que brancos, / foi ficando ali que ficou sendo / máquina-de-sorrir-ainda-que-todavia. Guarda-chuva também, resignado, / em surdo haver de ser ave noturna, / recolhido em si, mofino, desalado, / sem uso sem asa sem voo sem chuva sem chão, / dormindo pendente, no esquecido / de nunca ter sido morcego, / antes a flor enlutada, / o agourento corvo / e nunca bengala, e não sequer seu guia. Dos bichos alados, porém, / o janelão era o demais vivente, / suas venezianas costelas azuis / assoviando sempre e sempre, / e o grande par de asas / que se rebelava alguma vez, / mas só quando o vento suscitava / (em si bemol), / como um gesto da mão / responde em sestro / ao zoom da escuridão de um pensamento / e sofrendo e sofrendo a deslembrança / de um talvez antigo voo” Uma pausa na quarta estrofe: ∞ Leitores precisam, sempre, experimentar novos caminhos como picadas abertas em floresta densa, preferencialmente feitas a golpes de facão. E nisto não se entenda que as picadas existam para o entendimento, mas sim para a invenção, lançando mão de um argumento de José Castello. Nesse caminho, projeta-se o procedimento criativo de leitura e para isso valemo-nos do que para Goethe era a suprema faculdade de todas as coisas, e, para Baudelaire, um ideal. A imaginação no sentido de que Borges pleiteou: “a literatura como um eixo de infinitas relações”. E é assim que falamos afinal da última estrofe do poema-título do livro “O visgo das coisas”. Repetindo (para lembrar), parte da 4ª estrofe: … “como um gesto da mão / responde em sestro / ao zoom da escuridão de um pensamento / e sofrendo e sofrendo a deslembrança / de um antigo voo”. E saliento que “sestro” em linguagem figurada, anuncia acontecimentos infaustos; agourentos, sinistros. Mas quem é afinal, e porque sofre e sofre o ser com a “deslembrança” de um voo? É o que nos responde a quinta e última estrofe do poema que, não por acaso, foi também impressa na quarta capa do livro: “Tempo em que por ser espelho, / o visgo das coisas padecia / mísero de luz, que é sem o que / sequer as réstias das orquídeas crescem, / nem as mandalas das aranhas acontecem”. Em nosso tempo de escuridão, de alastrante apatia, de tédio profundo, de niilismo destrutivo, o autor nos faz ver que o símbolo do espelho representa o instrumento de autocontemplação e reflexão do universo [aí Narciso, homem que se vê a si mesmo], a consciência do humano, o pensamento em si mesmo que se encontra “mísero de luz, que é sem o que / sequer as réstias das orquídeas crescem” – réstia = feixe de luz que sustenta o simbólico trançado/hastes das orquídeas e “nem as mandalas das aranhas acontecem”.(mandalas - círculos mágicos da teoria junguiana que representam simbolicamente a luta pela unidade total do eu). Observe-se que o autor aponta uma ascensão (qualidade ou estado do que está em ascendência, movendo-se para cima, elevando-se: o reino vegetal – orquídeas, o animal, aranhas e finalmente o ser que está em duro sofrimento – nós! Em outras palavras, e resumindo grosseiramente: a sagacidade pelo acúmulo dos séculos ainda não ocorreu (lembram do início da resenha?) A luz está dentro de nós. No poema “O relógio” há um verso: “parados / ponteiros, / pêndulo”, que bem nos define hoje... O infinito tem todo o tempo desse mundo para esperar que afinal compreendamos... Há de se ressaltar também, que construímos verdadeiro abismo entre a emoção da poesia e a razão da filosofia. Trata-se da cisão entre poesia e filosofia, entre palavra poética e palavra pensante. A palavra ocidental está, assim, dividida, entre uma palavra inconsciente como que caída do céu, que goza do objeto do conhecimento representando-o na forma bela, e uma palavra que tem para si toda a seriedade e toda a consciência, mas que não goza do seu objeto porque não o consegue representar. A esse propósito ver especialmente [Agamben, G. Estâncias: a palavra e o fantasma na cultura ocidental. Belo Horizonte: Editora UFMG, 2007]. Eis o que afinal consegue o poeta-professor ou o professor-poeta (como queiram), Expedito Ferraz Jr, uma conversa interessantíssima e inteligente entre a própria literatura e a filosofia, entre a crítica e a poesia, entre o gozo e o pensamento. Livro: O visgo das coisas – Poemas de Expedito Ferraz Jr.– Editora Penalux, Guaratinguetá-SP, 2017, 92p. ISBN 978-85-5833-288-0

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