Em mais um trabalho que exibe a sua capacidade e versatilidade de escrita, Haruki Murakami nos mostra, sob a lente das vítimas do Ataque de Gás Sarin ao Metrô de Tóquio todo o ocorrido em março de 1995. O fato acorreu quando membros de uma seita religiosa chamada Aum Shinrikyo, comandados pelo seu principal mestre, Shoko Asahara, estouraram paquetes contendo o gás sarin dentro de vagões do metrô de Tóquio, um dos mais movimentados do mundo. O gás sarin é uma substância criada, originalmente, para funcionar como um inseticida, mas que tem sido utilizada como arma química em cenários de guerra, como no Japão ou na Síria, devido à sua potente ação no corpo humano, que pode provocar a morte em até 10 minutos. Em sua forma líquida, o sarin é um tipo de composto químico nervoso que se torna gasoso se estiver em contato com o ar. De forma criminosa, 4 grandes linhas de metrô sofreram um ataque de membros da Aum, causando a morte de 19 pessoas e ferindo mais de 2000, causando em muitas pessoas sequelas permanentes.
Dando seu ponto de vista, Murakami tece uma trama de relatos sobre o dia, os diferentes personagens e suas diferentes perspectivas sobre o dia do ataque, suas vidas após ocorrido e as sequelas secundárias que o gás sarin trouxe a essas pessoas. Para além de um relato simples de vítima, ele também vai buscar, também através de entrevistas, o relato de enfermeiras, médicos, trabalhadores do próprio metrô, especialistas em compostos químicos e os agentes que trabalharam na investigação do caso. A trama do ataque tem ares surreais de bizarrice, que evocam o fim do mundo, fraudes em processos e tramoias, violência da seita Aum, comandadas de forma sistemáticas pelo seu principal líder, Shoko Asahara, uma espécie de autodeterminado messias da seita e que, acuado pelas acusações policiais, decidiu instituir o "fim do mundo e desafiar as instituições japonesas.
O livro em si tem um caráter jornalístico, tendo alguns momentos onde o Murakami dá a sua versão sobre o que entende dos entrevistados, de suas experiencias, as aparências e como observa esse fato. Os anos 90 foram anos complicados para o Japão, que vinha de um terremoto em Kobe, e de uma sistemática recessão/estagnação da economia. Murakami gasta todo o seu repertório de bom observador para traçar um paralelo entre os relatos, tecer observações pertinentes e nos mostrar um mosaico de narrativas sobre um mesmo fato. Para mim, foi um reencontro com a língua espanhola, já que a única versão que encontrei foi a em espanhol A língua espanhola, muitos momentos me é muito cara, mas que é mais uma questão de acostumar-se ao ritmo. Quando isso acontece a leitura flui. Enfim, gastei meu espanhol pelo fato de estar sedento na leitura neste raro livro (pelo menos para o público brasileiro).