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    Longe do fim (Poetas Essenciais) -

    Otávio Machado

    Laranja Original Editora
    2018
    130 páginas
    4h 20m
    ISBN-13: 9788592875312
    Português Brasileiro
    5
    1 avaliação
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    Krishnamurti Góes dos Anjos29/04/2018Resenhou um livro
    5 (Perfeito)

    O VERBO DE UMA ALMA CÓSMICA

    PREFÁCIO AO LIVRO Otávio Machado faz parte de uma família de poetas para quem a palavra é respiração, por isso, movimento e repouso, ritmo e quietude, que nos toca, e contagia, e nos impele à apreensão do ritmo original do mundo e à sua respiração essencial. Os poemas reunidos neste longe do fim sintetizam uma poesia predominantemente cósmica no sentido de que assemelha-se a um hino multiforme à natureza e às forças universais, ultrapassando todas as convenções que enquadram a realidade em limites definidos. Aqui não é o choque diante do cosmos que está em primeiro plano. Não, o poeta usa da palavra para realizar a possibilidade de integração e harmonia cósmicas quando alarga os seus limites incessantemente, descentrando-se para se conhecer; autocentrando-se, para conhecer o mundo. E, na senda de Heidegger (e em certa medida também Teillard de Chardin), defende que, se o homem ama as palavras, é porque ama o corpo uno e plural do ser, na sua nudez e no seu esplendor. Indícios... … “o tempo são estrelas / guardiãs do cosmos / alcançando distâncias: / no fundo da manhã / náufragos sôfregos / resgatam os instantes / cuidando das almas / aos ventos que dobram / renovando as estações”. aprendeste a ler / e n t r e l i n h a s / o todo inconfundível / o rosto sem rosto / no século da sina / na noite dos sonhos / na verdade sem som – / o cheiro da vida / é a certeza do tempo. aprendeste a estar iluminada / unificando espera e espaço na / minha existência sobre a tua”... Poema “Estrelas”. E ainda no poema “Catedral” encontramos esses versos de intensa esperança: … “ainda guardo nos bolsos / algumas estrelas / para sorrir em noites de lua cheia / que desenhei no teto do quarto tão íntimo / onde o momento segue na revolução silenciosa / revelações nos exercícios de estar / (ou ser o que sou, apesar de mim)...”. Trata-se positivamente de uma poesia que anima e revitaliza, tonifica e encanta, quando abrimos as portas e janelas a ela. Entretanto, exige de nós um escancaro prévio, uma disponibilidade, uma abertura, uma pré-disposição psíquica que permitam que jorrem adentro seus tesouros potenciais a refletir pedaços de uma Verdade espantosa e gigantesca, mas nunca inteiramente desvelada, sempre envolta em uma certa bruma de mistério. Faz-nos cogitar que o lirismo talvez seja filho da percepção súbita – aquele insight relampejante – de nossa pequenez de mortais diante das esfinges, inumeráveis e indecifráveis, propostas pela sucessão eterna de eras. Constatamos em vários poemas também a materialização do lirismo como saída para os questionamentos metafísicos que acometem o poeta. Por isso, o tom difuso da verve espiritualista encarcerada entre o dilema da matéria e a sublimação do espírito, gerando uma poderosa força dialética que tem, numa síntese desse dilaceramento, belos registros de lirismo dialético e poético. Habilidoso jogo em que passamos pelo infinito apenas para retornar ao ambiente prosaico e urbano, onde podemos atualizar as possibilidades estéticas e afetivas do cotidiano: … “nos vemos mais tarde / num lugar sem nome / onde se amontoam estrelas / tempo do quando / dos corpos sutis / por graça / um estado da alma / ir e vir / vivendo as / nove esferas celestes / colheita silenciosa / para buscar serenidade. Poema “Colheita”. Observe-se a profunda consciência de vida e morte. Morto o sujeito, a realidade se mantém indiscriminadamente, sem nenhum rastro de transcendência ou compensação. Poema “Relógio”: “mesmo se não estiver / por perto / o mundo acontece / em você. / o vento balança as folhas / da velha mangueira / o dia prepara a cidade, / entre anseios e promessas / sombras das ruas são vidas/ entre relações e coreografias. / às medidas das coisas / os corpos perecíveis / hospedam as palavras aos / mil pedaços de partículas plurais / que formam os eventos de sol & lua – / relações de morte renascem ali. / metade em retratos e metade em esculturas / como bocas severinas em eterna vigília / transgredindo as repetidas ressurreições / até sermos finalmente livres / como espíritos perfeitos / começo e fim / involuntários / na condição humana. / indiferentes somos – / mesmo se não estivermos / por perto / o mundo ainda acontece”. Veja-se também a atitude vigilante do poeta dentro de uma perspectiva de espera e silêncio típica daqueles que encontram a tão almejada paz de espírito: … “a noite me concede uma paz / e este rosto esculpido / no silêncio da / espera”. Poema “Paz”. Aqui e ali colhemos ainda a maturidade do amor, palpável nos poemas em homenagem à mulher amada: “Dedicatória”, “Temperatura” e “Da leveza”, do qual transcrevemos a belíssima estrofe: … “me espera, / vou pelas entranhas / mesmo que sussurre estranho / quando acontece a palavra. / me espera, nos habitamos / nas estrelas / familiares / nos teus olhares de vida. / me espera, eu sei que me permite / vou por dentro das artérias / possíveis do sentimento. / me espera, / não posso colher as flores / sem tuas mãos em mim”. A criação poética de Otávio Machado se abre ao encontro das forças naturais, mobiliza os sentidos para uma reinvenção da existência do homem pós-moderno. Este encontro instaura uma escritura atravessada por irrupções de uma energia do mundo natural situada para além do entendimento do racionalismo redutor e mecanicista. Atua pois numa operação de guerrilha psíquica contra a ordem estabelecida do capitalismo com seus padrões de repetição e consumo descartável. É poeta que retrabalha o imaginário a favor de uma reeducação das posturas dos sujeitos contemporâneos e seus modos de se relacionarem com a Terra, com a vida, consigo mesmos. A leitura deste livro, dentre outras coisas, nos faz recordar que o ser humano vive solto no cosmos, vagando dentro da órbita de um planeta que viaja em torno do sol a 107 mil quilômetros por hora. Aí está imerso, aí protagoniza sua história e se recompõe sempre, pequenino, mas uma parte pensante que ama, cria e contempla – e ao contemplar, constrói – a si e ao mundo. Krishnamurti Góes dos Anjos Escritor e crítico literário.

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