Um pequeno volume amador, mas que trás uma boa seleção de trechos de Rumi apresentados de forma simples
Ao folhear o livro antes mesmo de começarmos a ler, já temos a impressão de que se trata de um trabalho amador. Além de uma epígrafe e um esboço biográfico de Rumi em duas páginas (bem resumido e trazendo apenas aquelas informações mais batidas sobre o poeta), o livro não contém nada além das próprias traduções: nenhuma nota, nenhum texto de apoio. Isso não é necessariamente ruim: pelo contrário, o leitor comum (não acadêmico) lucra bastante com essa apresentação simples e direta do poeta por sua própria poesia. E apenas quem se interessar em aprofundar vai escolher buscar obras mais rigorosas. Tendo lido esse livro pouco depois de resenhar "Ele que o abismo viu: a epopeia de Gilgamesh", traduzido e comentado com muita erudição e rigor acadêmico por Jacyntho Lins Brandão, é preciso ter o cuidado de não julgar essas duas edições, com objetivos tão diferentes, pelos mesmos critérios. Em que transparece o amadorismo editorial de que falo? Sejamos concretos. 1. Não há referência às fontes dos textos traduzidos. Muito provavelmente, trata-se de traduções indiretas a partir do inglês, uma vez que em dois poemas o tradutor chega a esquecer de traduzir sequências de palavras que, desse modo, aparecem em inglês, no meio do texto português. 2. Não se avisa ao leitor de que obras são retirados os trechos traduzidos. Provavelmente, há trechos do Masnavi, dos Rubayiat e de outras obras de Rumi. 3. Há alguns erros básicos de gramática, ortografia e digitação. 4. O tradutor não apresenta seus critérios tradutórios (o que seria especialmente relevante por se tratar de tradução de poesia); 5. Ao ler a obra, percebe-se que não há nenhuma reflexão tradutória ou poética subjacente ou nenhum projeto tradutória especificamente pensado para esses poemas. Isso é provável fruto de um não estudo apurado, de não se ter dado importância aos recursos poéticos do original. O que, por sua vez, já deve ter sua origem nos textos de base escolhidos (provavelmente traduções que buscavam apenas a apresentação do conteúdo veiculado por Rumi, sem a menor intenção de dar conta dos aspectos formais de seus poemas). À parte essas questões, gostei muito de ler essa recolha. Ainda que seja uma tradução em prosa (a disposição vertical é meramente factual), as imagens belas pescadas por Rumi são suficientes para conceder alguma poeticidade mesmo a traduções desse tipo. Quase todos os poemas me instigaram de alguma forma por suas imagens.

