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    Desdizer e antes -

    Antonio Carlos Secchin

    Topbooks
    2017
    211 páginas
    7h 2m
    ISBN-13: 9788574752662
    Português Brasileiro
    4.6
    6 avaliações
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    Clayton de Souza29/05/2020Resenhou um livro
    4 (Muito bom)

    A trajetória de um mestre [Minha resenha na Revista Germina]

    Em meio aos confusos vetores que vigoram em nossa contemporaneidade, a poesia, essa resistente, como Proteu, metamorfoseia-se em variadas formas mal a “tangenciamos” criticamente. Nesse contexto, cuja vastidão formal muito deve ao que se convencionou chamar Modernismo e as vanguardas em seu entorno, o poeta se vê diante de um vasto horizonte estético, que engloba também o peso de uma tradição mais remota, mas ainda influente e viva pela força artística dos grandes mestres do passado (e não vai aqui alguma referência a Mário de Andrade e sua famosa invectiva contra os parnasianos). Embora não se possa teorizar em termos definitivos quanto a uma tendência geral, é possível dizer, em termos genéricos, que no gosto dos escritores contemporâneos observa-se a predominância das correntes mais recentes, canonizadas sob a nomenclatura de segunda geração do Modernismo (no que esta tem de característico e é sintetizada em qualquer livro didático), e também, volta e meia, o “não-verso” concreto; para além das influências é comum uma tendência ao “não-discursivo” e fragmentário, o apelo ao imagético e ao sensitivo, também à livre associação do signo linguístico, sobrepondo-se ao linear, à comunicação, a um tema que vai se construindo de forma lógica. Preza-se a brevidade do verso sintético; e a rima, nessa literatura contemporânea, tem a constância de um ano bissexto. Tendo tais dados em mente, torna-se ainda mais interessante a leitura de Desdizer, recente junta de poemas que perfazem grande parte da carreira literária do poeta e crítico Antônio Carlos Secchin, incluindo ainda exemplares inéditos de sua eclética poesia. É uma oportunidade única de correr os olhos sobre versos que contam uma trajetória, não de vida propriamente, mas estética de um autor e sua mundivisão; um autor que percorreu longo caminho, testemunhando em searas diversas as formas que a poesia logrou assumir, refletindo como crítico e versejando como poeta que é, resultando desse conúbio de prática rigorosa sua canonização na academia nacional. Possivelmente tal experiência e a palavra “academia” possam levantar algumas objeções em certos leitores a quem o classificativo conta mais que a performance (e com mais razão nessa época de autores midiáticos, que mais chamam atenção pelo seu perfil que pelo “produto da musa”); se o leitor cede a tal esnobismo, certamente estará se privando de uma verve vigorosa, de uma condução lírica segura e, sobretudo, de uma maestria no manejo da forma cujo fruto mais evidente é a fluência que caracteriza os versos. Tal fruto só é alcançado quando o poeta leva a termo uma complexa equação envolvendo elementos tais como a experiência técnica ampla e um constante manuseio do seu instrumento de trabalho: “Um poema que desaparecesse à medida que fosse nascendo, e que dele nada então restasse senão o silêncio de estar não sendo. Que nele apenas ecoasse o som do vazio mais pleno. E depois que tudo matasse morresse do próprio veneno” A resultante dessa equação é uma fluência natural que não comporta versos truncados, ainda que sob a “tirania da rima” de que nos fala Proust; o poema provoca então no leitor, mesmo o circunstancial, uma agradável sensação de naturalidade, como se tudo ocorresse como deveria, como se o poema fosse preexistente, existindo desde sempre, cabendo ao poeta apenas registrá-lo no papel. Ótimo exemplo é o singelo e perfeito “O galo gago”: “Foi tanta zoeira que a Noite tapou o ouvido: ‘Quero dormir sem demora, desse jeito eu não consigo. Para que possa chegar o Sol, e o escuro ir para o ralo, não adianta galinha nem bem-te-vi, eu preciso da voz de um galo’. Disse uma antiga coruja dirigindo-se a todo o bando: ‘Ou ele começa a cantar ou acaba em fogo brando. Parece que um bom susto Termina com a gagueira. Quando ele encarar a panela vai cantar a vida inteira’. ‘Não estou de acordo’, protestou o bicho da goiaba. ‘Se ele canta o dia todo, aí é o dia que não acaba! E pra que assustar o galo? Vamos chamá-lo mais tarde. Quem sabe com nosso aplauso ele vira um cantor de verdade?’ (...) Tal fluência, que coordena a expressão e o conteúdo, só é encontrada em tal configuração nos grandes da literatura. É notório que essa característica se incorpore igualmente numa forma mais livre, como no exemplo acima, e em outra mais tradicional, como o soneto: “Há trinta anos eu intento em vão compor o que será uma obra-prima. Exausta do exercício, minha mão não avança e tampouco sai de cima” A esse respeito, cabe observar que Secchin é cultor de variadas formas, ora versificando numa métrica regular, ora num verso livre que, contudo, resguarda seu gosto pela expressão concentrada e lacônica; por vezes, ecos distantes de grandes influências ressoam em tais versos, como nos dísticos que se seguem, que em compositura nos lembram aspectos da construção cabralina: “Finalmente comprará sua mansão. Será engolida pela fome de um tufão. Viverá uma intensa fantasia, desfeita a meia hora do meio-dia. Encontrará o amor de sua vida: inerte, num esquife de partida (...)” Mas Secchin projeta sempre com segurança sua voz; é a serenidade de quem contempla o caminho já trilhado e, sem escrúpulos inférteis, reconhece ser herdeiro de nossa vasta tradição poética: “Disseram que voltei muito mecanizado, com ritmo concreto, muita rima rica, que não tolero nada que não seja aquilo que seja exatamente o que o Bilac dita. Disseram que com a forma estou bem preocupado, e corre por aí, com a maior certeza, que muito pouco vale tanta velharia de alguém que ainda pensa em produzir beleza (..)” A respeito dessa voz autoral vale frisar, além das características já apontadas, outras mais que lhe dizem respeito e que a formatação do livro ressaltam de forma curiosa: Desdizer reúne, como já dito, diferentes obras da trajetória do poeta, mas o faz não de forma cronológica ascendente - como é de praxe – mas sim descendente: vai-se do livro mais recente ao mais remoto (embora alguns coincidam eventualmente no período de composição). Configurada como está, a obra de certa forma desarma o leitor da leitura que se orienta pela linearidade evolutiva; contempla-se os diferentes rumos poéticos de Secchin num plano que tange mais à simultaneidade que à sucessividade. Mas retomando o tópico das características mencionadas, observa-se nos livros mais recentes uma tendência mais cerebral na construção poética, um intenção mais predominantemente comunicativa que, nos livros mais remotos, é substituída por uma entrega ao signo poético e a sua “dança” no verso (isto é, a metáfora e também, por vezes, a metáfora da metáfora), sem que a ênfase recaia sobre aquela preocupação/intenção acima mencionada. “Gume da gaiola, ave do visível, o ar dispara a retórica do vento. Ensina o excessivo à vogal da ventania. Enxágua o suor dos muros nos varais do meio-dia” Limitando o enfoque apenas no tópico verso já se tem pauta para um vasto horizonte de recursos que engloba ousadas alternâncias de métrica em formatos consagrados; rimas igualmente ousadas, tonais ou não, com um quê de ironia; assonâncias e aliterações calculadas; paralelismos expressivos nas estrofes, entre outros. Mas sua produção não é circunscrita ao trabalho poético: além do depoimento em prosa presente no final do livro (espécie de suma analítica de sua trajetória), o volume engloba aforismos de uma riqueza fascinante, a contemplar o fazer literário e seus revezes: “11. Há poetas quase afônicos; de tanto espremerem para expressar alguma coisa, acabam exprimindo coisa alguma” Mas também a existência e seus enigmas: “16. Como quase diz o ditado, promessas são dúvidas” Conteúdo Uma análise livro a livro dos que compõem o volume foge ao propósito deste texto, pois que não lograria esgotar a diversidade temática do poeta. Todavia, observa-se obsessões temáticas que volta e meia aparecem, sempre com uma perspectiva renovada. A poesia de Secchin escrutina a existência através do intimismo do indivíduo. Sua relação com a realidade é o tonal dominante, o que vem a ser o oposto da poesia social (embora este elemento não seja obliterado dos poemas, mas alcançado por uma via alternativa). Nessa poesia, eventualmente o tempo, em sua materialidade e na percepção que o indivíduo tem dele, se faz presente: “Desmoronam promessas e misérias pedaços da palavra e da memória (...) Do muito que sonhamos talvez sobre o sopro de uma aurora que nos leva além da nossa dor, mas não descobre a flor que pulsa e arde em torno à treva” Eis aqui o acerto de contas que cada um de nós há de fazer com o vivido. Ao fim e ao cabo, haveremos de ser sempre ruínas do que fôramos? Temos aqui uma abordagem simples e universal, mas em outros acordes o mesmo tema - o tempo – ganha modulações mais requintadas: “Desmoronam promessas e misérias, pedaços da palavra e da memória, e o sol da força bruta da matéria escorre para o ralo como escória. Os ratos banqueteiam toda a história, e avançam contra os cacos do presente, seus dentes decompondo em pó a glória de um futuro podado na semente (...) O tempo enquanto simultaneidade estarrece o indivíduo; sua percepção incomum aqui só nos deixa concluir que o tempo e seu enigma são inapreensíveis em sua totalidade, e no fim, não resta “ninguém para habitá-lo”. O tempo é essa impermanência, assim as expectativas após os anos hão de ser frustradas (o poema “Feliz ano novo”) e, aprendida a lição, por que os homens não haveriam de banalizar o “transe final” (o poema “Disk-morte”)? A “indesejada das gentes” também marca sua presença nesses poemas de um humor negro tão singular. Mas o próprio fazer poético, o poeta e o que gira em torno de ambos (a “tertúlia” crítica e seus “sestros”) são o tema mais constante da obra. Com um olhar sobretudo mordaz, e igualmente analítico, Secchin devassa os labirintos do fenômeno poético, debochando dos “entendidos” (“Poema promíscuo”, “Colóquio”), da “solenidade” superficial (“Soneto profundo”, “Quase soneto aposentado”), relendo os clássicos de maneira criativa e reverente, mas também crítica (“É ele!”, “Cisne”, “Noite na taverna”, “Trio”, “A João Cabral”, “A Fernando Pessoa”) e, por fim, refletindo sobre a própria poesia e suas veredas (“Cinco”, “Um poeta”, “Arte”, “Biografia”). É também nesse tópico que Secchin revela toda sua tenacidade de escritor/crítico literário, longe de didatismos ou da “poesia de crítico”; como um andarilho de longa data simplesmente, vai recompondo os trechos por onde passou, abarcando-os todos em si, serenamente, mas recusando o papel do velho sábio que findou sua jornada: “Ressoa na minha gaveta um comício de versos reles. Em coro parecem dizer: Não somos Cecília Meireles. O desavisado leitor não espere muito de mim. O máximo, que mal consigo, é chegar a Antonio Secchin” Humildemente sabe que a poesia, esse horizonte infindo, costuma castigar os pretenciosos, e que mais ganha quem sabe não existir Perseu que dome o Pégaso selvagem. Se a voz do poeta assim consciente não é nem jamais será o canto absoluto a enfeitiçar feras ou vegetações e pedras, nem conduz almas perdidas de volta à luz, é ainda sim um canto embelezado por quem, cônscio de sua pequenez, dela fez o impulso de uma busca incessante que, paradoxalmente, leva à maestria: “Sei apenas que escrever nunca me apontou saída. Mas ainda assim é nisso que apostei a minha vida”

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    Antonio Carlos Secchin

    Sétimo ocupante da Cadeira nº 19, eleito em 3 de junho de 2004, na sucessão de Marcos Almir Madeira e recebido em 6 de agosto de 2004 pelo acadêmico Ivan Junqueira. Antonio Carlos Secchin nasceu no Rio de Janeiro em 10 de junho de 1952. Filho de Sives Secchin e de Victoria Regia Fuzeira Secchin. Até os seis anos morou em Cachoeiro de Itapemirim. Desde 1959 reside no Rio de Janeiro. Formação e experiência profissional É Doutor em Letras pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (1982). Professor de Literatura Brasileira das Universidades de Bordeaux, (1975-1979), Roma (1985), Rennes (1991), Mérida (1999) Paris III-Sorbonne Nouvelle (2009) e da Faculdade de Letras da UFRJ, onde foi aprovado (1993), por unanimidade, com nota máxima, em concurso público para professor titular. Na carreira docente, foi diversas vezes eleito paraninfo e patrono dos formandos. Orientou 26 dissertações de mestrado e 18 teses de doutorado. Ministrou 50 cursos de pós-graduação, no país e no exterior. Em 2013, tornou-se professor emérito da UFRJ. Conferências, palestras, mesas-redondas e comunicações Proferiu 461 palestras, em sua maioria versando sobre temas de literatura e cultura brasileira, no Brasil e nos seguintes países: Argentina, Cuba, Espanha, Estados Unidos, França, Israel, Itália, México, Portugal e Venezuela. Editorias e conselhos científicos e editoriais Membro de 46 editorias ou conselhos, no Brasil e no exterior, sobretudo de periódicos de investigação literária. Prêmios literários Total de 16 prêmios nacionais, destacando-se: 1.o lugar, categoria “ensaio”, do Instituto Nacional do Livro (1983); Prêmio Sílvio Romero, da Academia Brasileira de Letras, 1985, ambos para João Cabral: a Poesia do Menos; Prêmio Alphonsus de Guimaraens, da Fundação Biblioteca Nacional (2002); Prêmio de Poesia da Academia Brasileira de Letras (2003); Prêmio Nacional do PEN Clube do Brasil (2003), atribuídos a Todos os Ventos como melhor livro de poesia. Distinções – Membro Titular de PEN Clube do Brasil(1995); – Medalha Cruz e Sousa, do Governo de Santa Catarina (1998); – Medalha João Ribeiro, da União Brasileira de Escritores (1999); – Medalha Carlos Drummond de Andrade, da União Brasileira de Escritores (2002); – Membro Honorário da Academia Cachoeirense de Letras, Cachoeiro de Itapemirim (2004); – Medalha do Mérito da Imprensa de Pernambuco, da Associação da Imprensa de Pernambuco (2005). – Benemérito do Real Gabinete Português de Leitura, Rio de Janeiro (2008). – Medalha Jorge Amado, no Jubileu de Ouro da União Brasileira de Escritores-RJ (2008). – Membro Correspondente da Academia de Letras da Bahia (2009) – Diploma de Mérito Cultural da Academia Brasileira de Filologia (2011) – Membro efetivo da Academia Carioca de Letras (2011) – Medalha de Oficial da Ordem de Rio Branco, outorgada pelo Ministério das Relações – Exteriores (2011) – Troféu Integração, Centro de Integração Empresa-Escola (CIEE), São Paulo, 2014 – Sócio Correspondente da Academia de Ciências de Lisboa, 2017

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    Antonio Carlos Secchin