Há grandes gênios no século XX e Mircea Eliade é um deles. O Sagrado e o Profano é sua obra mais acessível, escrita para o grande público, mas que não deixa de ser profunda, pois ainda assim é muito utilizada pelos acadêmicos. Essa obra é importante para o geógrafo, pois Eliade mostra que há um espaço sagrado, que difere de tudo o que está ao seu redor, pois a religião é diferente da ciência positiva que não vê diferenças entre diferentes espaços geométricos, sendo todos em essência neutros. A religião nos mostra espaços qualitativamente diferentes uns dos outro, e o que define essa qualidade é a dicotomia sagrado e profano. O sagrado é central e o profano periférico, o sagrado é fixo e o profano móvel, o sagrado é cosmos e o profano é o caos. Assim o geógrafo pode olhar para a solidez da terra em oposição à amorfa água, que remete às águas primordiais, quando a terra era sem forma e vazia. O sagrado é o centro do mundo do homem religioso, que podemos ver em diversas tradições, como o “umbigo do mundo” na Grécia antiga, o Lingam shivaísta, a Jerusalém de judeus e cristãos e Meca dos muçulmanos. É a partir deste ponto central que todo o entorno se manifesta, se expande, vem à existência. Mas pode haver vários centros, pois este centro em última instância não é geométrico, mas existencial. A Jerusalém pode te acompanhar, e é assim que os judeus fazem com suas sagradas escrituras, que são para eles o templo de Jerusalém, um templo móvel.
Essa obra é importante para os historiadores, pois há também o tempo sagrado. É um tempo diferente do linear, pois é um tempo que pode regressar a outras épocas e se reatualizar. O tempo da criação é um dos mais importantes e sempre o repetimos através das festas, seja através das festas religiosas, como a do nascimento de Cristo ou a revelação para Maomé, seja através das festas mundanas, como o Ano Novo. Já o tempo profano é o mundano, do cotidiano, o tempo destruidor e não renovador. A transição entre o tempo profano e o tempo sagrado marca um fim, o fim dos tempos, o fim do mundo, então todo tipo de peripécia, caos, confusão social, troca de papéis, orgias e festas profanas ocorrem, para após isso haver um novo nascimento, novos céu e terra. Esse templo cíclico tem a origem em um mito, que não é uma ficção, mas uma história sagrada. Mas o judaísmo traz algo diferente, o tempo é concebido como histórico e irreversível, revelando-se nas intervenções pessoais de Jeová na história. Hegel aplica essa ideologia ao conceito de História universal, onde os eventos históricos são manifestações contínuas do Espírito universal. Aqui começa o fim da história.
Eliade é realmente essencial para os dias atuais e até futuros, mas isso não quer dizer que é infalível, pois ao mostrar diferentes estruturas comuns às diferentes religiões, como por exemplo, o céu como pai e terra como mãe, ele não fala das intrigantes exceções que existem, como no caso egípcio onde o céu é uma mulher e a terra um homem, o no caso do Sol no Japão ser uma deusa, o que difere da maioria das tradições onde o Sol é representado por um deus masculino. Outro ponto é a profunda dicotomia entre sagrado em profano, tendo uma fronteira muito resistente, porém é mais plausível ver que a mudança entre uma categoria e a outra categoria ser mais gradativo, com nuances e fronteira não muito bem definidas, como um degradê. Assim pode haver pontos relativos, como o meio termo entre o absoluto sagrado ideal e o absoluto profano, que não aparecem absolutamente no mundo, e este meio termo ser sagrado em relação ao que é mais profano que ele e ser profano perto do que á mais sagrado. O pátio do templo é profano em relação ao centro do templo, o Santo dos Santos, mas é sagrado em relação à parte externa fora dos muros. Mas mesmo assim Eliade continua sendo o gênio da religião, e mesmo não sendo perfeito, para se chegar à perfeição é preciso passar por ele.
Apesar das mudanças que a modernidade traz, dessacralizando a existência, mesmo assim a estrutura religiosa permanece até mesmo nas pessoas irreligiosas. Até nas ciências podemos ver seus ritos e iniciações. Ritualizar a vida poderia trazer novos afetos ao cotidiano, resguardando o homem do desencanto e a falta de sentido ao buscar na religião múltiplos e infinitos significados significantes.