Na maioria das vezes é notável quando um livro é a primeira obra de ficção de um autor. Parece haver uma lista com requisitos que eles querem cumprir, o que facilita até a conclusão da historia, mas detecta-se falta de emoção e um toque pessoal que dá originalidade em tudo. Consigo notar com mais clareza no nicho Jovem Adulto de Fantasia.
Aqui não foi diferente. Não é uma crítica, já que, no final das contas, funcionou.
Tinha expectativas baixas quanto o livro e elas foram quase a zero após ler algumas resenhas no GoodReads. Ele não é um livro muito querido por lá; é o que se espera de uma fantasia jovem adulta, sem surpresas. O diferencial, sem dúvidas, é abordar o folclore japonês.
Uma das críticas no GoodReads é quanto ao ritmo do livro. Muito lento, exceto nas páginas finais quando tudo se desenrola muito rapidamente.
Não tenho problema com livros lentos - tenho quando ele é mal executado. Em outras palavras: discordo das críticas; não achei o ritmo devagar nem abrupto do meio pro final. Achei estável do começo ao fim.
Verdade que mal não faria se Emiko Jean tivesse trabalhado algumas cenas melhor, para serem mais longas e melhor detalhadas. Porém do jeito que ficou está bom para mim também.
Eu não esperei grande dimensionalidade dos personagens, mas fui surpreendida com o resultado final.
Mari é meio humana, meio yokai. Do tipo Animal Wife (bestas que mudam de forma para mulheres belíssimas com o objetivo de enganar homens, fazê-los se casarem com ela. Após engravidarem - torcendo para ser uma menina -, elas os roubam e os abandonam na calada da noite. Retornam à comunidade de Animal Wifes para darem à luz.).
Só que ela não é bonita para o padrão das Animal Wives, então sua mãe a treina para ser uma guerreira a fim de ela participe da competição que elege a esposa do imperador. Só assim ela seguirá a natureza yokai a que pertence.
De cara achei que Mari preencheria a vaga das protagonistas de YA de fantasia que são descritas como "simples", "sem graça" e suas variações, mas conforme a historia avança, vários personagens masculinos caem de amores por ela sem o leitor saber o motivo. Além da falta de beleza, ela não tem uma personalidade que a destaque. Ser descrita como uma excelente lutadora não serviu para me tranquilizar porque é o estereótipo mais comum encontrado nos livros do gênero. Esperei que ela realmente tivesse qualidade, mas que começasse a me irritar quando seu interesse amoroso surgisse e ela perdesse sua garra, mudasse de objetivo e virasse uma personagem boa apaixonadinha e chorona. Já aconteceu antes.
Taro é o filho do imperador e 100% humano. Lamentei que Emiko Jean optasse por primeiro narrar a solidão dele por viver num palácio (cercado de luxo, poder e servos, diga-se de passagem) com diversas obrigações que sua posição demanda e sem um pai amoroso antes de nos fornecer a personalidade dele para o leitor criar empatia.
Quando foi dito o quanto a competição que comeria em dias o irritava porque ele não queria ser visto como um pedaço de carne a ser disputado, eu quase desisti do personagem.
É muito triste, mas não consigo sentir pena de soberano nenhum, na vida real ou na ficção. Eles vivem numa gaiola de ouro imaginária, mas ainda desfrutam de uma boa vida. Diferentes de muita gente. E neste livro havia realmente criaturas perecendo por causa do imperador, então...
De novo, tive a sensação de que ele ocuparia a vaga do personagem masculino principal típico do jovem adulto de fantasia e não estava com paciência pra isso.
Akira é outro meio yokai, meio humano, pária entre seus semelhantes que tem muitos problemas psicológicos a trabalhar. Muito amigo e dependente do afeto de Mari e eu suspeitei que ele seria Aquele Personagem: o mala que jura que foi posto na friendzone quando Mari não correspondesse sua paixão secreta. Guardaria rancor até perceber que a amiga não tem obrigação nenhuma de amá-lo de volta.
Achei que Mari, Taro e Akira formariam um triângulo amoroso com Hanako chegando no final para ser prêmio de consolação de Akira.
Hanako também é yokai. Seu apelido é Mestre das Armas - nome autoexplicativo -. Ela é espirituosa, um contraste à sobriedade e foco de Mari; segura de si; contrastando o sentimento de inferioridade de Akira. Lidera uma revolução contra o imperador, pois ele transformou os yokai em escravos.
Felizmente me enganei completamente quanto aos personagens. Nenhum deles se encaixa no padrão de personagens de jovem adulto de fantasia. Emiko Jean conseguiu contornar muito bem isso. Há outros personagens-chaves na história que até flertam com o o que já vimos, mas sempre pegam um caminho diferente.
O que não dá pra defender é o instalove. O romance não atrapalhou a trama e desdobramentos da história, mas estava deslocado. Mais por ter surgido à primeira vista do que pela falta de química entre os envolvidos. E era bonitinho, shippável até, mas não fazia sentido.
De resto, eu achei o livro muito agradável, simplesmente não conseguia parar de ler. Se deixava o ebook de lado é porque era vencida pelo cansaço.
Eu queria que Emiko tivesse demorado mais ao mostras as fases dos torneios. Na sinopse parecia o pedaço mais importante da história, mas na prática acabou nem sendo tanto assim.
Apesar do que comentei sobre Taro, Mari, Akira e Hanako, eu gostei de todos os personagens - todos, até do mais irrelevante -. Eles me surpreenderam. A história inteira me surpreendeu. A escrita madura da Emiko e o esforço para fugir do óbvio valeram a pena. O livro tem uns deslizes aqui e ali, mas é o primeiro livro dela, então eu relevo. Deus sabe que já encontrei coisa muito pior.