Biard e um olhar satírico para o Brasil
O livro de Ana Lúcia Araújo analisa um pintor pouco visitado pela historiografia brasileira: François-Auguste Biard. O pintor esteve no Brasil na segunda metade do século XIX e produziu o relato ilustrado de viagem chamado “Deux années au Brésil”. Adotando um tom satírico, o relato acompanha a trajetória de Biard por dois anos no país, com enfoque nas províncias do Espírito Santo e no Amazonas. O principal objetivo do pintor era conhecer os chamados “índios selvagens”. A principal tese do livro gira em torno do que Araújo denomina como “romantismo tropical”, cuja as origens remontam aos primeiros viajantes e cronistas europeus que vieram ao Brasil no século XVI, perpassando por Debret e Rugendas no século XIX, e tem em Biard uma releitura, na qual o autor é ao mesmo tempo protagonista da ação. A contraposição entre selvagens e civilizados, representados de um lado pela população mestiça brasileira e de outro por padrões europeus, é um dos principais focos do debate, que ganharia mais contornos no final do século XIX. Recomendo a obra para todos historiadores, que assim como eu, não conheciam a obra de Biard, bem como ao público de uma maneira geral. Ana Lúcia Araújo é a prova de que uma escrita mais acadêmica também pode ser acessível aos mais diferentes públicos. É uma leitura muito aprazível.
