Uma menção à edição do livro se faz importante.
Essa primeira edição da ViaVerita de: “Para ler Sloterdijk”, tem páginas impressas com alinhamento irregular e muitos erros de impressão/revisão. Os erros gráficos com palavras faltando partes, acentos e afins... chamam bastante a atenção. Embora estes não impeçam a leitura, nem prejudiquem a compreensão, eles podem irritar ou desconcentrar o leitor que “se nota” pensando, - o que houve com a revisão deste livro.
No preâmbulo é anunciada a posição que o autor assumirá para abordar Sloterdijk, sem classificá-lo em alguma corrente estabelecida, ou definir os conceitos fundamentais de sua obra - a proposta será contextualizar sua produção. Chamar para uma conversa com Sloterdijk vários autores que possam ser úteis para compor as perspectivas de compreensão.
A primeira entrada que Ghiraldelli faz é trazer Derrida a cena, aproximando a leitura que este faz de Platão no livro Khora em passagens como: {“Toda a narrativa sobre a subjetividade [...] é levada adiante por Sloterdijk de um modo que só o leitor que entende Platão, da maneira que Derrida alude [...] pode sentir-se à vontade”}
Heidegger é a segunda entrada do autor para comentar a respeito do texto de Sloterdijk regras para o Parque humano, onde aborda o conceito de Clareira(Lichtung) e a crítica ao humanismo.
Aqueles que sobreviverem ao preâmbulo e a introdução que, essencialmente, fazem menções esparsas, fugidias, de difícil apreensão, trazendo poucas especificidades, notarão que isso muda nos capítulos seguintes.
A parte 1, Arqueologia da intimidade introduz a principal obra de Sloterdijk. Quando Ghiraldelli traz Esferas para conversa, o texto ganha substância, as discussões sobre a subjetividade esferológica concentram os principais pontos da obra do filósofo, poucas páginas introduzem noções importantes como “Não Objetos” de Thomas Macho sustentáculos para noções sloterdijkianas dos gêmeos e das ressonâncias que toma o feto como origem na formação da subjetividade, que é sempre e ao mínimo dual.
Nos capítulos seguintes são apresentadas as noções de antropotécnicas (insulação, neotenia, exclusão temporal e transferência) e as condições de elaboração. O segundo capítulo, em especial, é importante para compreender como Sloterdijk compreende a relação mãe-bêbe tão cara a psicanálise freudiana. Há um capítulo muito interessante em que Ghiraldelli articula visões de diferentes autores (Kafka, Adorno e W. Benjamin) a respeito da experiência de Ulisses diante das Sereias, para pensar a “psicoacústica”. Capítulos à frente, ainda na obra esferas, as antropotécnicas darão lugar as egotécnicas e o autor apresentará as relações que Sloterdijk faz com as noções de apartamento e estádio para sustentar as metáforas de existências em esferas convivendo como espumas.
Ghirraldelli além de discutir o livro Esferas; aborda, apresenta e correlaciona outras obras de Sloterdijk: O Sol e a Morte - Regras para o Parque Humano - Sin Salvación - A Mobilização Infinita - Morte aparente no Pensamento - O palácio de Cristal - As Loucuras de Deus - Temperamentos filosóficos - O Quinto evangelho de Nietzsche - Ira e tempo - Estrañamento del mundo
O autor percorre uma série de referências para pensar a obra de Sloterdijk, é uma autêntica conversa com: Nietzsche, Cioran, Hegel, Heidegger, Durkheim, Agamben, Hannah Arendt, Deleuze, Guattari, Foucault, Debord e até, quem diria... Zizek (dentre outros)
Há neste livro também, muito do próprio Ghiraldelli, que tem um estilo narrativo envolvente, uma espécie de prosa/conversa ghiraldelliana. Não há um distanciamento técnico, Ghirraldelli fala de Sloterdijk ao falar de si-mesmo.
Ao finalizar a leitura fica a sensação de que a obra de Sloterdijk se baseia em uma premissa fundamental: Nunca estivemos Sozinhos!