Com essa obra, o professor Pierre Aubenque (falecido no último fevereiro) apresenta uma contribuição inestimável ao estudo da ética em Aristóteles. Partindo da noção de "prudência", o autor recorre ao significado popular da palavra, ressaltando que o Estagirita, em suas obras, muito comumente se utilizava desse sentido, em oposição, por exemplo, ao que era conferido por Platão. Aliás, o professor Aubenque demonstra grande desembaraço no manejo da língua grega, sem demonstrar qualquer pedantismo ou ser cansativo para o leitor.
A prudência é distinta da sabedoria, posto que esta última se relaciona a um âmbito mais desvinculado do âmbito sensível, mais próximo ao conhecimento do que seria próprio dos deuses. A prudência, por seu turno, diz respeito às coisas deste mundo sublunar, no qual o homem se vê confrontado com o acaso e tem que agir nessas circunstâncias. Tanto uma como outra são constituintes do homem. Há, nesse ponto, uma ligação indissociável com a própria metafísica de Aristóteles, que o professor Aubenque desenvolve com maestria - e, até, com um toque que beira o poético: a existência do homem, marcada pelo acaso e pelo "kairós" (o tempo oportuno) em que tem que agir dá azo a reflexões bastante pertinentes até os dias atuais. Sim, Aristóteles reveste-se de espantosa atualidade sob a lente do nosso autor.
No seu itinerário, o professor contrapõe sobretudo o pensamento aristotélico e a noção de prudência a Platão e ao estoicismo. E a obra conta ainda com três anexos que enriquecem o texto principal - um sobre a amizade em Aristóteles; outro sobre estoicismo e um último, mais longo, sobre Kant. Os três têm dimensões desiguais, mas são equivalentes na qualidade do esclarecimento a que se propõem.
É um livro para quem já possui uma leitura, ao menos, da "Ética a Nicômaco". Mas não seria inacessível a um leigo. Para ambos, leitores experimentados ou não na obra do Estagirita, a obra do professor Pierre Aubenque é preciosa.