Por Baixo da Pele Fria -

    Caê Guimarães

    Cousa
    2017
    122 páginas
    4h 4m
    ISBN-13: 9788595780347
    Português Brasileiro

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    Renan Peres21/06/2020Resenhou um livro
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    Desde o início, o verso "Somente aos olhos é permitido tocar a distância" anuncia a visão do poeta de um mundo que se desfaz enquanto apenas os elementos perenes do corpo e da vida permanecem. O virar das páginas nos apresenta a um universo de corpos em constante desintegração, enfatizando, sempre, elementos que, como a língua epigrafada de Ferlinghetti, transcendem: "É a louca anatomia, / que me faz ser todo coração". Em "Passo sem pegadas", ?Pedaço de gente? e ?Estava em um lugar e não estava [...] Perdia a cara no espelho?, por exemplo, a desintegração física é confirmada. Mas não só: a antítese "tudo dia, [...] se apaga" acrescenta à leitura uma ideia de desconstrução da ideia rotineira de tempo (confirma-se: "Desvio as horas da imposição dos ponteiros"; "Tempo passando incomum"; ?A eternidade pode-se presumir em um segundo?; ?Pode ser que o tempo caiba na palma da mão?; ?Quero congelar o tempo com as mãos?), como se fosse manipulável, indeterminável, e nos deixa a sensação de que há uma completa escuridão enquanto a vida comum se desfaz: ?A mesma luz fraca de tudo dia, / amém, também se apaga. / Noturno travado?.  Incrementando essa nova visão, algumas ressignificações, geralmente contraditórias, consolidam a hipótese: "calor gelado", "sangue esbranquiçado", "o sul é feito de nortes" ? que, possivelmente, desestrutura as noções eurocêntricas de direção, e firmam, enfim, a afirmação "Fundarei um continente". Esse novo continente, destituído de poder, "[...] sem reis, consortes ou bufões", permite aos seus sujeitos caminharem "sobre suas próprias botas". É, portanto, uma espécie de revolução que, embora subjetiva, apresenta-se potente, porque movente e transformadora; desestrutura o convencional e o descontrói. Em "Uma nova Inconfidência se configura", pode-se compreender, na ótica de um dos pontos de vista possíveis, a percepção do eu-lírico como divindade criadora que, a despeito da destronização de um rei guiado pelas noções (desconstruídas) eurocentristas, por assim dizer, reorganiza as estruturas do corpo, da mente, da compreensão, do universo e do poder, como em "o homem e o lugar não se cabiam", onde a palavra, mais que atitude, não representa pacto com o silêncio recostado no muro. Por fim, a presença de um elemento, o coração, acrescenta à coletânea, em tom de dicotomia, a presença da vida em detrimento da possibilidade da morte ante a desintegração física do corpo-mundo. O coração aparece associado ao olhar perene no verso "Os olhos da cara veem o coração?", e também como elemento representativo da noção primeira de vida, como em "Desligue o coração após usar". Vida e morte, dicotômicas nesta ótica, possibilitam a reflexão paradoxal de que "Estar vivo é refletir no espelho" (incremento este verso com outros dois: "Vamos nos conhecer pelo avesso. / O fim, conforme se sabe, no começo." E completo:) " Estar vivo é refletir no espelho. / E ter a morte encalacrada entre as mandíbulas". Isso, como, talvez, na preocupação de uma vida cíclica em que a morte, qual presa caçada por essas palavras de sangue e suor às quais ninguém escapa, a palavra de poeta ?que vê a vida com os olhos da boca? ? um corpo desconstruído, despido das convenções de direcionamento. A morte e a vida, desintegradas, o medo que delas provêm, tudo isso "é um recomeço de mim que despedaço" e muitas outras coisas mais, o desejo de que toda invenção dê certo e, por consequência, uma visão inteira acerca de uma geração que se liquefaz regue a reconstrução da vida, transformada e sustentada na ?[...] resistência / que desmedimos para seguir em frente?.

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