“A perpetuação da espécie” parece significar padronização, frivolidade, animalidade, e do contrário pouca utopia, otimismo, no entanto, as questões trazidas por questionamentos que se originam do mais âmago das incertezas humanas, trazem profunda reflexão. Na abertura da obra o autor traz uma proposta, um desafio para o leitor de que ele concentre o seu olhar em questões que atualmente são desprezadas devido a se sombrearem no automatismo do cotidiano. Se o pensar for intenso, a observação das manias e padronizações de estilos de vida serão associadas a uma dor primeira e universal, o viver sofrido, pungido, desperdiçado em estilos de existência condenados a vontade de sobrevivência. Esse marasmo do viver tem algo de assassino, pois em sua maioria é experimentado pelas pessoas distanciadamente, sem emoção, sem o aproveitamento dos prazeres e da felicidade, neste sentido a própria vida se torna somente um acaso mantido pelo instinto da espécie. O autor enquadra a vida no filme fotográfico de “uma câmera mortuária”, o filme das fotografias revela o movimento da existência monótona, tumultuada nas trilhas de trens que conduzem “humanos fugidos de guerras Persas”. Feito atavismos, a perpetuação da espécie é uma lei, uma conduta seguida por gerações que transmitem os mesmos valores de: brevidade, de sequestro, de roubo, de fugacidade. Não há espaço e oportunidade para se olhar a vida nos seus fenômenos mais universais, “por que o sol nasce às seis?”. Não importa, seria até mesmo irônico querer filosofar e refletir quando as condutas dos homens revelam tanta frivolidade em relação a tudo o que os rondeia, casa, poltronas, esposa, família.
A Perpetuação da Espécie (1 #1) -
Fernando Andrade
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Pode a capa de um livro despertar nosso interesse de forma imediata? Pode, e como. Para aqueles que estão mais libertos de preocupações egocêntricas perante a vida, e tomados dessa perplexidade estonteante ante o atual comportamento humano, a capa de um livro que se chama “A perpetuação da espécie”, chama atenção imediata que se reforça ainda mais quando observamos uma imagem em rabiscos, difusa, de uma silhueta humana a caminhar e, logo após o título em letras garrafais, lemos os versos: “Sejamos breves, homens /Mas sejamos intensos, inteiros”. E se, antes de abrirmos um tal livro, nos pusermos a refletir um pouquinho que seja sobre “a perpetuação da espécie” humana, e “sermos intensos e inteiros”, somos inevitavelmente invadidos por uma tristeza, por um desalento, que provém de tudo e tanto que andamos vivendo. Damo-nos conta melancolicamente, e em questão de segundos, que se o século XX nos deu um desenvolvimento tecnológico espetacular, nunca visto sobre a face da Terra, por outro lado legou-nos terrível ressecamento de alma. Acabamos por fazer da ciência uma fábrica de comodidades e prostituímos o espírito humano numa aviltante alienação à matéria. Isto trouxe-nos terríveis consequências psicológicas aqui e agora no século XXI. O uso desregrado da razão induziu-nos à um novo tipo de cegueira. Estamos em momento que requer urgentemente novos horizontes. Nossa psicologia hoje não possui amanhã, procura ansiosa mas não o pode encontrar. Desejamos intensamente algo, confusamente, sem saber o que possa surgir, nem como e de onde. Desejamos por uma necessidade íntima, por um instinto imperioso, porque isto constitui uma lei da vida. Embora hoje, muitos e tantos e tantos, sequer se perguntem que diabo afinal é a Vida! O tal do homo sapiens chegou a descobrir que no mundo da matéria temos em primeiro lugar, os fenômenos físicos; a seguir vem a percepção sensória e, finalmente, através de nosso complexo nervoso, a convergência no sistema cerebral de nossa síntese psíquica: a consciência. Muito bem! Palmas para o macaco! Mas a nossa belíssima ciência ainda não possui um princípio que enraíze o fenômeno humano no universo natural, nem mesmo um método apto a apreender a extrema complexidade que o distinga de qualquer outro fenômeno conhecido. O arcabouço explicativo de nossa ciência ainda é o da física do século XIX, e sua ideologia implícita continua sendo a das religiões e um capenga humanismo ocidental: a débil natureza sobrenatural do homem que engloba todo tipo despautérios e patifarias. A coisa empaca aí, e tome-lhe desordem e violência e barbárie. Por outro lado, como sempre foi, (porque continuamos em certos aspectos na pré-história), a arte possui sensibilidade especial (intuitiva), que a faz captar por antecipação o que no nível político-social vai se seguir depois, e termina mesmo ficando com a parte maciça, a etérea e a onírica da realidade humana. A Arte assume o irracional, a parte maldita e a bendita também da condição humana, onde os artistas (e os poetas em particular), decantam suas essências que filtradas e destiladas, acabam por cristalizar em suas obras uma “outra ciência”, a que poderemos chamar de Ciência da Vida. Todas essas ‘maluqices’ me ocorreram ao deparar-me com o livro do senhor Fernando Andrade (com a capa já descrita), e que se chama “A perpetuação da espécie”- poesias. Fernando que é também crítico literário, dividiu seu volume de poesias em 5 partes (nascimento, infância, lembranças, imagens e gênero), e faz uma viagem poética tal e qual se afigura a vida humana, ou seja, não há uma visada estreita de causas e conseqüências diretas das experiências humanas. Há uma linha quebradiça nas visadas que ele empreende, justamente como, repetimos, é a vida. Ajuda uma tal percepção o excepcional projeto gráfico com ilustrações de Murilo Guerra. O autor consciente ou inconscientemente (quem saberá dizer?), segue aquela máxima de Carlos Drummond de Andrade que certa feita escreveu: “A experiência literária é uma coisa bem pobre, se não vai além de si mesma, ancorando numa verdade mais íntima do homem. No próprio homem afinal”. Vejamos como o autor, maneja sua poética diluída às vezes em ironia, às vezes em sarcasmo, quando pergunta-nos de modo oblíquo: Quem somos nós? O que fazemos de nossas vidas? Poema 2 \ caixa “Você já operou sua câmera hoje? / Já disparou o flash pela primeira vez? / Já se viu? Morto numa câmara mortuária. / Mas antes, escreva, era uma vez, você. Passou os dias coletando números, / Vendo trens levar humanos / Fugidos da guerra Persa. Mas antes, avise, vi o quadro de Velasques / Sendo olhado por algumas faixas etárias. Diga que este diafragma da máquina fotográfica / Deixou cair uma tâmara completamente madura / Que ao voar da árvore e ter caído / Em cima do crânio de Otelo, como uma maçã / Gravitacional que vinha fazendo a mesma pergunta Sou ou não sou a minha sombra? / Estou ou não dentro deste filme? / Qual? É minha quarta parede, e onde acho a saída?” Já no poema 6 \ Clepsidra, há o questionamento sobre o que é afinal o tal do livre arbítrio. “Minuto a Minuto / O tempo acomoda / Um personagem De hora em hora / Incorpora sua / Memória O meio é solto? / Numa retórica alta. O que vi são histórias / Ilusão? Clarividência. / Pergunto às moiras O livre arbítrio / É uma ampulheta cheia ou vazia?” Andrade não se divorcia do cotidiano, do real concreto, antes abre-se a ele num corpo a corpo, numa necessidade de transformar em poesia a matéria escura, compacta, às vezes sórdida do mundo e das relações humanas que estabelecemos:Poema 23, “Parte da louça / Virou vidraça. / Uma parte só aqueceu / A outra, quebrou silenciosa. / A que sobrou viciou-se em analgésicos. / A parte que partiu uma carta destinou-se, / A outra feriu-se na despedida. / Cacos, e silêncios se ouviram… / E por falar em solavancos físicos.” Aqui um parêntesis. O autor também aborda aspectos políticos, não sob aquela ótica de simplesmente constatar em nossa história brasílica, as fases de liberdade que têm sido curtas. Curtas à medida que as contradições se tornam agudas e a classe dominante é compelida à repressão (ela muda de máscara, embora seja a mesma de sempre), com valores morais e éticos sempre ralo abaixo. Não; ele é sutil, desvenda como as máscaras são forjadas e como a “galera”, embarca naquela do “É de comum acordo que a / palavra (justa) seja consenso / E que todos à portem com parcimônia”. Poema 29, “Trecho em ironia Pequena e diminuta Revolução / – Todas as suas ações são provisórias / Até serem reescritas ou revogadas. / Nada em tom indefinido será admitido. / A coincidência só será permitida / Perante o jugo da competência do juiz: / A ele cabe dizer quais? Latências / Podem ser usufruídas pelo lato senso. / Ninguém poderá pedir sincronias / Para estar ao lado de algum (a) amante. / É de comum acordo que a / palavra (justa) seja consenso / E que todos à portem com parcimônia.” O consenso, é ainda o de calar-se, é o silêncio, o mais absoluto silêncio ante a miséria e a violência que se pratica a torto e a direito. No mais é o hábito que vai se enraizando de torcer, distorcer e retorcer conforme interesses. Poema 31 “Confronte / O seu rosto / O seu rastro / Com a fronteira do tempo / Do corpo alvejado. Fale ou grite o êxito / Que o corpo agora morto / Jaz numa bancada fria / Do Instituto de medicina Legal. Diga que ontem, hoje e amanhã / Um extermínio de crianças jovens e estudantes / Espantam o noticiário / dos meios de comunicação. / Confronte sua aversão / Com a pauta e a versão / Dos ideólogos de plantão / Que falam na televisão / Torcer os fatos / Torcer os afetos Até virar / 123456789 Números - Arquivos.” Não podemos deixar de referir um poema, o de número 36 que é fenomenal, e dá margem a outras tantas considerações que julgamos pertinentes. Houve época em que a pensamento alimentava mitos e deuses. A patologia do pensamento moderno que vem do século XVII e já anda para lá de caduca está na hipersimplificação que não deixa ver a complexidade do real. A patologia da ideia está no idealismo, onde a ideia oculta a realidade que ela tem por missão traduzir e assumir como a única real. A doença da teoria está no doutrinarismo e no dogmatismo, que fecham a teoria nela mesma e a enrijecem. Perguntamos: qual é a ideia que a razão nos aponta como o cerne da questão no poema abaixo. O uso que fazemos da madeira ou a imposição da ideia do ódio que cega a tudo e a todos? Poema 36 “Quem odeia / Não sabe da madeira. / Ela é ao mesmo tempo / Polida nas mãos de um artesão / E um artefato numa lareira. / Quem não conhece a versatilidade da lenha? / Em noites muito frias, / Não se pode odiar uma madeira que muda. A ideia vem ao encontro.” Muito bem; a ideia vem ao encontro do quê? Ao encontro dessa razão que nos habituamos a cultivar e que nos tem levado à uma racionalização estreita e desastrosa? A racionalização corre o risco de sufocar a razão (e o tem feito largamente em nossos dias). Levemos em conta o que sobre a razão escreveram Horkheimer, Adorno e Marcuse. A razão não corre sobre trilhos (já o alertou tão bem Dostoievski), a razão pode se autodestruir, por processos internos de racionalização, e vira delírio lógico. O que nos parece essencial referir na obra do senhor Fernando Andrade é o triste espetáculo do homem de nossos dias ainda preso a atavismos (aqueles caracteres de ascendentes remotos e que permanecem latentes). A brevidade da vida vazia assumida por boa parte da humanidade. Não há espaço, nem brecha, nem fresta para viver e usufruir a vida em seus prazeres, suas alegrias, suas potencialidades de evolução. Quedamo-nos eternamente fugitivos de “guerras persas”. O fato é que precisamos deixar de lado, para os fins da vida prática a psicologia exterior e de superfície que é a razão, e voltarmo-nos para a psicologia interior, nas profundezas de nosso ser. Por quê? Porque em respostas aos materialistas de carteirinha, já não há mais solo firme, a matéria não é mais a realidade maciça elementar e simples à qual se podia reduzir a physis (princípio da evolução). O espaço e o tempo não são mais entidades absolutas e independentes. Não só não há mais uma base empírica simples, como também uma base lógica simples (noções claras e distintas, realidade não ambivalente, não contraditória, estritamente determinada) para constituir um substrato físico. O pensador Edgar Morin, classifica nossos tempos como a idade de ferro planetária, em que todas as culturas, todas as civilizações, estão a partir de agora em intercomunicação permanente. “Ela indica, ao mesmo tempo, que, apesar das intercomunicações, vive-se uma barbárie total nas relações entre raças, entre culturas, entre etnias, entre potências, entre nações, entre superpotências. Nós estamos na idade de ferro planetária e ninguém sabe se sairemos dela. Pré-história do espírito humano significa dizer que, no plano do pensamento consciente, estamos apenas no começo. Ainda estamos submissos a modas mutiladoras e disjuntivas de pensamento e ainda é muito difícil pensar de outro modo.” Finalmente, acrescentamos mais um aspecto dessa obra singular. O poema que inaugura o livro tem dois versos iniciais que são uma verdadeira exortação. Ou melhor, de uma terrível sugestão que nem ousamos cogitar ante o caduco cartesianismo a que infelizmente estamos presos. Ainda não nos demos conta de que vivemos para conquistar uma consciência sempre mais ampla. Veja-se como o autor fecha um ciclo de Vida. O belíssimo poema de número 1 – que tem o título de Prole traz dois versos fundamentais : Nascimento Poema 1 \ Prole: “E se seu pai e sua mãe / Fossem a dor do seu parto.” O último poema (sem receio de dar spoiler em obra alheia, porque há tantos aspectos abordados pelo autor nos poemas que nenhum spoiler estraga uma obra assim), fecha magistralmente um arco que é a própria vida. Ponham-se a refletir. Poema 37. “Retorno ao céu da boca. É terna a língua que me toca. / Fale de minha língua materna. Pois o pai põe na cisterna / a água que bebo. Ele descreve o deserto que há em nós. / Ele é o deserto e a lanterna procurando os lobos que / vivem sozinhos. Ele erra o caminho que leva a foz do / rio ao mar.” De qual perpetuação estamos a cogitar aqui? A perpetuação do desatino (barbárie), que nos levaria ao tal apocalipse? OU finalmente, ao acolhimento de verdades dentro do ciclo que pensou Arthur Schopenhauer: “Toda verdade passa por três estágios. No primeiro, ela é ridicularizada. No segundo, é rejeitada com violência. No terceiro, é aceita como evidente por si própria.” Este último é o estágio que tropegamente começamos a palmilhar... Livro: “A perpetuação da espécie” – Poesias de Fernando Andrade, Editora Penalux, Guaratinguetá – São Paulo, 2018, 68p. ISBN 978-85-5833-385-6 Link para compra e pronto envio: https://www.editorapenalux.com.br/loja/poesia/a-perpetuacao-da-especie
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