Definições há de sobra para o conto literário, definições que em sua maioria são irrelevantes. Fiquemos com a elementar: narrativa ficcional de reduzidos limites. E assim, encontramos “A face serena”, último livro da escritora Maria Valéria Rezende recentemente publicado pela Editora Penalux. Do alto de sua maturidade de vida e experiência literária, a autora reuniu 37 breves narrativas das mais variadas temáticas e múltiplas técnicas ficcionais, que se misturam e se enredam de forma a compor um ciclo narrativo completo, e a que podemos chamar simples e diretamente de a vida humana, reafirmando na obra aquilo que Jorge Luís Borges escreveu sobre o Conto literário: “El cuento, por su índole sucessiva, corresponde intimamente a nuestro ser que se desenvolve em el tiempo”.
Há textos que – pelas referências de ambientação que trazem -,nitidamente foram escritos em um tempo recuado, não relativos às memórias da infância ou juventude, mas aqueles que trazem certa configuração cênica dos anos 80/90. E imaginamos que para essa edição a autora muito provavelmente efetuou fusões, transfusões, acréscimos, cortes e sobreposições. Aproveitou frases ou ideias, mesmo que reduzidas a um filete de água. “Nuestro ser que se desenvolve em el tiempo”. Muito bom, o resultado “atualizado” é simplesmente admirável.
Positivamente Rezende segue o dito de Tchekhov, para quem “os quadros íntimos é que importam porque em suma revelam o aprendizado humano”. Suas ficções surgem umas vezes de um teor anedótico, embora com mensagem simbólica devidamente registrada como em “Uma pequena morte” e “A vingança”, outras vezes de teor espectral, como são “Salvação” e “Um fio negro”, ora intimistas e nutridos de silêncios cúmplices como acontece nos excepcionais “Eclipse” e “Educação”. Ora de narração objetiva como encontramos em “Requadrilha”, na verdade uma paródia bem humorada do poema (Quadrilha) de Carlos Drummond de Andrade ou impressionista como é “Chuva”, no qual a sertaneja Maria do Desterro após o enterro de seu filho recém nascido, é acometida de um estado de espírito de iluminação impressionista, ao refletir sobre vida x amor x morte e não casualmente é o conto que abre o volume. São textos em que surge ao leitor aquele insight existencial que verdadeiramente identifica o texto literário de qualidade, independente das classificações que queiramos moldar, sobretudo em um momento de contestação de gêneros, de desestruturação ficcional e morte das chamadas vanguardas como o que estamos vivendo.
Mas há também textos que poderíamos chamar – memorialísticos -, porque claramente forjados na experiência de vida da autora que consegue remanejar a memória onde o tempo deixou uma pátina responsável pela visão nova de um objeto, das pessoas, da situação ou do conflito básico. A esse propósito veja-se Cada noite”, “Ao fim do mundo” e “Naquele tempo...”. Já em “Valete de copas” e “Gato e ratos” encontramos a realidade tangenciada pela intuição interpretativa se transfigurando e se recriando sob forma de situação simbólica.
A autora também dá o seu testemunho ficcional sobre esse nosso viver hodierno onde vai propagando-se e difundindo-se através da reprodução infinita, o desconcerto, o desnorteio e o desvario do ser e das suas relações. Atuando como uma verdadeira intérprete de pequenos mundos de individualidades varridos por situações aflitivas, há espaço para a introspecção isolada de fatores externos condicionantes e a moldura do meio geográfico e do momento histórico. Um verdadeiro ficcionismo psicossocial. E é assim que encontramos o homem sombra, o homem néscio que é o Nonato de “Conto de Natal”. O homem que perde a capacidade de sonhar, levado pelas circunstâncias da vida sem a menor reação. Observe-se o individualismo, o “cada um por si”, que se estabelece em certas relações conjugais como lemos em “Clichê”. Reflita-se sobre a possibilidade de, num mundo como o nosso, de desconfiança e de ninguém sabe nem quer saber quem é quem, as ocorrências de serial killers estarem camuflados na pele de uma “inofensiva velhinha” que assassina suas vítimas com um martelo de bater bife como está em “A marca. Sinta-se o desvario que vai no “suicídio” de uma Daisy Margarida - dançarina (prostituta) da Boate Pirilampo, no conto “Laudo”, ou o desvario sem precedentes de uma Aurélia, do conto “Tudo pela beleza”, que termina sendo outra coisa diferente de um ser humano de tanta plástica e implante e malhação que impõe ao seu próprio corpo pela busca da tal “beleza”, meramente exterior. E finalmente o supra-sumo do absurdo – e que já vem sendo defendido por imbecis do mundo inteiro - que é o conto “O muro”, onde se forja um perigoso metabolismo psicológico e as personagens se desdobram e assumem caráter coletivo. Transcrevemos trechos:
“Hoje fecharão a última brecha do muro. Já não haverá mais passagem alguma, nem um buraco para espiar de um lado para outro, nem uma frincha sequer por onde possa minar algum fluído, já nada nem ninguém poderá entrar ou sair. Há que escolher agora de que lado permanecer. Quem ficar lá dentro será para sempre, dizem eles, para sempre. A altura do muro, cuja beirada chega ao mesmo nível que o topo do morro que ela cerca, foi calculada para que ninguém possa ultrapassá-lo, já que eles têm certeza de que nenhum dos que ali se encerram é capaz de voar”... “Este é o primeiro muro desse projeto. Os planos incluem mais de uma centena deles. Seria a solução, dizem, haverá paz no mundo atual”.
O escritor Machado de Assis é citado textualmente em dois contos de Rezende: “O perfeito bibliotecário” e no memorável “Da Lapa ao Cosme Velho”, onde a criatividade da autora atinge as raias de recriar a gênese do conto “A causa secreta” de Machado, contada por ele mesmo. Muito bem Machado escreveu in: “Notícia da atual literatura brasileira. Instinto de nacionalidade”, Publicado originalmente em O Novo Mundo de 24/03/1873: “O que se deve exigir do escritor antes de tudo, é certo sentimento íntimo, que o torne homem do seu tempo e do seu país, ainda quando trate de assuntos remotos no tempo e no espaço”. Com efeito, Maria Valéria Rezende vem se destacando – e não é de agora, nem de ontem, são décadas, que renderam à autora 3 Prêmios Jabutis e um Prêmio Casa de las Américas -, como uma das vozes mais significativas da literatura brasileira contemporânea. Assim como a personagem Benvinda do conto-título “A face serena”, Maria Valéria Rezende planta em seus contos sementes que estão a germinar, a pulsar nos misteriosos meandros das entrelinhas em ambiguidades, ambivalências e impressões fortalecidas na emoção muitas vezes dedilhada. Ela lança um olhar plácido e esperançoso “dirigido ao horizonte, a um ponto desconhecido do futuro”, onde, acrescentamos nós, afinal consigamos ser mais humanos.
Em tempo: para os que quiserem conhecer um pouco mais da exemplar trajetória de vida da autora, recomendo muito vivamente a leitura da entrevista de Maria Valéria Rezende ao Le Monde Diplomatique, vejam lá - não custa absolutamente nada ler - disponível em: https://diplomatique.org.br/o-vasto-mundo-de-maria-valeria-rezende/
Livro: “A face serena” - Contos, de Maria Valéria Rezende. Editora Penalux, Guaratinguetá – SP, 2018, 158p.
ISBN 978-85-5833-302-3
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