Passados seis meses desde que eu li esse livro, ainda é difícil falar sobre ele. Eu amei acompanhar a infância sofrida de David, sem mãe presente e com um pai cuja presença física talvez tenha sido pior do que uma ausência. Um menino solitário, que sonhava em ser escritor, cujos amigos eram os livros, e que se agarrara firmemente a uma edição de Grandes Esperanças, de Charles Dickens, sempre se refugiando na livraria Sempere. Eu amei o fato de que esse menino pidão virou um homem de 28 anos de idade, que, de repente, virou praticamente protagonista de novela rosa, que bem caracteriza a relação dele com Isabela, os divertidíssimos debates entre os dois, o ar de Pigmalião e Elisa. Eu amei a primeira fase de Pedro Vidal e odiei Cristina com todas as minhas forças, porque para mim ela nunca amou o David e se aproveitou da fraqueza dele para convencê-lo a reescrever o livro de seu antigo mecenas. Talvez por isso demorei a perceber que a trama de coincidências entre a vida de David e a vida do escritor de Lux Aeterna poderia não ser mais do que fruto da imaginação do próprio David. Não quis acreditar que Zafón me presenteara com um personagem tão rico de nuances, tão terno e às vezes tão bobo na sua paixão tresloucada pela Cristina, para depois me destruí-lo como um assassino esquizofrênico que, por acaso, também é o narrador do livro. E você olha para trás e percebe que as deixas sempre estiveram ali e que talvez por isso a Isabela tenha desistido dele tão facilmente. Aquela maldita cena em que a Isabela é quase estuprada na rua e que o David vai tirar satisfação verbal com os caras, depois volta com uma estranha mancha de sangue do rosto, e no dia seguinte se ouve falar que dois homens foram encontrados mortos, agredidos com uma barra de concreto... E isso tudo me dá uma pena enorme, um sentimento de "ó, meu Deus, David? O que você fez da sua vida?!" Será que toda essa 3a fase de suspense dramático, de série de investigações e assassinatos, acontecimentos tresloucados e estranhos demais para fazerem algum sentido, será que tudo isso realmente aconteceu ou não passou da imaginação desvairada do nosso protagonista? Eu acho que ainda precisarei de mais tempo e de mais leitura para realmente captar o que Zafón fez com o David.
El Juego Del Angel
Carlos Ruiz Zafon
Booket
2010
688 páginas
22h 56m
ISBN-13: 9788408094197
Espanhol
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