Cem anos depois da publicação de A interpretação dos sonhos de Freud, a psicanálise avançou na compreensão do sonho? Como podemos abordá-lo hoje? É o que esta obra interroga. Testemunha de uma prática que recorre ao conjunto da contribuição lacaniana, ela propõe extensões desta contribuição e mostra uma lógica em ação no sonho. Um material, recolhidos de adultos e crianças, é confrontado com alguns grandes sonhos da tradição freudiana e com um sonho da literatura medieval. Nesta obra encontramos uma unidade de estrutura que completa o que Freud descreveu no limiar do século XX. São esboçadas, assim, as bases de uma interpretação renovada dos sonhos.
A equação dos sonhos - e sua decifração psicanalítica
Gisèle Chaboudez
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Ver maisNo ano 2000, Gisèle Chaboudez faz uma retrospectiva de um século de interpretação psicanalítica de sonhos com base nas desdobramentos lacanianas dos elementos primordiais da obra fundadora da psicanálise. Para Freud, o sonho é a realização (disfarçada) de um desejo (suprimido, reprimido). Lacan desmembra o desejo em novos aspectos. Há o desejo, que é sempre desejo do Outro. O sujeito não suporta o desejo do Outro de outra forma que não seja o rebaixando em forma de demanda. Um exemplo da diferença entre desejo e demanda é apresentada por meio da interpretação de Lacan para o sonho clássico da bela açougueira. A sonhadora quer satisfazer a demanda de jantar da amiga, mas não essa é uma máscara de seu desejo, que é sexual (seduzir seu marido). O sonho apresenta uma demanda que encarna o desejo do Outro (sendo que o outro, com o minúsculo, é encarnado no marido). E o trabalho do sonho não é recalcar esse desejo, mas realizá-lo por meio de uma psicose alucinatória benéfica de curta duração (como Freud define o sonho em seu último escrito, Esboço da Psicanálise). Também em linguajar lacaniano, o sonho como guardião do sono é uma comporta que nos ajuda a escapar do gozo do Outro, essa invasão do real, indizível e inverbalizável, e daí vem os pesadelos, esses fracassos no trabalho do sonho (que a autora distingue dos sonhos de angústia, que ainda seguram melhor o tranco). Crítica ao Modelo Freudiano Tradicional: Chaboudez não nega a importância da contribuição de Freud, mas destaca seus limites. Ela evidencia que, na leitura freudiana, o sonho é interpretado primordialmente como uma realização de desejo, enraizado no inconsciente estruturado como linguagem. No entanto, Lacan especialmente em seu ensino tardio se afasta da centralidade do significante e introduz uma nova perspectiva onde o real ocupa um lugar fundamental. A Função dos Sonhos na Clínica do Real: Para Chaboudez, os sonhos devem ser tratados menos como enigma a ser decifrado e mais como fenômenos que tocam o real do sujeito aquilo que escapa à simbolização. Assim, o sonho não é apenas um significante a ser interpretado, mas também pode ser: - Uma equação singular que articula o gozo e o sintoma; - Um dispositivo de enodamento entre o simbólico, o imaginário e o real; - Uma produção que pode revelar impasses estruturais do sujeito, principalmente nos casos ditos fora do Édipo (psicoses, autismo, etc.). A Equação do Sonho: O termo equação no título não é metafórico. Chaboudez entende o sonho como uma configuração que permite ao sujeito estabilizar sua relação com o gozo. Essa equação se inscreve no campo do sinthoma conceito lacaniano que substitui a noção de sintoma como significante recalcado e que está mais próximo de uma solução singular e não generalizável que cada sujeito constrói para fazer frente ao real. Aspectos Técnicos e Clínicos da Interpretação: A. Interpretação Não-Decifrativa Na abordagem de Chaboudez: O analista não visa decifrar o sonho, mas posicionar-se de forma a permitir que o sujeito toque o real que o sonho transporta. A interpretação visa o choque, não o esclarecimento: trata-se de causar um efeito de ruptura, às vezes até de nonsense, que desloque o sujeito em sua relação com o sintoma. B. Função de Corte e Esvaziamento Chaboudez retoma a função de corte interpretativo presente em Lacan, especialmente nos anos 1970. A ideia é que o analista possa operar um desencadeamento do sentido, fazendo emergir aquilo que não se deixa apreender simbolicamente.
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