Guerreiros do Sol - Violência e banditismo no Nordeste do Brasil

    Frederico Pernambucano de Mello

    A Girafa
    2013
    519 páginas
    17h 18m
    ISBN-13: 9788563610058
    Português Brasileiro

    Neste livro, são mostrados tipos humanos que encontramos hoje e que surgiram já nos primeiros dias da colonização - o valentão, urbano ou rural, o cabra de bagaceira, o jagunço, o cangaceiro. Mas o autor não descreve apenas na particularidade o reflexo da violência que há muito tempo se manifesta em nosso país; analisa também o que chama de cangaço meio de vida, cangaço vingança e cangaço refúgio. ''Guerreiros do Sol' constitui o mais abrangente e profundo estudo do cangaceirismo, tema sobre o qual muito já se escreveu mas que só este livro aborda desde uma variedade de ângulos, que vão do seu condicionamento socioeconômico pelo ciclo do gado, à análise do arcaísmo cultural em que seus comportamentos deitam raízes e ao acobertamento ético que habita o cangaceiro a justificar o uso sistemático da violência perante si mesmo e perante a sociedade. Para esta tarefa, Frederico Pernambucano de Mello armou-se com um arsenal de fontes primárias de fazer inveja a qualquer estudioso: a documentação histórica propriamente dita, as coleções de jornais da terra, os depoimentos pessoais, escritos ou orais, e também a poesia sertaneja sabidamente rica.' - Evaldo Cabral de Mello. ****** Duas décadas após uma primeira edição esgotada, o mais requintado e importante livro sobre o poder, a mística e os arredores estéticos do cangaço, "Guerreiros do Sol: Violência e Banditismo no Nordeste do Brasil", escrito pelo historiador Frederico Pernambucano de Mello, está de volta. O livro desmonta, com pesquisa de calibre, a imagem de um Lampião romântico ou à Robin Hood, como foi construída pela guerrilha simbólica da literatura de cordel -veículo que ele mesmo escolheu para dar sangue épico à sua vida- e pelo marxismo simplificado e "clicheroso" de alguns historiadores que fizeram do cangaceiro uma resposta armada às injustiças dos coronéis. O poder do gado, da cerca e da casa-grande sertaneja quase sempre abrigaram Virgolino Ferreira (1898-1938) como hóspede de luxo. No dizer de Evaldo Cabral de Mello, historiador que escreveu as orelhas da nova edição, "Guerreiros" é "o mais abrangente e profundo estudo sobre o cangaceirismo". Lê-se a história contada por Pernambucano de Mello como a sociologia de Gilberto Freyre (1900-1987), sem os ares da "leseira" ou do enfado que costumam acompanhar as obras ditas mais sérias. O próprio Freyre, no prefácio original do livro, explica: "O autor parece seguir lições aprendidas muito mais com romancistas ingleses do que com pesquisadores convencionalmente no seu modo de serem científicos". O tiro mais certeiro do autor, pesquisador da Fundação Joaquim Nabuco, de Recife, é a tese do "escudo ético", que mostra como Lampião e muitos outros cangaceiros utilizavam o argumento da vingança para exercer a bandidagem. Como o crime de honra é moralmente bem visto nos sertões, a desculpa servia para encobrir o cangaceirismo como meio de vida. Lampião, lembra o autor, nunca chegou a vingar a morte do pai -o assassinato o teria transformado em um fora-da-lei. O mais célebre dos cangaceiros amealhou muito ouro. É dele a patente dos primeiros seqüestros que se tem notícia no Brasil, nos anos 20 do século passado. Cobrava caro para devolver as vítimas com vida. Como era leitor de livros e revistas, pode ter copiado o método de bandos estrangeiros. O "rei vesgo" viveu os seus últimos anos como um burguês tratado a perfume francês, uísque escocês e toda uma sorte de luxos para a caatinga. Esses sinais podem ser vistos no filme "Baile Perfumado" (1997), de Lírio Ferreira e Paulo Caldas, a quem o autor de "Guerreiros" guiou nas pesquisas. O zelo de Lampião com a indumentária, invenção que o credencia como inventor de moda, é outro aspecto que merece boas linhas. Somente os samurais, costuma dizer, mantinham a mesma preocupação. No prefácio, o professor Gilberto de Mello Kujawski compara os bandoleiros da caatinga aos japoneses descritos por Mishima no seu livro "Sol e Aço". O sol que modela e disciplina; o aço, da espada e do fuzil brilhante, que faz a correspondência entre o espírito e o corpo. (XICO SÁ)

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    R .12/01/2018Resenhou um livro
    4 (Muito bom)

    Adquiri na última black Friday de 2017 com uma vontade gigantesca de ler. Gosto do tema cangaço e a obra apresentava-se diferenciada, com notas muito positivas de jornalistas e escritores nacionais e estrangeiros na contracapa, além de prefácio de Gilberto Freire. Pesquisando sobre o autor, vemos que tem outras obras no tema e esta é uma das primeiras, publicada em 1985. Um estudo das raízes do cangaço, entendendo o meio em que se estabeleceu e as características peculiares. Acredito que é uma das principais publicações na temática. O cangaço é analisado afastando-se de conceitos clichês que o romantizam como uma insurgência contra opressão (o fator desencadeante de mitos heroicos que se perpetuam até hoje) ou um fenômeno isolado de banditismo (como se o banditismo se resumisse neles, assim como a identidade cultural). A percepção é de uma sociedade predisposta a violência e espírito aguerrido como necessidade de sobrevivência. Isso foi trabalhado no primeiro capítulo, retrocedendo-se ao colonialismo e impactos influenciadores ao homem: o clima árido e agressivo ao colonizador com as secas; o embate com povos indígenas (infelizmente uma realidade) e o avançar da criação de gado (que levou o sertanejo a isolamentos, sem ação do poder público, onde a resiliência era condição vital). Nesse isolamento o autor cita também a agressão por parte de animais selvagens. Cenário multiforme em hostilidade e influenciador ao homem. Em seguida o homem é caracterizado em diferentes tipos. No parecer do autor o banditismo se estabelecia ou poderia se estabelecer com os valentes (personalidade intrínseca ao meio), os cabras, jagunços ou capangas (contratados por detentores de poder), os pistoleiros (assassinos de aluguel) e os cangaceiros (indivíduos diversos dos anteriores que por razões específicas começaram a formar bando e se estabelecer como verdadeiros coronéis sem terra, nas palavras do autor, vivendo à margem de disciplinas e patrões. Os fatores que direcionavam ao cangaço, em geral, foram: a escolha de vida nessa forma de banditismo e as buscas por vingança ou refúgio. Foi dada atenção também ao declínio do cangaço. A principal conclusão foi o estabelecimento de uma nova era, encabeçada pelo Estado Novo. O cangaço remonta a algo arcaico, que não conseguiria se estabelecer como antes em um contexto de valorização do progresso, onde cresciam as linhas de comunicação através do telégrafo, o fator isolamento reduzia-se, cortava-se o sertão com as rodovias, as tropas militares tinham armamentos contra os quais os cangaceiros não eram páreos, e também foram isolados em uma propaganda patriótica em que a ditadura de Vargas se fortalecia. O livro gira em torno dessas coisas, evidenciando exemplos e fazendo reflexões em fatores influenciadores e escolhas. O que no final fica explícito é que foi um tipo de banditismo, mas que não foi único e nem com identidade cultural exclusiva. É mencionado também ocorrências parecidas em outras nações (México, Espanha e Portugal). Uma parte muito curiosa do livro é o acervo fotográfico. Tem mais de 50 fotografias em papel diferenciado. Aquela questão de expressões culturais se evidencia como algo comum em grupos antagônicos. Vemos cangaceiros e volantes com disposições muito parecidas, inclusive no hábito de cortar a cabeça dos inimigos. Havia uma sinistra arte de retratá-las com organização. Quando não era apenas a cabeça mostrada, o corpo era todo arrumado para posar nas fotos o mais naturalmente possível.. Não gostei apenas da apresentação acadêmica. Livros assim, principalmente quando volumosos, tendem a ficar chatos. Mas essa apresentação foi algo que o autor fez questão de privilegiar, como obra entre as pioneiras nesse estudo antropológico. Achei também que o autor levantou, ainda que com pouca ênfase, uma questão que acabou não trabalhando, Em determinado momento fala que os bandos tradicionalmente e historicamente só tinham homens, sugerindo que pudesse haver homossexualidade (não acredito nisso) e isso mudou em Lampião (que aceitou mulheres no grupo). O ponto que ficou solto é que dá a entender em determinado momento que o famoso cangaceiro podia ser afeminado (pela moda que virou clichê, seu excesso de vaidade e que teria aparecido costurando em uma filmagem). Ficou vago, por que o autor citou mas não desenvolveu argumentação. Isto é, de forma mais abrangente ele até responde, diluída no texto e não específica. Foi o que essencialmente entendi. Bandidos por essa e aquela razão, que acabaram freados na história por aquela e mais outra razão.

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