Livro excepcional. O autor tem um ponto, o expõem e destrincha ao longo de trezentas páginas e um milênio os argumentos que o sustentam. Gosto muito de análises históricas que essencialmente quebram uma dose de anacronismo involuntário que se tem. No caso, a constatação de que o modelo de estados nacionais nem sempre existiu; enquanto existiu, nem sempre foi único ou a melhor opção. Ressaltar como tudo, no fim das contas, deságua em guerra é interessantíssimo também, bem fundamentado e faz um sentido muito direto.
Dentro da inevitável necessidade por fazer algumas simplificações quando se propõe a explicar tanta área em tanto tempo, acho que o autor foi muito bem nas suas categorizações. Excesso de capital, excesso de coerção ou balanço de ambas conseguiram abarcar bem os "Estados" europeus ao longo da Idade Moderna; destaco também como o Tilly se muniu bem de argumentos minimamente específicos sobre os países europeus; cabe destacar: Rússia, Inglaterra, países nórdicos, França, Itália e Alemanha.
O livro explica bem o surgimento, as negociações para com a população, as diferentes concessões que precisaram ser feitas, os contextos geopolíticos de cada nação, o papel do capital e da coerção. Em aspas diretas do livro:
"Os Estados europeus começaram em posições muito diferentes em função da distribuição de capital e coerção concentrados. Mudaram à medida que se alteraram as interseções do capital e da coerção. Mas a competição militar acabou impelindo-os na mesma direção geral. Fortalecen ao mesmo tempo a criação e a predominância final do Estado nacional. No processo, os europeus criaram um sistema de Estado que dominou o mundo inteiro. Hoje vivemos dentro desse sistema de Estado."
E apenas para não passar sem críticas: o autor é muito ruim quando se propõe a falar de continentes que não o europeu. O último capítulo, sendo só isso, é um desastre. Chega a afirmar que a ditadura no Brasil teve apoio dos Estados Unidos para acabar porque eles teriam uma "preocupação maior com os direitos humanos". Em geral, ele levanta a possibilidade das grandes potências (leia-se EUA e URSS) contribuírem para a proliferação de golpes militares no Terceiro Mundo pós Segunda Guerra, mas trata como uma mera hipótese e sob argumentos que até a descredibilizam (surge com um número de meros 9% de intervenções externas nos golpes militares do 3° mundo). Então fica um clima meio de "esses países pobres e à margem dos direitos humanos não sabem se cuidar, têm muitos problemas, os militares são organizados e politicamente concisos e emergem organicamente como alternativa natural - apesar de ruim - à tomada do poder. Poxa vida mas que coisa, precisam tomar mais cuidado com isso!".
Mas enfim, dentro do que o livro primariamente se propõe - análise sobre o surgimento do modelo de Estado europeu - ele é excelente. Uma leitura que vale muito a pena e definitivamente me sinto intelectualmente melhor depois dela.